quinta-feira, 15 de setembro de 2011

NOITE SEM FIM - Pimeiro Ato: PERGUNTAS

Estou de volta, caros visitantes, para continuar com a epopéia Noite Sem Fim. Apreciem a leitura.


Parte Dois

Para muitos em Kannon Town, era uma noite como poucas. O vento forte impossibilitava o tráfego habitual, e o temor de tempestades mantinha quase todos no conforto de seus lares.

Maxwell, no entanto, não via diferença alguma entre o ontem e o hoje. Como de costume, recolhia os engradados para o depósito da mercearia, já que sua bondosa Tia Marcy (proprietária do local) tinha ido ao Correio.

Enquanto guardava os mantimentos, pensava em tudo que viveu até o presente momento: nada que aconteceu antes do fortuito encontro com Drake , seu irmão mais velho, lhe vinha à mente; e, há quase um ano, permaneceu na cidade trabalhando com sua tia, esperando ansiosamente pelo retorno de sua família.

Tantas dúvidas foram rapidamente postas de lado com a chegada de sua Tia, eufórica e saltitante como uma criança.

- Tenho boas novas, Max! - Um abraço apertado comprimiu seu tórax, sufocando-lhe por alguns segundos. Via de perto o sorriso radiante de Marcy, que parecia muito mais jovem que de costume. - Olívia nos mandou um telegrama!

- Oh, é mesmo? - O rapaz não expressava o contentamento de sua Tia, apesar de sentir alegria no seu íntimo. - E o quê diz a carta?

Marcy restaurava seu fôlego vagarosamente, limitado pela meia-idade, enquanto ajustava seus cabelos grisalhos em um novo coque. Espanou o surrado avental para expulsar o pó de suas roupas, antes de sentar-se no balcão e ler a carta, em alto e bom tom:

“Saudações, Tia Marcy!

Por aqui, está tudo muito bem, o trabalho com a Companhia é muito produtivo. Mas envio esta carta por duas razões muito importantes.
A primeira delas é o desaparecimento de Drake, com quem não tenho contato há pouco menos de um ano. Nessa época, ele estava aí com você, e um telegrama me foi enviado. De acordo com alguns informantes da Guilda, Drake partiu para Allaniya, e pretendo seguir no seu encalço.
A segunda razão é que será muito bom vê-la novamente, após tanto tempo. Então, dentro de um dia ou menos, estarei lhe fazendo uma visita breve antes de chegar em Allaniya – até para conhecer o tal Maxwell de quem você tanto fala!

Então, até a vista!
Olívia”

Ao término da leitura, emoções adversas dominaram a mercearia. Marcy não consegue conter as lágrimas, ao perceber que algo ruim aconteceu com aquele que criou como a um filho. Maxwell, por outro lado, permaneceu com sua habitual expressão vazia, mas a confusão lhe abatia lentamente: sentia-se feliz por saber que Olívia estava voltando a Kannon Town e, ao mesmo tempo, inconformara-se com a condição de Drake.

Ambos acabaram se percebendo, e o disfarce tornou-se inevitável. A dona da loja enxugou o rosto com a borda de seu avental, enquanto que o rapaz ergue uma caixa de garrafas em direção à porta.

- Vou fazer a entrega no saloon...

- Não demore muito, porque farei o jantar agora mesmo. - Ordenou Marcy, a voz abafada pela manga do seu braço para conter os soluços.

Cada um seguiu seu rumo no total silêncio.

***

Em passos vagarosos, Maxwell dividia suas atenções com o equilíbrio (imposto pela força dos ventos) e com a surpresa. Seu primeiro contato com a jovem aconteceria em breve, mas não sabia como agir quando a hora chegasse.

Por muitas vezes, encontrou o amparo ao escutar de sua Tia diversas histórias sobre Olívia. Num primeiro momento, sentia-se admirado pelas escolhas de sua irmãzinha (em adotar a mesma carreira de seus pais e irmão), mas tal sentimento logo tomou maior força – a um nível muito além de sua limitada compreensão...

Sem se dar conta, já estava em frente do único saloon de Kannon Town. O velho Bernie, proprietário do local, coxeara até a porta, impaciente.

