segunda-feira, 28 de novembro de 2011

NOITE SEM FIM - Segundo Ato: CAMINHOS

Enfim, continuemos com mais uma parte desta história, a todos que a acompanham com frequência. Aproveitem a leitura!

Parte Seis

"Aquela garota pagará caro por isto!".

A mente de Ledger estava consternada pelo truque de Olívia, e o mesmo raciocínio passou a ser utilizado para traçar seu plano de fuga.

Observou atentamente a situação: estava escoltado por quatro guardas, armas em punho e apontadas em sua direção. O líder ficara para trás, e isso facilitava um pouco mais a situação.

Olhou discretamente para os lados, além da escuridão de becos e vielas. Parecia satisfeito com a movimentação quase imperceptível que seus olhos treinados captaram, a ponto de assobiar sem o menor compasso.

- Ei. - Um dos sentinelas o empurrou com a coronha de seu rifle. - Pare com isso.

Ledger persistiu com o ruído escarnecedor, até que novas reações distraíssem a escolta.

O momento ideal para sua fuga chegou, e o tom mais elevado do assobio foi o sinal para seus comparsas, que atacaram o comboio furtivamente.

Seus corpos foram recolhidos, e todo o sangue foi contido - medida fundamental para evitar confusões com as autoridades. Ledger estava livre outra vez, e com seu inseparável revólver nas mãos.

- Já sabem o que fazer. - Sussurrou a todos.

Como resposta, cada um dos comparsas desapareceu na escuridão urbana.


A casa de Annabell estava muito além da imaginação de Olívia. Uma mansão requintada de pedra, aos moldes da fina arquitetura Ancestral. Entre os móveis e adereços de luxo, muitas estantes de livros e papiros bem protegidos da decomposição.

- Por favor, fique à vontade, minha jovem. - A postura incisiva de outrora dissipou-se no rosto da anfitriã. Olívia pensou estar no paraíso e analisou de perto os títulos em cada estante. Annabell retornou à sala com duas xícaras de chá quente.

- Pelo visto, apreciaste minha coleção...

- É quase tão grande quanto a Biblioteca da cidade! - A jovem estava no mais profundo êxtase, como uma criança. - Tanta informação sobre nosso mundo...

Annabell riu frente a tamanho entusiasmo, como se a visse alguns anos mais jovem.

- Na verdade, boa parte destes não pertencem à Biblioteca. São o legado de minha família, e o acesso a eles deve ser limitado. Entretanto, sua dedicação me lembrou a mim mesma, e por isso queria lhe mostrar algo.

Deixou o livro de capa rubra que trouxe consigo sobre a mesa da sala e, na estante que há pouco a jovem vasculhou, retirou outros três volumes idênticos, de capa feita com o mais fino couro.

- Os professores me comentaram sobre a sua busca por dados acerca de Golens.

- Sim... - O embaraço tomou Olívia, lembrando-a novamente dos olhares de estranheza dos bibliotecários. - Eu já os pesquisava quando servi à Companhia Sandwolves, e acabei me deparando com um espécime singular.

Annabell franziu o cenho, de tão interessada no assunto.

- Descreva-me o espécime, o quê o distingue de outros tipos de Autômato. - A senhora mantinha seus questionamentos, como se a um passo de uma constatação.

Dois goles do saboroso chá foram necessários para que Olívia retomasse o seu discurso.

- Ele não possui nenhum sinal que o identifique como um Golem. Seu corpo é idêntico ao de um ser humano, e apenas a sua conduta é tão mecânica quanto um Autômato: sem qualquer sensação e/ou sentimento...

Annabell nada diz, concentrada nas palavras de sua visitante.

- Além disso, situações de risco alteram sua conduta, para uma programação defensiva previamente engatilhada. Pelo que pude perceber, seus reflexos são muito apurados e seu corpo é a única arma de que dispõe.

