Saudações, caros visitantes. Daremos continuidade com a Noite Sem Fim, em um momento repleto de tramóias e movimentos do real inimigo nesta história...
Tenham uma boa leitura!
Parte Quatro
Lazzuria logo some do firmamento, deixando sua gêmea prateada à mercê das sombras mais densas na Penumbra. Olívia permanece em uma das celas, melhor acomodada que no momento de sua chegada.
Sabia muito bem a razão de tamanha cautela: desconfiança. Por várias vezes, ela ficou sabendo sobre a incursão de bandidos pelo apoio de sua Companhia, fosse formal ou informal. Ela própria acabou envolvida em um desses negócios, depois de coagida e chantageada.
Esta foi a razão verdadeira para seu desligamento da Companhia. Queria chegar a Kannon Town para sumir de vista por uns tempos, e Ledger não a importunaria nunca mais...
Evitou pensar no assunto para focar-se novamente em sua leitura, indiferente aos olhares constantes de Leeds e seus subordinados. O diário em mãos, para continuar seu trabalho de tradução, e logo desvendou dados suficientes para deixá-la perplexa.
A começar pelo nome do protótipo: "Doppëlganger". Já conhecia bem este nome, fruto de teorias e hipóteses em vários tratados sobre Metamagia. Este tipo de autômato se destacaria pelo apurado controle corporal (como seu nome indica, na Primeira Língua), possível pela mistura de componentes únicos e almas com poder suficiente para garantir sua inteligência.
Seu maior trunfo, contudo, não seria apenas o controle total sobre o seu corpo, e sim suas capacidades adaptativas: o simples contato com instrumentos de todo tipo permitiria a assimilação completa de suas propriedades, funções e resistências. Em outras palavras, próprio para qualquer tipo de situação e desafio.
Mais assustador que saber disso, foi a descoberta dos componentes utilizados na construção desse modelo: a partir da comunhão das almas de condenados oferecidos em sacrifício, seus comandos primários incluiriam a violẽncia como principal modo de resolução.
"Ele deveria ser uma impiedosa máquina de guerra!", concluiu consigo mesma. Na mesma hora, pensou em Maxwell, e tudo por ele demonstrado em seu pouco tempo de convivência. Sentiu-se amparada em sua presença, como nunca sentiu antes. Por esta razão, desejou não acreditar no que descobriu.
"Alguma coisa deve ter acontecido na sua construção, que suprimiu seus comandos primários... Mas, o quê pode ter sido?"
Seu questionamento foi abruṕtamente interrompido pelo alerta dos guardas, que dispersaram-se na escuridão urbana. O líder permaneceu na guarnição, suas mãos enrijecidas pela cautela e bem próximas do seu armamento.
Olívia deixa os livros de lado e mantém sua faca em punho, motivada por um mau pressentimento.
***
No alto de um telhado, Ledger tinha em seu alcance tudo de que precisava para cumprir o seu trabalho. Alguns metros à frente, o seu alvo: a guarnição da milícia de Highwoods. Gritos e ruídos ao fundo garantiriam o tempo para cumprir o trabalho - uma distração causada por seus capangas para afastar os guardas.
Satisfeito, desembainhou sua adaga. Fitou o contraste em sua lâmina, dois fios gêmeos de prata, unidos por um sulco negro purpúreo e nauseante. Com ela em mãos, olhou para frente: três telhados cobriam a distância entre o assassino e sua presa. Precisava ser cuidadoso, aproveitar-se da sombra noturna para passar despercebido, sem o menor ruído.
Seus saltos precisos superaram o percurso silenciosamente, com a devida cautela. Não podia deixar nenhuma pista ou testemunha para trás, e sua lâmina podia tocar um único alvo.
Jessie Leeds.
No alto da guarnição, Ledger procurou por alguma via de acesso ao seu interior. As janelas do segundo piso estavam abertas, alguns metros abaixo do telhado. Para o seu deleite, não havia ninguém lá dentro, além da sua vítima. Agarrou-se na borda do telhado com uma das mãos e, numa veloz pirueta, colocou os pés na janela com a força do impulso.
***
Olívia e Leeds sobressaltaram-se com o estouro no andar de cima, sua atenção voltada para a escadaria mais próxima. O líder local conteve sua respiração, mantendo a mira de sua espingarda com precisão. A jovem, por outro lado, manteve a faca em suas mãos, já temendo o pior...
- Mantenha-se calma, mocinha. - Alertou, com a voz baixa e pausada. O cavaleiro chegou a conter a respiração por breves segundos, om seu olhar firme vasculhando a sala.
Não foi cauteloso o bastante perante o assassino, bem armado com sua adaga venenosa. A força do salto foi suficiente para derrubar o guerreiro, e um arranhão em seu antebraço foi suficiente para injetar-lhe o veneno.
Ledger se afastou, na defensiva e, ao mesmo tempo, contemplativa. Leeds esforçava-se para ficar de pé, mas a dormência logo emergiu com a dor. Sorrindo, o assassino alcançou as escadas para se misturar à noite.
Até que Olívia interveio, um ataque desesperado contra seu velho inimigo.
- Ora, ora. - Disse, aparando o ataque com a mão nua. - O que temos aqui?
Olívia tentava se libertar, mas Ledger era muito mais forte. O assassino verificou de perto sua adaga, o sulco parcialmente preenchido com veneno.
- Você tem sorte por ter sobrado um pouco... - Comentou, puxando a jovem para perto. Ela pôde ver o veneno jorrar da lâmina, já rente ao seu braço. - Vai morrer sem o menor sinal de dor...
A surpresa interrompe suas intenções, ao estrondo de uma espingarda. O braço direito de Ledger é desfeito em uma explosaõ de sangue, até o cotovelo. A dor e o choque confundem o bandido, que só pensa em fugir. Deixou sua faca, Olívia e Leeds para trás.
O líder da milícia tomba novamente, após tanto esforço para reempunhar sua fiel arma. Depois de recolher a faca de Ledger, Olívia o acolheu para levá-lo até um médico.
Se a situação antes era caótica, na cidade tudo ficava ainda pior. A milícia desdobrava-se para apaziguar os populares e prender os baderneiros. Focos de incêndio ardiam em diversos pontos da cidade, e nenhum médico estava disponível.
- Diabos! - retrucou, retesada pela força que fez para carregar Leeds consigo. - O que posso fazer?
Um vulto aparece alguns metros à frente, indistinto e correndo para fora da cidade. Cercada por todo aquele caos e sem alternativas, a jovem resolveu tomar o mesmo rumo.
Mesmo após perder o vulto de vista, Olívia embrenhou-se na floresta. Procurava um lugar calmo e seguro para remover o veneno e improvisar um tratamento mais adequado. Mas não tinha tempo: a cada segundo, o Prefeito de Highwoods perde a cor vívida de sua pele, e a frieza em seus braços aproxima-o da morte.
A pressa causa à jovem um fortuito acidente. O trpoeço em uma raiz protuberante a fez cair, uma pancada forte o bastante para causar-lhe desmaio e deixá-la à mercê da floresta...
***
O calor luminoso das chamas de uma fogueira foi suficiente para o despertar de Olívia, bem acomodada em uma cama de madeira. Ao seu lado, Leeds repousava nas mesmas condições, com o rubor da saúde em seu rosto.
Sentou-se para conferir o lugar onde estavam, e a dor lhe atacou a nuca, envolta por bandagens. Identificou o local como uma choupana, e percebeu que alguém se aproximava.
Ao abrir da porta, a jovem nada fez para conter o pavor. Gritou de medo, assustando o Dragonita, que deixou cair no chão a esta que carregava. Frutas e grãos se espalhavam pelo chão, e ele repidamente se agachou para juntá-las.
- Mil perdões. - Respondeu, sem encarar sua visitante nos olhos, com um dialeto rude e quase gutural. - Não quis assustá-la.
Olívia estranhou a reação assustadiça de seu anfitrião. Passou os olhos rapidamente pelo casebre uma segunda vez, e não encontrou armas ou sua mochila. Logo percebeu sua nudez, a pele macia e trêmula agitando de leve os lençóis que a cobriam.
O Dragonita caminhou até o outro lado da casa, onde a fogueira e uma mesa o esperavam. Com uma faca, cortou os legumes e os colocou em uma panela de ferro, junto com água e pedaços destrinchados de coelho.
- C-como você... está se sentindo? - Perguntou à jovem, ainda desconcertado.
Ela optou pelo silêncio, de tão embaraçada com a situação. Esforçou-se para sair da cama, e foi atingida novamente pela fraqueza. Sua queda foi evitada graças á rapidez do anfitrião, que conteve sua queda.
- Aalme-se. Voê ainda está muito fraca, graças ao efeito do veneno.
"Veneno?", questionou-se. Buscou lembrar-se do acontecido, e só perebeu uma estranha mancha roxa em seu antebraço. O Dragonita esfregou sobre a ferida uma porção de banha seca, semelhante a sabão.
Recolocou-a confortavelmente na cama, como a mãe zelosa o faria com seu único filho.
- Descanse mais um pouco, e você logo ficará bem.
Interrompeu a inquietação da jovem com um gesto suave, contraditório à sua natureza bruta, e logo voltou a seus afazeres.
quinta-feira, 26 de abril de 2012
domingo, 15 de abril de 2012
NOITE SEM FIM - Terceiro Ato: DESAFIOS
Saudações, caros leitores. Eis que retorno aqui, para continuar com a Noite Sem Fim - pois os movimentos começam para algo muito maior que o destino desta terra...
Aproveitem a leitura!
Parte Três
A corrida torna-se mais difícil para Lêuciann, tão ágil e habituado à relva allaniyana. A graciosidade típica de seus irmãos deu lugar à velocidade, tão necessária para superar o adversário veloz à sua frente.