- Até que enfim, garoto! Pensei que ficaria sem bebidas esta noite. - Maxwell tentava manter-se longe, de tão insuportável o cheiro de álcool e fumo.

- São setenta Buck$, senhor.

- Se a bebida estiver batizada de novo...

Maxwell já não estava mais presente para ouvir aquele sermão, e o retorno à mercearia estava garantido.

Não fosse por uma estranha sensação no ar...

Sua visão, mais aguçada que a de outros na cidade, denunciou movimentos estranhos na casa de sua Tia, e o ganido estridente de Tourrags ao fundo causavam-lhe um forte mau pressentimento.

“É uma emboscada!”

Mas era muito tarde para agir. O estrondo de armas para o alto denunciava o surgimento de assaltantes – organizados em número suficiente para superar os milicianos em turno naquela noite.

Ao redor de Maxwell, o mundo perdeu a rotação. Para onde quer que olhasse, tiros rompiam o espaço, ávidos para ceifar vidas, e pessoas fugiam desesperadamente. Não sabia como agir ou, tampouco, onde poderia se abrigar.

Antes que desse conta, um dos cavaleiros partiu à galope para a loja, e o jovem se pôs no seu caminho instintivamente. Apenas para cair no chão batido, com o tórax perfurado à altura do coração...


***

Marcy estava distraída, ocupada em preparar uma excelente refeição. A carne suculenta de Tourrag estalava na frigideira, e o aroma forte dos temperos distraíam seu paladar.

Não conseguia deixar de pensar no telegrama que recebeu há pouco, tamanho o impacto de suas palavras. Passou todo esse tempo à espera de informações sobre seu sobrinho, e a ideia de que Elfos teriam-no raptado inspirava-lhe grande medo.

Desde o momento que recebeu a tutela de Olívia e Drake, Marcy discordava com afinco das ideias de seu irmão, Johnathan, em explorar os segredos do passado. Fez de tudo para que a Arqueologia não os levasse também para uma vida de riscos constantes, mas os dois eram teimosos demais para isto: a ocupação de seus pais e sua disposição ante o perigo tornava-nos grandes heróis, e sua tendência começou a florescer no contato com livros e instrumentos da área.

“Enfim, não pude fazer nada”, suspirou. Seu esforço foi em vão, e o conformismo encontrou o seu lugar, junto com uma farta panela de arroz. “Pelo menos, não fiquei sozinha novamente”.

Nesse instante, pensou em Maxwell: neste período, o rapaz foi mais que prestativo, ainda que à sua maneira. Seu comportamento frio e distante inspirou dúvidas e insegurança em seus conhecidos, e o enfado constante da vida o tornava distinto, quase inumano...

Seu raciocínio cessou abruptamente com a cacofonia lá fora, como se uma tempestade dominasse Kannon Town. Um olhar pela janela, contudo, revelou a cruel realidade: um assalto implacável.

Marcy largou o que fazia para empunhar sua espingarda (única companheira em momentos de perigo), e foi brutalmente surpreendida por um dos saqueadores, alto e forte demais para o sobretudo que vestira. Uma de suas mãos grandes e reptantes portava um revólver, e suas pupilas fendidas não demonstravam a menor emoção.

- Se ficar bem quietinha, continuará viva. - A voz ríspida e os trejeitos desconfortáveis do bandido confirmavam a natureza selvagem dos Dragonitas, seres humanóides que descenderam do Dragão Selvagem S'haanti.

O sujeito ergueu Marcy pelo pescoço com uma das mãos, e a menteve por alguns segundos: tempo suficiente para vistoriar o aposento com seus olhos.

- Irei perguntar uma única vez. - O estalido da arma se engatilhando deu maior veracidade a suas palavras. - Onde está o dinheiro?

A proprietária da mercearia nada respondeu, concentrando-se em alcançar uma vassoura pendurada na parede, bem ao seu lado.

Infelizmente, o saqueador percebeu sua intenção, e três disparos foram a sua resposta. Um sorriso maligno exibiu as presas pontiagudas quando a parede foi tingida com uma mancha carmesim. O cadáver tombou violentamente, com um baque surdo.