- Entendo. - A bondosa anfitriã tem nas mãos um dos livros que retirou anteriormente. Seus dedos passearam pelas páginas amareladas do tomo pacientemente. - Agora... Responda-me uma dúvida: como ele utiliza seu corpo em combate?

Alguns instantes de silêncio foram necessários para resgatar as memórias recentes da viajante - fatos que preferia esquecer em consideração a Maxwell.

- Ele possui controle total sobre sua composição, transformando-a em armas mortíferas a seu bel-prazer.

Um apressado gole de chá conduz a Prefeita a uma resposta clara. Colocou o livro aberto sobre a mesa, e seus dedos marcaram as páginas que registravam tal conclusão.

- Então, acho que já sabemos o quê você encontrou, minha jovem.

Olívia observou cuidadosamente cada uma das imprecisas anotações, fórmulas e esboços - aliás, bem semelhante À fisionomia do próprio Maxwell - que nunca viu em pesquisas anteriores a esta.

- Este tipo de Autômato foi desenvolvido pouco antes do término da Guerra pelo legendário Gruunak, o maior Metamago que já existiu. Sua composição básica inclui a fusão de mercúrio em um corpo recém-falecido, fresco o bastante para ser reanimado desta forma.

- Gruunak? - A jovem arqueóloga pouco faz para conter sua contrariação. - Eu pensava que a Guerra o tivesse levado ao isolamento...

- Não foi exatamente a Guerra que causou o seu isolamento, cara Olívia. - Annabell retirou o livro da mesa, o marcando com uma fita vermelha de seda. - Mas presumo que você poderá ver isso com seus próprios olhos.

A jovem percebeu que horas eram: o tempo passou tão rápido que logo se constrangeu por ocupar o tempo livre daquela dama.

- Peço desculpas por tomar o seu tempo, Senhora Willard.

- Não se incomode, minha cara Olívia. - Annabell tomou um último gole de chá antes de conduzir sua visitante à porta. - Tive minhas razões para mostrar-lhe o que tanto procurava. E não se esqueça disto aqui.

Suas mãos idosas entregaram o livro para a viajante, relutante em recebê-lo.

- Não, eu não posso aceitar, Senhora...

- Aceite-o como um presente. - Insistiu a Prefeita, com o máximo de cordialidade. - Pois uma pessoa tão obstinada quanto você merece ter o mundo à sua total disposição.

Olívia se despede com entusiasmadas mesuras, prometendo devolver o livro assim que concluísse sua busca. Em seu retorno, à estalagem, a viajante pensava apenas em retomar sua jornada - sem perceber, no entanto, que um velho conhecido lhe seguia de perto, bem ciente de seus propósitos...

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

NOITE SEM FIM - Segundo Ato: CAMINHOS

Bem, bem, bem... Depois de uma longa permanência em meu próprio mundo, volto a este para contar mais sobre minha terra. Esta noite, darei continuidade à Noite Sem Fim - pois acredito que muitos de vocês estejam curiosos sobre a história.

Aproveitem a leitura!

Parte Cinco

- "Espere-me no portão da Academia quando 'anoitecer". Que idiota!

O vento frio tornou a espera de Olívia muito mais difícil. Com um relógio prateado de bolso nas mãos, conferia o horário novamente.

Meia-noite em ponto.

Não aguentava mais esperar por uma proposta tão vazia, e voltava para sua estalagem quando esbarrou em um manto encapuzado.

- Ora, se não nos vemos de novo! - A voz rouca lhe era bem familiar, remontando seus tempos de graduação em Carson.

A jovem sente a pressão atar-lhe o antebraço, e sua intuição mostrou-se acertada.

- Não esperava vê-lo tão longe de casa, Ledger. - A entonação cínica tornou-se, para ela, sua melhor defesa. - No mínimo, levou bronca de seu patrãozinho...

Apenas o murro certeiro do sujeito conseguiu aquietá-la, e o desequilíbrio a levou ao chão pavimentado.