Suas pernas eram insuficientes para superar a força das quatro patas à dianteira. Entre tantas perguntas, uma certeza ganhava força em sua mente: seria este lobo o culpado pelas atrocidades que seu amigo assumiu.
Pensava em um modo de abater o fugitivo, quando a postura deste lhe surpreendeu. um salto para o chão, garras e presas à mostra para lutar. Esbaforido, o Elfo acompanhou a idéia.
- O que você quer, "duas-pernas"? - Os olhos acirrados do lupino indicavam a sua intenção, muito diferente do seu amigo Xamã. - Vá embora, antes que sua presença me irrite!
A esta altura, Lêuciann tinha em mãos o seu arco, uma flecha o fitando com sua ponta de prata.
- Por Allaria, não se mova! - Bradou, a voz enrijecida por sua própria determinação. - Você cometeu crimes contra o meu povo, e vai pagar por eles!
Os ganidos daquele Fenn-Rir assemelhavam-se a risadas infantis, do mais puro desprezo.
- Não seja tolo! Sozinho, não passas de um incômodo!
O ar torna-se mais pesado em pouco tempo, como se os brios do inverno dominassem a floresta naquele momento. As pernas de Lêuciann estavam rijas com o frio, relutantes a qualquer tipo de ação.
- Hinar'ri!
O uivo grave e furioso foi capaz de congelar tudo à sua volta: orvalho, folhas, arbustos e até mesmo a transpiração de seu adversário.
- Este será o meu último aviso, "duas-pernas". - Vociferou, com o olhar fixo enquanto lambia suas presas.
A única resposta que obteve foi a dor súbita de um ferimento: a voraz flecha de prata o atingiu de raspão em uma das patas - mais que suficiente para dissipar sua concentração.
- Vocẽ não é digno de invocar a força das florestas! - ressaltou o arqueiro, ciente das consequências de seu ataque. - Venha me enfrentar com sua própria força, se tens alguma honra em vida.
- Como desejar, "duas pernas"... - O tom escarninho deu lugar à seriedade, como a calmaria que precede a tempestade. crivou suas garras no solo, maculando-o com sua excitação. - Faremos então do seu jeito...
***
Na escuridão interminável do calabouço, Garm permaneceu imerso em sua mente, nas vãs tentativas de invocar seus guias nesta jornada.
- Ei, você. - a voz rude carregava consigo a opressão, que desconhecia até o momento. - Podes me ouvir?
o Fenn-rir ficou em silêncio, indiferente.
- Preciso de sua ajuda... para reunir o meu povo novamente. S'haanti me disse que nos traria liberdade...
Um lampejo quebou o voto silencioso do Xamã. Lembrou-se das últimas palavras do Dragonita que tentou salvar há alguns ciclos, aos pés da floresta.
"Você, servo dos Veneráveis... Convoque S'haanti, nosso pai, que o guiará pelas matas até a árvore mais alta e antiga..."
Percebeu que a prisão não era um desafio, e sim, parte do seu caminho. Raakh não negou sua Epifania: sua conduta agressiva e vingativa faz parte do seu destino - uma provação a ser superada em seu caminho.
- Farei o meu melhor para devolvê-los ao seu mundo.
Nesta hora, uma terceira voz rasga o silêncio da penumbra, límpida e completamente negativa:
- Desista, Gru-hûk. Acho que ele mal nos entende...
Garm virou-se para trás, à procura do locutor de palavras tão vazias. Encontrou um volume de trapos, pulsante como um casulo, num dos cantos da cela. Fitou profundamente a fenda entre os andrajos.
- A desesperança fere o coração como as presas de um predador, e sua ferida permanece com a resignação.
As palavras serenas provocaram uma distinta comoção naquele vulto, a ponto dos farrapos não mais lhe trazerem conforto. Livrou-se dos andrajos, e se revelou com a fragilidade dos seres humanos.
Aproximou-se do lobo desajeitadamente, mãos e pés agitando-se na madeira fria e umidecida.
- Não sei que tipo de bruxaria vocẽ usou, fera. Mas não permitirei que faça isso novamente, entendeu?
Garm continuou a fitá-lo por mais algum tempo. O cheiro lúgubre das roupas daquele prisioneiro indicava quanto tempo ele ficou preso.
"O suficiente para perder suas esperanças", concluiu.
Voltou-se mais uma vez para o sofrido Dragonita, seus olhos fixos nas órbitas fendidas, um dos legados do Grande Dragão.
- Foi o seu pai que guiou meus passos, mas eu não sei como salvá-los por ora...
Tamanha franqueza em suas palavras causou a decepção àquele suplicante, sua cabeça pesando ante o fio de esperança de seus irmãos encarceirados.
- Mas não é hora de perdermos a esperança. Nossos guias saberão quando...
Suas palavras se perderam com a distração de passos chegando. O humano engoliu em seco no mesmo instante.
- Nossa hora chegou.
***
Longe dali, um combate acirrado crescia entre as florestas. Com as mãos nuas, Lêuciann desafiou o lobo branco, desejando subjugá-lo para inocentar seu amigo.
O Fenn-rir atacava-o incessantemente, garras e presas entregues à ferocidade em seu estado mais puro. As esquivas e fintas do Elfo lhe irritavam, atiçando-lhe a sede por seu sangue.
A cada soco, a ira de Raakh aumentava. Não havia nenhum sinal de honra em seus atos, e um uivo soturno transformou o ambiente.
- Gram-Mír!
O calor repentino colocou o Elfo de joelhos, de tão intensa a febre que o acometeu. À sua frente, o lobo gania novamente - inspirado pela vitória.
- A honra existe apenas para confirmar a fraqueza no coração dos tolos. - suas palavras, assim como seu olhar frio, denunciavam suas intenções frente ao inimigo. - E os fracos devem fortalecer os fortes, dignos da vida!
antes que o seu anseio por sangue fosse saciado, algo estranho aconteceu. O soldado esforçava-se para superar aquela limitação, e percebeu que não mais estava só. Um curioso frescor tomou seu corpo completamente, dizimando a febre que o incapacitava.
- Sinta nossa presença, guerreiro. - As vozes de anteriormente voltaram à sua consciência, em tom uníssono. - Estaremos contigo, dendo-lhe força para perseguir o seu destino.
O Fenn-rir estava impressionado, seus passos vacilantes procurando um caminho seguro para fugir. Concentrava-se para encerrar o combate, invocando as ventanias da Tundra ao seu redor.
De olhos fechados, Lêuciann se agachou para tocar o solo batido com as mãos, canalizando sua vontade no mesmo. Árvores estremeceram, e a terra pulsava no compasso de seu coração.
- Então, ainda não desistiu de lutar, "duas pernas".
O Elfo ignorou o desafio, fixando sua visão naquele lobo.
Sua reação, no entanto, partiu da própria floresta: os arbustos enredaram sorrateiramente as patas de Raakh, e folhas secas imobilizaram seu corpo.
A concentração do lupino é destruída pela dor dos galhos que penetravam por seu couro. Cicatrizes se abriam, o sangue abrindo veios por entre sua imaculada pelagem.
Após tolerar tanta dor, acabou inconsciente - em tempo para que Lêuciann encerrasse o seu ataque, e retomasse o controle de seus atos.
- O... que... aconteceu...?
A exaustão se faz presente nesta hora, cobrando seu tributo após uma demonstração fantástica de poder como essa...
***
Os guardas mantiveram seu ar ríspido quando abriram a cela. Pouco mais de dez Elfos, armados com lanças e carregando uma única tocha, retiraram Garm, Gru-hûk e o prisioneiro humano da escuridão, para conduzi-los a outra câmara.
a postura dos sentinelas oprimia ainda mais o Dragonita e o humano, e pouco pôde ser feito para manter a esperança neles.
- Algum plano em mente...? - O humano era, dentre os três, o mais apreensivo.
Não obteve resposta, senão uma forte pancada em seu flanco esquerdo. Mal viu o guarda retomando sua postura, pois estava mais preocupado com a indiferença de seus companheiros de cela...
A troca de olhares fixa entre o Dragonita e o Fenn-rir os deixava focados em seu contato empático.
- Que S'haanti, Allaria e os Senhores deste mundo possam abrir os olhos das Druidas neste julgamento...
- Eles o farão, sem sombra de dúvidas. Nos darão força para vencer a Escuridão que floresce aqui...
Gru-hûk assumiu a serenidade em seus olhos fendidos.
- Então, você percebeu.
- Não será o primeiro e, tampouco, o último combate com a Sombra. Há poucos ciclos, eu e um amigo a enfrentamos em uma aldeia próxima.
- A cada dia, florestas choram com a força sombria. Não há mais lugar para mim, e meus irmãos, mesmo entre os Elfos.
A curiosidade do Xamã cresceu com esse desabafo.
- Por isso, vocês acabaram detidos...?
- Pragas, e a fome, atacaram meu povo. Busquei reuni-los para lembrar os Elfos da irmandade que nos uniu no passado, em tempos de guerra.
O réptil deixou-se sufocar pela tristeza.
- Recebemos a ira deles, e nossa luta pela vida tornou-se árdua. Tornamo-nos presas de inúmeras caçadas, e vi muitos morrerem para suas flechas. Tudo isso por desejarmos a dignidade dos tempos antigos.
- Por desejar a paz definitiva, contrariei as ordens do Pai para me oferecer em sacrifício: minha vida e carne, para poupar aqueles que sobreviveram. Acabei enganado pelas Druidas, e todos foram capturados para um cruel sacrifício.
Garm ficou sensibilizado com tamanha angústia, e procurou por uma resposta contra esse mal. Guardas e Duridas jovens preparavam os prisioneiros para o julgamento, com banhos frios e roupas próprias - mantos brancos, de seda pura.
O Xamãbuscou decifrar os sentimentos daquele humano, na intenção de tranquilizá-lo. Mas o próprio mantinha-se esquivo, sem interesse para conversas.