Uma rápida verificação foi o suficiente para reunir dinheiro, jóias e alguns outros pertences de valor equivalente, para sua total satisfação. Pela porta dos fundos, ele saiu para montar novamente em seu Tourrag (animal bípede bem usado para montarias em toda Ghondaria).

Apenas para ser ferido por um soco, forte o bastante para lançá-lo novamente à casa.


***


A queda ruidosa de um irmão chamou as atenções do bando, que reuniu-se na mesma hora.

- O quê aconteceu?

- Vou ver isso de perto. - Assumiu um dos bandidos, descendo de sua montaria.

- Ótimo. - Disse o maior dos cavaleiros, o corpo completamente coberto por andrajos. - Você, o acompanhe enquanto eu e os rapazes cuidaremos de outro assunto.

- Sim, senhor.

O grupo maior saía de Kannon Town a todo galope, seus Tourrags carregados com mochilas e bolsas de carga. Deixaram para trás três membros de seu bando, conscientes e bem armados, tramando entre si para averiguar o quê acontece naquele momento.

- O quê te acertou?

Antes que o ferido pudesse responder, uma cômoda do mais puro cedro atravessou o ar e dispersou os comparsas, cada um para um lado.

O capanga situado à esquerda foi o primeiro a cair. Antes que pudesse reagir, um silvo rasgou o silêncio e, logo em seguida, sua cabeça...

O ruído causou tensão em cada um dos sobreviventes.

- Apareça logo, desgraçado! - Gritou o saqueador ao centro, com uma jovem comprimida entre sua mão esquerda e o cano de um revólver roçando-lhe a têmpora. - Do contrário, estourarei os miolos desta humana, está ouvin...

Um segundo silvo condenou a cena ao mais profundo silêncio, e o rolar de mais uma cabeça confirmou esta condição. Para quem sobreviveu ao assalto, a busca de refúgios pareceu-lhes a opção mais viável.

O único bandido restante estava enfrentando o temor no seu íntimo, totalmente concentrado em derrotar o inimigo assim que o visse.

No entanto, não estava preparado para encontrá-lo à sua frente.

- Mas... eu, eu...

- Me matou? - A voz de Maxwell era áspera, quase artificial. Sua mão direita assumira outra forma vagarosamente, semelhante ao cano de um revólver. Sua camisa velha de algodão possuía um buraco à altura do peito, contornado por uma mancha viva de sangue. Ao passo que a carne estava intacta.

- Você devia prestar mais atenção no seu trabalho...

O bandido se deixou levar pela impulsividade, atirando continuamente contra Maxwell. O pavor afetou e muito sua precisão e, dos seis tiros, apenas dois acertaram o jovem, mas não houve sangramento para conter. Fechando seus olhos, ele consegue fechar suas feridas instantaneamente – para o espanto de todos que assistiam ao embate.

Embasbacado, o Dragonita deixou sua arma cair no chão, com as mãos trêmulas pelo terror.

- Pft. - Maxwell zombou enquanto sua mão adotava uma nova forma, pontiaguda e muito afiada. - Hora de eliminar a ameaça...

Em um piscar de olhos, o até então inofensivo jovem dilacerou o invasor, sem o menor remorso ou piedade. O alívio da população em Kannon Town deu lugar ao medo: muitos ali presentes conheciam Maxwell, e jamais esperariam tanta brutalidade do mesmo.

Alguns mobilizaram-se para enfrentá-lo, de armas em punho e cientes do abismo que os separa. Apenas para vê-lo entrar na mercearia e, após alguns instantes, fechar sua porta e sair com uma pequena mochila de couro presa em um dos ombros.

- Pare aí mesmo, ladrão! - O velho Bernie não conseguia conter sua língua, estimulado por sua carabina e a bebedeira de mais cedo. - Depois de tudo que a Marcy fez por você, irá roubá-la e dar as costas para nós?

Maxwell deu de ombros, virando-se para encarar os descontentes.

- Se minha Tia estivesse viva, repreenderia sua ingratidão. Mas isso não importa. - Deu as costas novamente. - Irei procurar Olívia e Drake, mas primeiro farei os fugitivos pagarem pelo que fizeram!

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