- A língua sempre afiada, não é? - O valentão nada fez para conter sua ira, para o total contentamento da viajante.

- E você, sempre agindo pela covardia... - Uma escarrada rubra tingiu a rua. - Por isso que nunca será mais que um capanga.

Veias estouravam na testa de Ledger, e a impaciência guiou suas mãos até o coldre em sua cintura.

- Você tem sorte, garotinha. Se o Don a quisesse morta, eu já o teria feito há anos.

Por mais que tentasse esconder, Olívia sabia bem disso. Aquele homem trabalhava para Don Knives, um dos bandidos mais temidos em toda Ghondaria. E no seu grupo, a infame Confraria dos Coiotes Escuros, trabalhavam os assassinos mais cruéis do deserto.

- Mas eu não tenho mais nada que possa interessar ao Don. Nem faço mais parte da Companhia, como você já deve saber.

- Eu não sei o que o chefe quer com você, garota. - Pigarreou. O ruído da folga em seu coldre indica o meio escolhido para sua intenção. - Mas não estou te dando uma escolha. Virás comigo até Carson, querendo ou não.

- Não seja tolo, Ledger. - Indagou a jovem, segura de si. - Para tudo neste mundo há uma escolha!

O estalo de armas engatilhando surpreendeu o bandido que, a esta altura, já estava cercado por quatro guardas a serviço de Magdalene. Cada um destes manteve seu Rifle em riste, visando a cabeça do surpreso fora-da-lei.

- Eu aconselho a não se mexer, cavalheiro. - Olívia reafirmou seu ar zombeteiro, enquanto limpava seu nariz ensanguentado com um lenço de seu bolso. - Do contrário, meu amigos podem não ser tão gentis...

Ledger deixou que os guardas o algemassem, para ser imediatamente conduzido à prisão. Ficou encarando a jovem no mais absoluto silêncio, com um sinistro sorriso. Ela sabia bem o porquê de tudo aquilo: como braço direito de Knives, ele logo estaria livre para persegui-la por onde quer que fosse.

Um homem de porte distinto aproxima-se da jovem. Seu fino traje vermelho, adornado por dragonas douradas em cada ombro, reforçavam sua posição perante os demais guardas.

- Agradeço em nome da guarda de Magdalene, por seu apoio.

O embaraço ficou evidente em Olívia.

- Diga o que podemos fazer para recompensar sua astúcia.

Antes que qualquer resposta ficasse clara, uma mulher se aproxima. Vestia um longo manto, branco e fino como a seda. Seus cabelos igualmente alvos pairavam no céu noturno, e seu rosto bem talhado pelos anos de vida denunciavam sua longa carreira.

- Não preocupe-se com isto, General Blake.

- Oh. - Uma mesura cordial foi a melhor resposta para a súbita presença daquela dama. - Como desejares, Senhorita. Se me derem licença, providenciarei o cárcere para o recém-capturado meliante.

Uma nova mesura complementa o fim da conversa, para o enfado das mulheres.

- Esses cavalheiros seriam mais eficazes, se a formalidade não fosse tão constante... - O desabafo daquela senhora despertou o bom humor de Olívia, e seu sorriso mal pôde ser contido.

- Então, finalmente conheço a jovem que causou comoção entre os alunos da Academia. - O discurso informal prosseguiu, com satisfação. - Qual o seu nome?

- Redfield. Olívia Redfield. - Apresentou-se, intimidada por tão singular presença.

- Muito prazer, Olívia Redfield. Me chamo Annabell.

Mas tal apresentação era dispensável para ela, por saber muito sobre a Prefeita de Magdalene. Já tinha visto aquela mulher durante sua graduação, ainda que à distância; mas o exemplo de altruísmo e determinação de sua linhagem permanece vivo até hoje.

- Agora, que tal sairmos do frio e bebermos um bom chá em minha casa? Pois tenho algo importante para lhe mostrar...