Depois dos devidos cuidados, os três prisioneiros foram conduzidos para fora da árvore, onde um rútico tribunal ao ar livre os espera. Na clareira, Druidas e soldados formavam um círculo em torno dos réus, e de uma respeitável anciã Élfica - a mesma que os recebeu na Sequóia.
Aproveitem a leitura!
Parte Três
A corrida torna-se mais difícil para Lêuciann, tão ágil e habituado à relva allaniyana. A graciosidade típica de seus irmãos deu lugar à velocidade, tão necessária para superar o adversário veloz à sua frente.
Suas pernas eram insuficientes para superar a força das quatro patas à dianteira. Entre tantas perguntas, uma certeza ganhava força em sua mente: seria este lobo o culpado pelas atrocidades que seu amigo assumiu.
Pensava em um modo de abater o fugitivo, quando a postura deste lhe surpreendeu. um salto para o chão, garras e presas à mostra para lutar. Esbaforido, o Elfo acompanhou a idéia.
- O que você quer, "duas-pernas"? - Os olhos acirrados do lupino indicavam a sua intenção, muito diferente do seu amigo Xamã. - Vá embora, antes que sua presença me irrite!
A esta altura, Lêuciann tinha em mãos o seu arco, uma flecha o fitando com sua ponta de prata.
- Por Allaria, não se mova! - Bradou, a voz enrijecida por sua própria determinação. - Você cometeu crimes contra o meu povo, e vai pagar por eles!
Os ganidos daquele Fenn-Rir assemelhavam-se a risadas infantis, do mais puro desprezo.
- Não seja tolo! Sozinho, não passas de um incômodo!
O ar torna-se mais pesado em pouco tempo, como se os brios do inverno dominassem a floresta naquele momento. As pernas de Lêuciann estavam rijas com o frio, relutantes a qualquer tipo de ação.
- Hinar'ri!
O uivo grave e furioso foi capaz de congelar tudo à sua volta: orvalho, folhas, arbustos e até mesmo a transpiração de seu adversário.
- Este será o meu último aviso, "duas-pernas". - Vociferou, com o olhar fixo enquanto lambia suas presas.
A única resposta que obteve foi a dor súbita de um ferimento: a voraz flecha de prata o atingiu de raspão em uma das patas - mais que suficiente para dissipar sua concentração.
- Vocẽ não é digno de invocar a força das florestas! - ressaltou o arqueiro, ciente das consequências de seu ataque. - Venha me enfrentar com sua própria força, se tens alguma honra em vida.
- Como desejar, "duas pernas"... - O tom escarninho deu lugar à seriedade, como a calmaria que precede a tempestade. crivou suas garras no solo, maculando-o com sua excitação. - Faremos então do seu jeito...
***
Na escuridão interminável do calabouço, Garm permaneceu imerso em sua mente, nas vãs tentativas de invocar seus guias nesta jornada.
- Ei, você. - a voz rude carregava consigo a opressão, que desconhecia até o momento. - Podes me ouvir?
o Fenn-rir ficou em silêncio, indiferente.
- Preciso de sua ajuda... para reunir o meu povo novamente. S'haanti me disse que nos traria liberdade...
Um lampejo quebou o voto silencioso do Xamã. Lembrou-se das últimas palavras do Dragonita que tentou salvar há alguns ciclos, aos pés da floresta.
"Você, servo dos Veneráveis... Convoque S'haanti, nosso pai, que o guiará pelas matas até a árvore mais alta e antiga..."
Percebeu que a prisão não era um desafio, e sim, parte do seu caminho. Raakh não negou sua Epifania: sua conduta agressiva e vingativa faz parte do seu destino - uma provação a ser superada em seu caminho.
- Farei o meu melhor para devolvê-los ao seu mundo.
Nesta hora, uma terceira voz rasga o silêncio da penumbra, límpida e completamente negativa:
- Desista, Gru-hûk. Acho que ele mal nos entende...
Garm virou-se para trás, à procura do locutor de palavras tão vazias. Encontrou um volume de trapos, pulsante como um casulo, num dos cantos da cela. Fitou profundamente a fenda entre os andrajos.
- A desesperança fere o coração como as presas de um predador, e sua ferida permanece com a resignação.
As palavras serenas provocaram uma distinta comoção naquele vulto, a ponto dos farrapos não mais lhe trazerem conforto. Livrou-se dos andrajos, e se revelou com a fragilidade dos seres humanos.
Aproximou-se do lobo desajeitadamente, mãos e pés agitando-se na madeira fria e umidecida.
- Não sei que tipo de bruxaria vocẽ usou, fera. Mas não permitirei que faça isso novamente, entendeu?
Garm continuou a fitá-lo por mais algum tempo. O cheiro lúgubre das roupas daquele prisioneiro indicava quanto tempo ele ficou preso.
"O suficiente para perder suas esperanças", concluiu.
Voltou-se mais uma vez para o sofrido Dragonita, seus olhos fixos nas órbitas fendidas, um dos legados do Grande Dragão.
- Foi o seu pai que guiou meus passos, mas eu não sei como salvá-los por ora...
Tamanha franqueza em suas palavras causou a decepção àquele suplicante, sua cabeça pesando ante o fio de esperança de seus irmãos encarceirados.
- Mas não é hora de perdermos a esperança. Nossos guias saberão quando...
Suas palavras se perderam com a distração de passos chegando. O humano engoliu em seco no mesmo instante.
- Nossa hora chegou.
***
Longe dali, um combate acirrado crescia entre as florestas. Com as mãos nuas, Lêuciann desafiou o lobo branco, desejando subjugá-lo para inocentar seu amigo.
O Fenn-rir atacava-o incessantemente, garras e presas entregues à ferocidade em seu estado mais puro. As esquivas e fintas do Elfo lhe irritavam, atiçando-lhe a sede por seu sangue.
A cada soco, a ira de Raakh aumentava. Não havia nenhum sinal de honra em seus atos, e um uivo soturno transformou o ambiente.
- Gram-Mír!
O calor repentino colocou o Elfo de joelhos, de tão intensa a febre que o acometeu. À sua frente, o lobo gania novamente - inspirado pela vitória.
- A honra existe apenas para confirmar a fraqueza no coração dos tolos. - suas palavras, assim como seu olhar frio, denunciavam suas intenções frente ao inimigo. - E os fracos devem fortalecer os fortes, dignos da vida!
antes que o seu anseio por sangue fosse saciado, algo estranho aconteceu. O soldado esforçava-se para superar aquela limitação, e percebeu que não mais estava só. Um curioso frescor tomou seu corpo completamente, dizimando a febre que o incapacitava.
- Sinta nossa presença, guerreiro. - As vozes de anteriormente voltaram à sua consciência, em tom uníssono. - Estaremos contigo, dendo-lhe força para perseguir o seu destino.
O Fenn-rir estava impressionado, seus passos vacilantes procurando um caminho seguro para fugir. Concentrava-se para encerrar o combate, invocando as ventanias da Tundra ao seu redor.
De olhos fechados, Lêuciann se agachou para tocar o solo batido com as mãos, canalizando sua vontade no mesmo. Árvores estremeceram, e a terra pulsava no compasso de seu coração.
- Então, ainda não desistiu de lutar, "duas pernas".
O Elfo ignorou o desafio, fixando sua visão naquele lobo.
Sua reação, no entanto, partiu da própria floresta: os arbustos enredaram sorrateiramente as patas de Raakh, e folhas secas imobilizaram seu corpo.
A concentração do lupino é destruída pela dor dos galhos que penetravam por seu couro. Cicatrizes se abriam, o sangue abrindo veios por entre sua imaculada pelagem.
Após tolerar tanta dor, acabou inconsciente - em tempo para que Lêuciann encerrasse o seu ataque, e retomasse o controle de seus atos.
- O... que... aconteceu...?
A exaustão se faz presente nesta hora, cobrando seu tributo após uma demonstração fantástica de poder como essa...
***
Os guardas mantiveram seu ar ríspido quando abriram a cela. Pouco mais de dez Elfos, armados com lanças e carregando uma única tocha, retiraram Garm, Gru-hûk e o prisioneiro humano da escuridão, para conduzi-los a outra câmara.
a postura dos sentinelas oprimia ainda mais o Dragonita e o humano, e pouco pôde ser feito para manter a esperança neles.
- Algum plano em mente...? - O humano era, dentre os três, o mais apreensivo.
Não obteve resposta, senão uma forte pancada em seu flanco esquerdo. Mal viu o guarda retomando sua postura, pois estava mais preocupado com a indiferença de seus companheiros de cela...
A troca de olhares fixa entre o Dragonita e o Fenn-rir os deixava focados em seu contato empático.
- Que S'haanti, Allaria e os Senhores deste mundo possam abrir os olhos das Druidas neste julgamento...
- Eles o farão, sem sombra de dúvidas. Nos darão força para vencer a Escuridão que floresce aqui...
Gru-hûk assumiu a serenidade em seus olhos fendidos.
- Então, você percebeu.
- Não será o primeiro e, tampouco, o último combate com a Sombra. Há poucos ciclos, eu e um amigo a enfrentamos em uma aldeia próxima.
- A cada dia, florestas choram com a força sombria. Não há mais lugar para mim, e meus irmãos, mesmo entre os Elfos.
A curiosidade do Xamã cresceu com esse desabafo.
- Por isso, vocês acabaram detidos...?
- Pragas, e a fome, atacaram meu povo. Busquei reuni-los para lembrar os Elfos da irmandade que nos uniu no passado, em tempos de guerra.
O réptil deixou-se sufocar pela tristeza.
- Recebemos a ira deles, e nossa luta pela vida tornou-se árdua. Tornamo-nos presas de inúmeras caçadas, e vi muitos morrerem para suas flechas. Tudo isso por desejarmos a dignidade dos tempos antigos.
- Por desejar a paz definitiva, contrariei as ordens do Pai para me oferecer em sacrifício: minha vida e carne, para poupar aqueles que sobreviveram. Acabei enganado pelas Druidas, e todos foram capturados para um cruel sacrifício.
Garm ficou sensibilizado com tamanha angústia, e procurou por uma resposta contra esse mal. Guardas e Duridas jovens preparavam os prisioneiros para o julgamento, com banhos frios e roupas próprias - mantos brancos, de seda pura.
O Xamãbuscou decifrar os sentimentos daquele humano, na intenção de tranquilizá-lo. Mas o próprio mantinha-se esquivo, sem interesse para conversas.
Depois dos devidos cuidados, os três prisioneiros foram conduzidos para fora da árvore, onde um rútico tribunal ao ar livre os espera. Na clareira, Druidas e soldados formavam um círculo em torno dos réus, e de uma respeitável anciã Élfica - a mesma que os recebeu na Sequóia.
segunda-feira, 9 de abril de 2012
PLAYTEST GHONDARIA
Saudações, caros visitantes!
Esta noite, não venho para contar mais sobre o meu povo, ou sobre a cultura dos ghondarianos.
Desta vez, venho pedir o seu auxílio.
Meu mundo precisa de sangue novo para enfrentar seus males. A Escuridão cresce como um câncer, drenando a vida e vontade dos sobreviventes.
Cada povo se deixa levar pela xenofobia das eras passadas, deixando aflorar uma cultura irracional e centrada no ódio.
O mundo se desfalece a cada instante, sua força vital se devorando após o descontrole da Dissonância.
E os poucos que estão cientes de tudo isso lutam com suas forças para evitar que tudo tenha um trágico fim...
O que você, caro aventureiro, fará por este mundo? Deixará que tudo chegue ao inevitável e amargurado ápice, ou desbravará este mundo em busca de aventuras, desafios e a chave para a vitória dos ghondarianos?
Se optou pela segunda opção, eis o caminho para alcançares Ghondaria:
https://rapidshare.com/files/4221175158/Ghondaria.pdf
E boa sorte a todos que por lá se aventurarem!
Esta noite, não venho para contar mais sobre o meu povo, ou sobre a cultura dos ghondarianos.
Desta vez, venho pedir o seu auxílio.
Meu mundo precisa de sangue novo para enfrentar seus males. A Escuridão cresce como um câncer, drenando a vida e vontade dos sobreviventes.
Cada povo se deixa levar pela xenofobia das eras passadas, deixando aflorar uma cultura irracional e centrada no ódio.
O mundo se desfalece a cada instante, sua força vital se devorando após o descontrole da Dissonância.
E os poucos que estão cientes de tudo isso lutam com suas forças para evitar que tudo tenha um trágico fim...
O que você, caro aventureiro, fará por este mundo? Deixará que tudo chegue ao inevitável e amargurado ápice, ou desbravará este mundo em busca de aventuras, desafios e a chave para a vitória dos ghondarianos?
Se optou pela segunda opção, eis o caminho para alcançares Ghondaria:
https://rapidshare.com/files/4221175158/Ghondaria.pdf
E boa sorte a todos que por lá se aventurarem!
domingo, 1 de abril de 2012
CULTURA GERAL GHONDARIANA
Saudações, caros visitantes! Eis que, nesta noite, trarei algo um pouco diferente...
Ainda que diferenças antigas originem um abismo entre as Etnias ghondarianas, existe convergência entre alguns contextos culturais. Todos os Veneráveis (ou os Primevos que ascenderam à semelhante condição) são conhecidos por todos, mas vistos por desdém (em especial pelos Redlanders, que sequer lembram-se daquele que lhes deu vida).
Organização Climática e Temporal
Graças à Dissonância, o clima tornou-se caótico em Ghondaria. Períodos de calor intenso mesclam-se a tempestades e nevascas quase permanentes. Tanto desequilíbrio originou-se do surgimento de Lazzuria, a Lua Azul – que, juntamente com Azzaria, a Lua Branca, realizam um ciclo anual composto por cinco estações distintas, caracterizadas como Períodos (cada um associado aos mais importantes dentre os Veneráveis). Eis sua descrição, na sua ordem natural:
- Brumário: Sem dúvida, o Período mais tenebroso dentre os conhecidos. Para os Elfos, é o mais agradável por suas noites úmidas e enevoadas – motivo este para qualquer celebração à Allaria ocorrer no Brumário, que Se assemelha ao clima predominante na Era Ancestral;
- Geadas: Em homenagem ao gélido Predador Fenn, o clima frio deste Período é intenso a ponto de congelar lagos e cobrir a terra com neve densa. Nevascas são comuns nesta época, mesmo no Mar Aberto, e atividades comuns à população (como viagens ou agricultura) tornam-se praticamente impossíveis. Para os Fenn-Rir, a época torna-se marcada por muitas festas e confraternizações em honra aos Veneráveis do Leste;
- Insolatus: O período mais seco dentre os conhecidos, caracteriza-se pela escassez de chuvas e altas temperaturas em todo o território ghondariano (mesmo em Bohrran, a temperatura se altera nesse sentido, em menor intensidade). Diretamente relacionado a Logus e toda a ruína que sua incessante ambição causou, o Período conhecido como Insolatus traz, com seu calor escaldante e seco, as lembranças do pior dos momentos de sua história..;
- Penumbra: De clima ameno e seco, a maior característica deste Período é a total ausência de luz solar. Durante sua duração, não existe dia no Período Penumbra, e a escuridão torna-se mais densa que em outras noites. Dizem os rumores (mais compreendidos pelos Elfos e Fenn-Rir) que tal Período surgiu pela influência de Pai Sombra, que permite aos mortos exercer livremente seus desejos;
- Tropical: O mais agradável dentre os Períodos que influenciam Ghondaria, com seu clima úmido e a presença constatnte de bons ventos. Em homenagem à S'haanti e Marínia, é o Período ideal para o cultivo e a navegação – desde que não ocorra uma tempestade, como tornou-se comum com o passar dos tempos.
Graças à presença dos Períodos, a contagem temporal de Ghondaria se alterou: cada Ciclo é composto por quinhentos dias, sendo que cada Período possui cem dias de duração.
Atividades Econômicas
A única unidade monetária em Ghondaria é o Buck (B$), desde os tempos Ancestrais – uma vã tentativa de unificar os povos através do comércio. Atualmente, o Buck é utilizado principalmente por Owllianos, Hennerianos e Redlanders, um reflexo da confiança construída por acordos comerciais e diplomáticos.
Apesar da escassez de áreas próprias para o plantio em larga escala, Ghondaria consegue se seustentar adequadamente. A produção de frutas de clima frio em Allaniya e tropicais nas Ilhas Corsárias, a pecuária de corte de Tourrags nas Redlands e a pesca no Mar Aberto garantem o trabalho e a subsistência da população (ou, pelo menos, de parte dela). Tal convivência parece abrandar todo tipo de animosidade existente no território ghondariano: a cada acordo forjado, a paz parece mais próspera – ou, pelo menos, a esperança que a cerca...
Comunicação
Para que um povo possa tornar-se civilizado, o primeiro passo é a constituição de um idioma, um meio de transmitir ideias entre indivíduos. Desde seu princípio, sempre existiu uma língua, compartilhada pelos Prímais e seus Herdeiros: as palavras da Primeira Língua (como ficou denominada) foram fundamentais para permitir que o mundo Ancestral nascesse – e, ao mesmo tempo, ruísse pelas intrigas e afrontas entre os povos.
Ao término da Guerra, não existia mais harmonia e, tampouco, a necessidade por comunicação. Elfos mantiveram a Primeira Língua para si, enquanto que os Penitentes precisaram desenvolver um novo idioma, denominado Nova Língua (hoje, amplamente usado nas Redlands).
Hennerianos combinaram o Henyar (seu antigo idioma, ensinado por Hennier) com a Nova Língua para compôr um dialeto, chamado Hannyar, a “Palavra Nova”. Dragonitas, por sua vez, mesclaram a Primeira Língua com grunhidos, rosnados e outros sons – compondo, assim, o Krunhn, a “Voz das Matas” (idioma posteriormente adotado pelos Fenn-Rir, entre seus irmãos).
O contato íntimo com o Mundo dos Sonhos permitiu aos Owllianos superar as limitações de seu corpo: a falta de uma estrutura vocal sofisticada não permite o aprendizado da Primeira Língua e seus dialetos, mas sua percepção e sinceridade permitem a formação de uma comunicação plena, por meio de um breve vínculo empático (o mesmo acontece com os Fenn-Rir, mediante concentração). No entanto, suas mensagens só podem ser transmitidas a um único indivíduo, se este o encarar profundamente nos olhos (fato este que reforça o caráter aparentemente inofensivo deste povo).
A Dádiva do Fluxo
Desde seu princípio, todo ser vivo surgiu a partir do Fluxo, a força ímpar e primária do universo. Foi a partir da concentração deste poder que o Tecelão, segundo as lendas, criou Ghondaria e tudo que neste mundo vive, ou viveu.
Desde sua concepção, seres civilizados tinham consciência sobre o que motivam seu “existir”: Elfos aprenderam a unir as parcelas de Fluxo em seus corpos com as florestas, e os Homens aprenderam a manipular a matéria para cumprir seus propósitos. Os povos selvagens, por outro lado, aprenderam a respeitar os Veneráveis – entidades representativas do Fluxo, responsáveis pelas forças que regem a vida em Ghondaria.
A manipulação desmedida deste poder ocasionou a Guerra Arcana, e o mundo começou a sangrar lentamente. A Dissonância quase colocou tudo a perder, não fosse pela união de Allaria, S'haanti e dos Veneráveis. O Fluxo deixou de ser controlável como antes, e as incertezas do futuro causam temor para todos.
No entanto, sua manipulação ainda é possível para poucos, que possuem vínculo direto com o mesmo. A tristeza do passado não privou os Elfos de seu contato natural, Owllianos receberam este dom artificialmente, Hennerianos aprenderam com Hennier e Marínia este poder, o utilizando apenas em casos extremos.
As Doutrinas do Fluxo
De acordo com seu foco de influência, a manipulação configura-se em três Doutrinas – “escolas” de controle fundamentadas por uma crença específica. Cada uma destas Doutrinas possui sua própria história, origens e técnicas em particular, bem como seu próprio Canal (meio de intervenção com o mundo, um elo que permita sua manipulação).
Assim sendo, eis as Doutrinas conhecidas em Ghondaria:
- Animismo: Sem dúvidas, a Doutrina mais antiga em toda Ghondaria. Nascida com os primeiros contatos entre os Fenn-Rir e os Veneráveis, o Animismo parte do respeitoso consenso entre os vivos e os Espíritos em geral, e apenas este tipo de relação permite a realização de Pactos (acordos entre o usuário de Animismo e um Espírito específico, resultante em uma troca de favores).Ao tornar-se um Xamã, o personagem torna-se proficiente na formação de Pactos com todo tipo de Espírito, desde que conheça o nome de cada um dos mesmos e realize Sacrifícios (o Canal exigido para esta Doutrina). Naturalmente, a escolha por esta Doutrina torna o Xamã suscetível à presença destas entidades, e sua comunicação torna-se facilmente executável. Ao realizar um Pacto, o usuário Animista poderá recorrer a entidades espirituais para manipular elementos (fogo, terra, vento e água), objetos e condições (como o próprio tempo, por exemplo);
- Metamagia: A mais temida dentre as Doutrinas regentes do Fluxo, a Metamagia ocasionou a ascensão e, posteriormente, queda do mundo ghondariano. Desenvolvida a partir de muitos estudos sobre a matéria em toda sua composição e propriedades físicas, a Metamagia permite a manipulação efetiva de material inorgânico, para qualquer tipo de fim.
Delimitada por testes e experimentos como um campo científico, a Doutrina Metamágica torna-se executável a partir das energias de seu conjurador (denominado publicamente como Metamago), e a posterior subjugação da energia externa ao mesmo. O conhecimento sobre ciência torna-se imprescindível para o controle de suas façanhas – delimitando formas precisas e funcionais para suas criações, passíveis de compreensão e controle.
Obviamente, esta Doutrina permite o controle pleno e livre sobre a matéria inorgânica (Terra e Metais e a metafísica, independente de qual seja sua composição e natureza);
- Taumaturgia: Presente desde o nascimento de Allaria e seus Herdeiros, esta Doutrina representa o vínculo natural entre todo ser vivo e o mundo à sua volta. A fé torna-se o elemento prímal para o cumprimento desta Doutrina, e a vida seu maior objetivo.
Para um Sacerdote, o Etos que jurou defender com suas forças torna-se o Canal, seu guia no manejo da Doutrina Taumatúrgica. Partindo de sua fé, o manipulador torna-se apto a ter, sob seu pleno controle, a vida em suas mãos: curar as feridas de seus pares, dar alimento a quem dele precisa e reconstruir a vida natural no mundo tornam-se parte do seu objetivo enquanto vivo, e a paz só será encontrada por ele quando cumprir seu papel no mundo.
Canalização do Fluxo
Para que uma Manipulação possa se concretizar, é preciso que o desejo de seu convocador mantenha-se entre si próprio e o Mundo Real – isso é possível apenas com o manejo adequado do Canal.
Por Canal entende-se como a racionalidade intrínseca do desejo, o procedimento adequado para o cumprimento de sua intenção perante a força. Palavras, gestos e instrumentos fundamentais para que o Destino se acumule e a façanha se concretize. Cada uma das Doutrinas fundamenta-se em uma trilha filosófica, cujo apego não apenas justifica os acontecimentos e suas consequências, como também torna-se o único meio de concentração e foco para realizar todo tipo de manipulação.
Dessa forma, eis as possíveis compreensões para canalizar o Fluxo – cada uma destas associada a suas respectivas Doutrinas de Manipulação:
- Animismo: A compreensão da vida e mundo para um Xamã corresponde a um ciclo, bem atado pelas “linhas” – metáfora esta que representa os elos entre o poder para os desejos e o servivo que pretende cumpri-los. Assim, o Canal torna-se cada Sacrifício (e/ou Festim, se mais Xamãs estiverem presentes) é desempenhado para um tipo de entidade que, a partir de um Pacto, realizará o desejo de quem o convocou;
- Metamagia: O apoio nas ciências é imprescindível para o serviço dos Metamagos, para que o planejamento de sua ação torna-se mais acessível. Logo, um Metamago precisará recorrer a seu conhecimento teórico-prático neste campo, como a execução de equações e cálculos relacionados à façanha em questão (como calcular a trajetória e velocidade para arremessar um objeto, por exemplo);
- Taumaturgia: O foco de toda atuação Taumatúrgica parte da confiança do indivíduo perante seu Etos, a fé que o impulsiona para seus objetivos. Com o símbolo de sua crença em mãos e proferindo preces, um Sacerdote será capaz de superar qualquer tipo de desafio. Logo, toda e qualquer manifestação de fé torna-se o Canal para Manipulações Taumatúrgicas, e pode ser de qualquer tipo (oração, penitência, cânticos de louvor, inscrições e símbolos de fé, entre outras possibilidades).
Efeitos Dissonantes
Embora seja tentador o manejo constante do Fluxo, a cautela deve ser o maior aliado para um Manipulador – pois o resultado desfavorável no seu desfecho pode desencadear um caos ainda maior...
Caso não tenha sucesso no cumprimento do seu desejo, o manipulador (e, geralmente, todos ao seu redor) soferão com um “contra-ataque” violento – um reflexo de sua ação se voltando contra aquela que a provocou. A esse tipo de efeito denomina-se Efeito Dissonante, um caótico vínculo com a Escuridão desencadeada no passado.
Uma vez que o Efeito Dissonante tenha início, tudo torna-se possível nos arredores. No âmbito controlado pela Doutrina do manipulador, o controle deixa de existir: um Metamago que desencadeou a Dissonância causaria o despertar da Escuridão, que domina a matéria para causar o mal a todos em seu alcance, por exemplo. Não há limite ou lógica para o que pode acontecer em um Efeito Dissonante, a não ser que a Sombra seja detida – uma vez que Inquietos podem nascer desse tipo de circunstância, é o melhor momento para eliminá-los antes que ganhem força...
Tecnologia Ancestral
Mesmo após tanto tempo entregues ao esquecimento, as máquinas e instrumentos desenvolvidos na Era Ancestral continuam ao alcance da sociedade atual. Os Redlanders, na sua ávida busca pelo saber perdido, exploram ruínas do seu país e tentam decifrar os segredos de cada Relíquia. Owllianos buscam aprimorar os procedimentos que Gruunak catalogou em vida, com o intuito de dissipar as máculas do passado. Por outro lado, Hennerianos e povos do Pacto Natural preocupam-se apenas com o futuro, e não possuem o menor interesse sobre os perigos do passado...
O legado Ancestral é vasto, basicamente inspirado na manipulação Metamágica – abrindo, dessa forma, uma vasta gama de possibilidades. As mais perigosas criações, no entanto, são também as mais comuns, e até o mais experiente aventureiro pode ser uma vítima em potencial...
Muitas das ruínas Ancestrais que se têm notícia eram oficinas ou locais de armazenamento para máquinas de guerra: em especial, Golens (autômatos reforçados e designados exclusivamente para combates) e Meta-Destróieres (veículos terrestres e/ou aéreos fortemente armados para guerrilhas em todo lugar).
Seu manejo é possível apenas com a posse de uma ou mais Gemas Arcanas – pedras especialmente desenvolvidas do Fluxo, solidificadas a partir de extenuantes rituais Metamágicos. No momento de sua elaboração, define-se qual será o propósito da Gema: finalidade marcial (se associada em uma arma e/ou proteção), auxílio em manipulações (se associado em um acessório preparado, como um bracelete ou cetro), propriedades médicas (se moída e administrada como um remédio), combustível para acionar máquinas e garantir o seu controle (se banhadas no sangue de seu controlador).
Outros tipos de criações ainda persistem ao passar dos anos, bizarras e acima de qualquer grau de conhecimento hoje em dia: gigantescas fortalezas móveis, propelidas pelo consumo de Gemas em grande escala e fortemente armadas e naves gigantescas de transporte. Este tipo de aparato foi elaborado a partir do consumo excessivo de Fluxo (o suficiente para erradicar a vida em quilômetros de área), e sua confecção nos tempos de hoje torna-se impraticável. No entanto, sabe-se que muitos aventureiros (cegos pela ganância e ludibriados por lendas locais) buscam força suficiente para reanimar estes “gigantes” e, com o manejo de sua força, subjugar os povos à sua mercê...
Tecnologia Ghondariana
A diversidade cultural em Ghondaria torna-se mais perceptível no resumo de suas capacidades tecnológicas. De um lado, o ferro e o vapor tornam possível a vitória sobre a desolação dos Desertos: do outro, rústicas ferramentas combinam a vida cotidiana com a exuberante flora e fauna deste mundo.
Cada uma das culturas ghondarianas possui seus próprios interesses, que direcionam, respectivamente, seu desenvolvimento tecnológico. As necessidades gerais também auxiliam neste sentido, caso as capacidades naturais da população sejam insuficientes para cumpri-lo.
Seguem alguns exemplos da tecnologia existente em Ghondaria, caracterizada pelas Etnias que os desenvolveram. Os jogadores, bem como o Mestre, podem utilizar estes exemplos para desenvolver novas criações durante a Trama e, consequentemente, enriquecer suas Aventuras.
Redlanders: Sem dúvida, os pioneiros no desenvolvimento tecnológico. A construção de máquinas a vapor surgiu da comunhão entre a necessidade por adaptação a um ambiente hostial e a falta de recursos naturais. Da sucata e ferragens retorcidas pela Guerra Arcana, surgiram as primeiras escavadeiras, motivadas pela sede que consumiu a vida de muitos.
Atualmente, a vida tornou-se mais prática nos Desertos. Toda cidade possui seus próprios poços artesianos, e seus detritos são eliminados por um sistema simples de saneamento. Sua arquitetura remonta os imponentes obeliscos e torres Ancestrais, com grandes casas e prédios (mesmo nas cidades de menor porte) de pedra e madeira. Os motores movidos a vapor auxiliaram também nos transportes: as linhas férreas substituem as estradas de outrora, e os Navios motorizados aumentam o conforto e velocidade nas rotas em Mar Aberto. Para manter a paz e segurança de cada um, o ferro se faz presente na confecção de armas – das afiadas lâminas de adagas, espadas e machados a mecanismos de alta força e complexidade, como armas de fogo e artilharia pesada – e proteções de todo tipo (roupas reforçadas, escudos e outros aparatos designados para defesa).
Os conhecimentos Alquímicos auxiliaram e muito na construção da sociedade Redlander. Como o maior (e intacto) legado Ancestral, este campo Metamágico transformou-se na base para construir a Tecnologia a vapor (graças às aplicações teóricas e práticas, como a criação e manejo de combustíveis e fluidos) e auxiliar no desenvolvimento da Medicina (na criação de fórmulas curativas e procedimentos médicos, por exemplo) e outros tipos de trabalho (como a fabricação de explosivos, ácidos, fluidos e outros componentes fundamentais.
Os últimos desenvolvimentos neste campo correspondem à recriação dos autômatos Ancestrais. Pesquisas coordenadas pela Companhia Sandwolves, juntamente com a Irmandade dos Mestres do Ferro, constataram que a composição Metamágica de um Golem pode ser reproduzida, mediante a construção de complexos sistemas de controle: acomodado em uma cabine central, um indivíduo poderá controlar o autômato para qualquer tipo de função – em especial, construção e defesa dos territórios;
Hennerianos: Ainda que compartilhem alguns aspectos com os Redlanders, os Hennerianos não possuem relevantes avanços tecnológicos. Isto se deve, principalmente, aos preceitos deixados por Hennier: em pouco tempo de permanência neste mundo, eles aprenderam a não seguir o mesmo erro de seus conterrâneos...
O ápice no desenvolvimento tecnológico dos Hennerianos diz respeito à construção naval: seus navios são considerados obras-primas, finamente trabalhados e muito eficientes em sua função. A construção artesanal de navios é um de seus maiores legados e, por isso mesmo, indisponível para outros povos. Não utilizam motores ou, mesmo, metal: seus renomados artesões contam apenas com seu talento e a nobre madeira de suas ilhas.
Excetuando Pérola (erigida em madrepérola pelos pioneiros de seu povo), os padrões arquitetônicos nas Corsárias são simples e funcionais. Cabanas de madeira e teto de junco servem de moradia, por sua construção simples e grande resistência. Para obter água, os Hennerianos utilizam um rústico processo de dessalinização em parte da sua costa, e a extração mineral se dá sem excessos – pois nada é mais importante para um Henneriano que a terra onde vive.
Ferramentas e outros instrumentos são confeccionados com a matéria-prima de suas ilhas (em especial, madeira e corais) a partir do artesanato. Outros materiais são obtidos mediante o comércio com Redlanders e Owllianos, que apreciam seus trabalhos em pedraria e madeira;
Elfos: Para os aventureiros incautos que viajam pelas florestas de Allaniya, será difícil encontrar quaisquer resquícios de habitação Élfica, e isso acontece por uma única razão: a xenofobia.
Suas cidadelas desafiam a lógica com um intrincado sistema de estabilização, mantido por cipós e rústicas estruturas em madeira (nitidamente inspirado na estrutura natual de Altaria, sua capital). Suas casas possuem o mesmo tom esverdeado das copas de árvore que as apóiam, conferindo-lhes uma camuflagem natural, e um sistema de elevadores (mantido manualmente, pela troca de pesos) confere o acesso à cidade, em alguns pontos específicos.
Idíllien, Indúniel, Krystiél e Ansalônia são as únicas cidades “em terra”, provenientes da reconstrução de ruínas Ancestrais. Sua estrutura e tecnologia são de fato as mesmas da era passada (mantidas não apenas pelo domínio na Doutrina Metamágica deste povo, mas também por sua posição militarizada). Dentre as quatro, apenas Ansalônia fornece livre acesso a forasteiros, graças à sua invejável compreensão sobre o mundo.
Para realizar qualquer tipo de tarefa, os Elfos contam com ferramentas simples, feitas com madeira, folhas ou couro. A manipulação Metamágica também se aplica aqui, mas sem os excessos que tanto inspiraram temor: seu aperfeiçoamento tornou-se constante (para alguns, uma garantia de vitória em combates futuros). O ferro é absolutamente proibido nestas terras, pelo mal que causa à sua espécie: os Elfos mantêm viva a confecção de Gemas Arcanas e Ochiralcon, um mineral de propriedades místicas e forjado por intervenção Metamágica, mas não existe nenhuma finalidade atual para este composto – algo que, provavelmente, serviria de trunfo em um novo conflito..;
Owllianos: Criados e disciplinados por Gruunak na cultura Ancestral, hoje os Owllianos carregam consigo este legado. Cidades assemelham-se às metrópoles de Greenlands, com suas torres de pedra e metal arranhando os céus. Torres aparentemente estreitas abrigam vastas bibliotecas e moradias, graças à manipulação efetiva da Metamagia. Autômatos são criados pela vontade dos hábeis manipuladores, para desempenhar trabalhos em que são fisicamente inaptos.
No entanto, os Herdeiros de Gruunak puderam assistir à decadência dos Ancestrais, e sabem que o uso desmedido da Metamagia pode causar essa ruína novamente. Portanto, tal Doutrina é utilizada com o máximo de cautela, e aos mais hábeis cabe o dever de observar suas manifestações. Qualquer um que transgredir tais limites será punido pela própria população.
Os modelos arquitetônicos, por mais que se assemelhem ao estilo Ancestral, possuem diversas diferenças. Por exemplo, os andares inferiores de cada torre não possuem portas ou janelas, já que cada indivíduo opta por voar com suas próprias asas (os próprios autômatos por eles desenvolvidos contam com o mesmo recurso).
A tecnologia torna-se possível a partir das descrições traduzidas por seus escribas, e o estudo de outras ruínas Ancestrais facilita consideravelmente tal processo. O contato constante com membros da Companhia Sandwolves permite aos Owllianos não apenas perceber as causas da ruína de Ghondaria, como também auxiliar a reconstrução dos Desertos e o resgate do legado perdido (fato este que desagrada, e muito, os Elfos e os Povos Selvagens...);
Povos Selvagens: Seja pela simples aversão à vida em sociedade, seja por limitações físicas e territoriais, Dragonitas e Fenn-Rir negaram, desde seu princípio, a convivência com Homens e Elfos. Em troca, encontraram abrigo no coração das terras selvagens, garantindo-se como mestres perante outras Feras.
Cada um dos povos o fez em sua própria direção, no entanto. Dragonitas defenderam a floresta que os acolheu desde seu nascimento, e por muito tempo ali viveram – até que a Guerra os transformasse em escória e consumisse suas vidas. Muito tempo de lutas e sacrifícios culminou na morte de seu líder – fato este que provocou a cisão em sua linhagem. Atualmente, os Dragonitas podem viver em florestas (integralmente entregues a seus instintos e contando apenas com suas capacidades naturais para subsistir) ou nos Desertos – entre o desprezo dos Redlanders e a sarjeta de suas cidades, vivendo pela exploração em trabalhos pesados (ou pela vida infame de bandidos) e da tecnologia dos Redlanders.
Os Fenn-Rir, por sua vez, encontraram abrigo na tundra, onde viveram na mais absoluta paz e harmonia com os Veneráveis e a vida – pelo menos, até a chegada dos misteriosos Gnar'ral.
Com seus rituais e a intolerância perante os Herdeiros de Fenn, os forasteiros foram alvo da morte, após executarem seu líder a sangue frio. Perante tanta resignação, os Fenn-Rir cumprem o Juramento decretado por Själla, vivendo em Huur e defendendo sua cultura.
Sua cultura é rude, sem qualquer registro ou legado material: Fenn-Rir são intimamente ligados à crença com os Veneráveis, e inúmeras cerimônias e ritos afirmam seu louvor e narram sua história, transmitida de geração em geração. O que poucos sabem é que os hangares e construções dos Gnar'ral, tão protegidos pelos Fenn-Rir, abrigam um vasto legado: máquinas voadoras, níveis até então impensados de Ciência e o conhecimento de um mundo até então desconhecido...
quarta-feira, 28 de março de 2012
NOITE SEM FIM: Terceiro Ato - DESAFIOS
Saudações, caros leitores. Nesta noite fria que me lembra das noites desérticas do Oeste, irei dar continuidade à Noite Sem Fim de meu mundo, e as primeiras consequências estão por vir...
Aproveitem a leitura!
Parte Dois
O calor aconchegante reconduz Maxwell à consciência. Seus olhos estranharam a falta da penumbra noturna, e a presença de um telhado de pedra atiçou seus instintos.
Tentou levantar-se, mas não tinha forças para tal. Sentia-se limitado, como se não houvesse braços ou pernas para cumprir seu desejo.
Um olhar mais atento confirmou esta sensação: seus membros inexistiam, e seu torso estava preso por correntes a um ataúde de pedra polida. Em uma das paredes da sala, encontrou seus braços e pernas, atados a ganchos.
Tentava encontrar uma resposta para tudo aquilo, em como chegou àquele desfecho, quando percebeu que alguém se aproximava. Perferiu disfarçar a inconsciência, para entender o quê realmente lhe aconteceu.
Dois sujeitos chegavam de fora, completamente distintos um do outro. O primeiro vestia um jaleco surrado, manchado de graxa e cheio de pó, e seus cabelos despenteados realçavam sua obsessão pelo trabalho. O segundo destacava-se pelo porte ímpar - terno escura sob medida, cabelos bem penteados e um fino par de óculos o identificavam como um aristocrata, membro da alta sociedade Redlander.
- Então, este é o "espécime" de que me falou? - O tom desdenhoso na voz do visitante causou frustração no engenheiro.
- Para quem o vê assim, parece apenas um de nós. - Retirou, de um dos bolsos de seu jaleco, um bisturi levemente enferrujado.
- Agora, preste atenção, Senhor Prescott...
Passou a lâmina suavemente sobre a pele de Maxwell, abrindo-a sem a menor resistência ou sangramento. A indiferença perante o ferimento causou satisfação naquele sujeito.
O cientista afastou a pele aberta com as mãos, para evitar sua imediata reconstrução. Prescott, por outro lado, mostrava-se fascinado.
- Isto é impressionante! - Deixou que a surpresa sobressaísse em suas palavras. - Você pode mesmo controlá-lo, Malcolm?
O responsável apontou com seu nariz robusto um dispositivo singular, envolvido pela massa cinza-metálico que preenche o corpo inerte: um rubi grande, do tamanho de um punho fechado.
Em seu centro, um botão negro se fazia presente.
- Todo Golem possui um sistema auxiliar de funcionamento, que permite a reavaliação de atividades e objetivos. - Explicou o cientista, um dos dedos visando aquele botão. - Com o simples apertar deste mecanismo, suas memórias serão apagadas e novas ordens poderão ser configuradas com o procedimento correto.
- E quanto tempo será necessário para isto? - O desejo permeava sutilmente cada palavra do magnata.
- Agora que já sei como inutilizar o seu corpo, começarei nesta noite.
***
No outro lado da cidade, alguém deixava-se levar pelo enfado, e a bebida lhe parecia o único meio de aplacar tal sensação.
Após entregar os escravagistas à justiça e libertar os flagelados, Clint carregou consigo o corpo daquele estranho até a cidade mais próxima, Snake's Nest. Encontrou lá um cientista em serviço da Companhia Sandwolves, bem interessado em sua captura. E o dinheiro que recebeu pelas recompensas é o suficiente para cobrir suas futuras contas no saloon mais próximo.
Entretanto, sentia-se mal pelo que fez. A bebida já não tinha o mesmo sabor, graças a um pressentimento ruim. Tinha renegado sua vida, e tudo que construíra, por acreditar no julgamento de seus irmãos.
Não podia estar mais errado.
O apreço pelo álcool surgiu desse dissabor. Em cada tentativa de se mostrar ao mundo, sentia-se massacrado pela desconfiança de seus semelhantes, e seu ego ferido ansiava por anestesia - mas, no fundo, nenhuma bebida neste mundo o privaria de tanta dor...
Algo incomum atiçou sua percepção, algo que não lhe afetava desde o dia em que abandonou Allaniya. O bandoleiro percebeu a sutil mudança na realidade, uma perigosa condição que poderia colocar todos na região em risco.
Mesmo após várias garrafas de uísque, o Elfo se levantou do balcão e, em passos trôpegos e apressados, procurou a saída do saloon.
Mas um passo desequilibrado o fez esbarrar em um brutamontes, e sua caneca se perdeu nas roupas do mesmo, uma grande mancha em seu torso.
- Ei, ei, ei! - Retrucou o grandalhão, agarrando Clint por um de seus ombros. - Acha que é assim? Derruba cerveja em mim e vai embora, como se nada tivesse acontecido?
O bandoleiro encarava o homenzarrão com desdém, já ciente do seu desejo: os olhos injetados pela sede de violência, seu forte hálito de bebida e o silêncio no local serviriam de prenúncio para uma briga.
Porém, algo interrompeu a calmaria. muito antes do taverneiro atirar com o recém-sacado revólver. Há poucos metros dali, uma explosão ilumina o ambiente por um instante, como em um macabro amanhecer...
***
Malcolm ergueu-se sobre os escombros, feliz por não ter se ferido gravemente. As chamas consumiram seus instrumentos, e procurou escapar antes que o restante do prédio desabasse.
A dor limitava seus movimentos, mesmo sem fraturas ou mutilações, e coxeou na busca de auxílio. Estava aterrorizado, já que confiou em seus conhecimentos para o que fez há pouco.
Tentou refazer o seu caminho, na tentativa de encontrar algo que justificasse uma falha tão perigosa. Após o contato com Prescott, utilizou anestésicos e fórmulas específicas para causar letargia e retardar suas capacidades reconstrutivas.
Maxwell, por outro lado, não esboçou reação alguma. O controle corporal estava severamente limitado por sua conduta: estava impedido de reagir, graças ao desejo de não ferir humanos - pelo menos, até que o coma fizesse efeito.
O cientista coletou amostras corporais, para descobrir sua composição, e o tórax aberto do Autômato revelava o núcleo - envoltório de sua alma.
Impaciente, Malcolm guardou as amostras em uma algibeira e aproximou-se do "espécime". Suas mãos coçavam para tocar no aparato, mas alguns preparativos precisavam ser feitos para certificar o êxito na reprogramação.
O apoio de livros, instrumentos e fórmulas por ele mesmo preparados, o cientista buscou recriar os rituais característicos da Era Ancestral, um tabu para todos que aventuram-se por este caminho.
Agora, o pesquisador sabia o quão imprudente foi a sua intervenção. Entre as chamas, podia ver a criatura de pé, totalmente recomposta. Seu olhar ardia como as chamas que o cercavam, fornalhas de sua ira.
Malcolm tencionou correr, mas o medo e a dor o fizeram cair em um tropeço. Seu corpo tremia, seu temor crescendo a cada passo do Autômato.
Estava frente a frente, o cheiro forte da urina impregnado nas roupas do suplicante cientista.
- P-por favor... N-não me mate... - Soluços chorosos sobrepujam suas palavras, para o humor incomum de Maxwell. A criatura estendeu sua mão para o cientista, na direção de sua fronte.
- Muito obrigado por me acordar, garoto.
Malcolm não teve tempo sequer de reação, pois seu crânio fora esmigalhado pela mão nua do Golem, como um tomate. Seu braço se alongou para cobrir a distância, em uma fração de segundo.
***
Clint e os demais frequentadores do saloon deperaram-se com o incêndio, prontos para tudo. Populares olham por janelas e portas de suas casas - um misto de zelo e cuiriosidade mórbidos.
A visão apurada do bandoleiro identificou a causa do incidente: seu andverásio, já recuperado das mutilações que sofreu na noite passada. Sua mão direita estava manchada de sangue, e o corpo inerte daquele cientista estava próximo dos destroços.
Os olhos da criatura emitiam uma sinistra luz avermelhada, e sua intensidade se agravou ao se deparar novamente com o Elfo.
- Você!
Estendeu as mãos à sua frente, alogando-as para um novo ataque. Clint conseguiu evitar o ataque, sofrido pelo grandalhão que o desafiara antes, seu tórax trespassado à altura do coração.
Maxwell continuou por mais algum tempo, dizimando cada um dos envolvidos. Apenas o bandoleiro continuou vivo, já cansado e ferido. Sua postura diferia do encontro anterior: sério e compenetrado como se sua vida estivesse em jogo...
A cidade sucumbia em cada novo ataque: casas ruíam e vidas se perdiam no duelo. As chamas que antes crepitavam no laboratório tornaram-se a paisagem em Snake's Nest. Apenas Clint estava vivo, lutando contra sua resignação.
- Pelo jeito, ainda não quer lutar... - Vociferou Maxwell, a voz fantasmagórica das máquinas. - Você não sobreviverá desta vez!
O bandoleiro consentiu com aquelas palavras, e se privou das armas. A concentração diminuiu o ritmo de sua respiração, e o mundo tornou-se mais distante. O foco passou a ser sua conexão com a terra em seu estado mais puro.
Mesmo com os olhos fechados, conseguiu antever o novo ataque do ensandecido Golem, e a esquiva deixou de ser a opção mais viéval. Clint abriu os olhos, encarando friamente o seu inimigo.
- Que você nunca mais desperte neste mundo!
As mãos do Elfo concentraram o clarão das estrelas, bem à sua frente. A luz se projetou na sua direção, uma lança de chamas que arrebentou o tórax da criatura.
Uma explosão luminosa engolfou Maxwell - para o alívio de seu oponente. Seu peito chiava com a falta de ar, enquanto se aproximava do laboratório em ruínas.
Um suspiro abandonou seus pulmões ao ver o sono subjugar seu inimigo.
Aproveitem a leitura!
Parte Dois
O calor aconchegante reconduz Maxwell à consciência. Seus olhos estranharam a falta da penumbra noturna, e a presença de um telhado de pedra atiçou seus instintos.
Tentou levantar-se, mas não tinha forças para tal. Sentia-se limitado, como se não houvesse braços ou pernas para cumprir seu desejo.
Um olhar mais atento confirmou esta sensação: seus membros inexistiam, e seu torso estava preso por correntes a um ataúde de pedra polida. Em uma das paredes da sala, encontrou seus braços e pernas, atados a ganchos.
Tentava encontrar uma resposta para tudo aquilo, em como chegou àquele desfecho, quando percebeu que alguém se aproximava. Perferiu disfarçar a inconsciência, para entender o quê realmente lhe aconteceu.
Dois sujeitos chegavam de fora, completamente distintos um do outro. O primeiro vestia um jaleco surrado, manchado de graxa e cheio de pó, e seus cabelos despenteados realçavam sua obsessão pelo trabalho. O segundo destacava-se pelo porte ímpar - terno escura sob medida, cabelos bem penteados e um fino par de óculos o identificavam como um aristocrata, membro da alta sociedade Redlander.
- Então, este é o "espécime" de que me falou? - O tom desdenhoso na voz do visitante causou frustração no engenheiro.
- Para quem o vê assim, parece apenas um de nós. - Retirou, de um dos bolsos de seu jaleco, um bisturi levemente enferrujado.
- Agora, preste atenção, Senhor Prescott...
Passou a lâmina suavemente sobre a pele de Maxwell, abrindo-a sem a menor resistência ou sangramento. A indiferença perante o ferimento causou satisfação naquele sujeito.
O cientista afastou a pele aberta com as mãos, para evitar sua imediata reconstrução. Prescott, por outro lado, mostrava-se fascinado.
- Isto é impressionante! - Deixou que a surpresa sobressaísse em suas palavras. - Você pode mesmo controlá-lo, Malcolm?
O responsável apontou com seu nariz robusto um dispositivo singular, envolvido pela massa cinza-metálico que preenche o corpo inerte: um rubi grande, do tamanho de um punho fechado.
Em seu centro, um botão negro se fazia presente.
- Todo Golem possui um sistema auxiliar de funcionamento, que permite a reavaliação de atividades e objetivos. - Explicou o cientista, um dos dedos visando aquele botão. - Com o simples apertar deste mecanismo, suas memórias serão apagadas e novas ordens poderão ser configuradas com o procedimento correto.
- E quanto tempo será necessário para isto? - O desejo permeava sutilmente cada palavra do magnata.
- Agora que já sei como inutilizar o seu corpo, começarei nesta noite.
***
No outro lado da cidade, alguém deixava-se levar pelo enfado, e a bebida lhe parecia o único meio de aplacar tal sensação.
Após entregar os escravagistas à justiça e libertar os flagelados, Clint carregou consigo o corpo daquele estranho até a cidade mais próxima, Snake's Nest. Encontrou lá um cientista em serviço da Companhia Sandwolves, bem interessado em sua captura. E o dinheiro que recebeu pelas recompensas é o suficiente para cobrir suas futuras contas no saloon mais próximo.
Entretanto, sentia-se mal pelo que fez. A bebida já não tinha o mesmo sabor, graças a um pressentimento ruim. Tinha renegado sua vida, e tudo que construíra, por acreditar no julgamento de seus irmãos.
Não podia estar mais errado.
O apreço pelo álcool surgiu desse dissabor. Em cada tentativa de se mostrar ao mundo, sentia-se massacrado pela desconfiança de seus semelhantes, e seu ego ferido ansiava por anestesia - mas, no fundo, nenhuma bebida neste mundo o privaria de tanta dor...
Algo incomum atiçou sua percepção, algo que não lhe afetava desde o dia em que abandonou Allaniya. O bandoleiro percebeu a sutil mudança na realidade, uma perigosa condição que poderia colocar todos na região em risco.
Mesmo após várias garrafas de uísque, o Elfo se levantou do balcão e, em passos trôpegos e apressados, procurou a saída do saloon.
Mas um passo desequilibrado o fez esbarrar em um brutamontes, e sua caneca se perdeu nas roupas do mesmo, uma grande mancha em seu torso.
- Ei, ei, ei! - Retrucou o grandalhão, agarrando Clint por um de seus ombros. - Acha que é assim? Derruba cerveja em mim e vai embora, como se nada tivesse acontecido?
O bandoleiro encarava o homenzarrão com desdém, já ciente do seu desejo: os olhos injetados pela sede de violência, seu forte hálito de bebida e o silêncio no local serviriam de prenúncio para uma briga.
Porém, algo interrompeu a calmaria. muito antes do taverneiro atirar com o recém-sacado revólver. Há poucos metros dali, uma explosão ilumina o ambiente por um instante, como em um macabro amanhecer...
***
Malcolm ergueu-se sobre os escombros, feliz por não ter se ferido gravemente. As chamas consumiram seus instrumentos, e procurou escapar antes que o restante do prédio desabasse.
A dor limitava seus movimentos, mesmo sem fraturas ou mutilações, e coxeou na busca de auxílio. Estava aterrorizado, já que confiou em seus conhecimentos para o que fez há pouco.
Tentou refazer o seu caminho, na tentativa de encontrar algo que justificasse uma falha tão perigosa. Após o contato com Prescott, utilizou anestésicos e fórmulas específicas para causar letargia e retardar suas capacidades reconstrutivas.
Maxwell, por outro lado, não esboçou reação alguma. O controle corporal estava severamente limitado por sua conduta: estava impedido de reagir, graças ao desejo de não ferir humanos - pelo menos, até que o coma fizesse efeito.
O cientista coletou amostras corporais, para descobrir sua composição, e o tórax aberto do Autômato revelava o núcleo - envoltório de sua alma.
Impaciente, Malcolm guardou as amostras em uma algibeira e aproximou-se do "espécime". Suas mãos coçavam para tocar no aparato, mas alguns preparativos precisavam ser feitos para certificar o êxito na reprogramação.
O apoio de livros, instrumentos e fórmulas por ele mesmo preparados, o cientista buscou recriar os rituais característicos da Era Ancestral, um tabu para todos que aventuram-se por este caminho.
Agora, o pesquisador sabia o quão imprudente foi a sua intervenção. Entre as chamas, podia ver a criatura de pé, totalmente recomposta. Seu olhar ardia como as chamas que o cercavam, fornalhas de sua ira.
Malcolm tencionou correr, mas o medo e a dor o fizeram cair em um tropeço. Seu corpo tremia, seu temor crescendo a cada passo do Autômato.
Estava frente a frente, o cheiro forte da urina impregnado nas roupas do suplicante cientista.
- P-por favor... N-não me mate... - Soluços chorosos sobrepujam suas palavras, para o humor incomum de Maxwell. A criatura estendeu sua mão para o cientista, na direção de sua fronte.
- Muito obrigado por me acordar, garoto.
Malcolm não teve tempo sequer de reação, pois seu crânio fora esmigalhado pela mão nua do Golem, como um tomate. Seu braço se alongou para cobrir a distância, em uma fração de segundo.
***
Clint e os demais frequentadores do saloon deperaram-se com o incêndio, prontos para tudo. Populares olham por janelas e portas de suas casas - um misto de zelo e cuiriosidade mórbidos.
A visão apurada do bandoleiro identificou a causa do incidente: seu andverásio, já recuperado das mutilações que sofreu na noite passada. Sua mão direita estava manchada de sangue, e o corpo inerte daquele cientista estava próximo dos destroços.
Os olhos da criatura emitiam uma sinistra luz avermelhada, e sua intensidade se agravou ao se deparar novamente com o Elfo.
- Você!
Estendeu as mãos à sua frente, alogando-as para um novo ataque. Clint conseguiu evitar o ataque, sofrido pelo grandalhão que o desafiara antes, seu tórax trespassado à altura do coração.
Maxwell continuou por mais algum tempo, dizimando cada um dos envolvidos. Apenas o bandoleiro continuou vivo, já cansado e ferido. Sua postura diferia do encontro anterior: sério e compenetrado como se sua vida estivesse em jogo...
A cidade sucumbia em cada novo ataque: casas ruíam e vidas se perdiam no duelo. As chamas que antes crepitavam no laboratório tornaram-se a paisagem em Snake's Nest. Apenas Clint estava vivo, lutando contra sua resignação.
- Pelo jeito, ainda não quer lutar... - Vociferou Maxwell, a voz fantasmagórica das máquinas. - Você não sobreviverá desta vez!
O bandoleiro consentiu com aquelas palavras, e se privou das armas. A concentração diminuiu o ritmo de sua respiração, e o mundo tornou-se mais distante. O foco passou a ser sua conexão com a terra em seu estado mais puro.
Mesmo com os olhos fechados, conseguiu antever o novo ataque do ensandecido Golem, e a esquiva deixou de ser a opção mais viéval. Clint abriu os olhos, encarando friamente o seu inimigo.
- Que você nunca mais desperte neste mundo!
As mãos do Elfo concentraram o clarão das estrelas, bem à sua frente. A luz se projetou na sua direção, uma lança de chamas que arrebentou o tórax da criatura.
Uma explosão luminosa engolfou Maxwell - para o alívio de seu oponente. Seu peito chiava com a falta de ar, enquanto se aproximava do laboratório em ruínas.
Um suspiro abandonou seus pulmões ao ver o sono subjugar seu inimigo.
domingo, 25 de março de 2012
A TERRA DE PENITENTES
Saudações, caros viajantes. Esta noite, mostrarei-lhes uma das cartas náuticas que desenhei em minhas andanças - sem dúvida, a que melhor representa o meu mundo.
Escala: 1 centímetro equivale a 250 quilômetros.
Escala: 1 centímetro equivale a 250 quilômetros.
quarta-feira, 21 de março de 2012
NOITE SEM FIM: Terceiro Ato: DESAFIOS
Saudações a todos que estiverem acompanhando esta história. Pretendo continuar com a Noite Sem Fim neste momento, já que a história toma um rumo cruel a partir deste ponto.
Aproveitem a leitura!
Parte Um
O sono era pouco capaz de conter a euforia de Olívia, que reuniu seus poucos pertences para mais uma viagem. Aguardava pelo ciclo de Lazzuria, pois era o único meio de orientação durante a Penumbra, para definir seu roteiro de viagem.
A teimosia de Maxwell não estava em seus planos, e não sabia qual direção tomar para encontrá-lo novamente. Por esta razão, decidiu ir até Magdalene: estava certa de que lá encontraria qualquer informação relevante sobre a composição daquele autômato.
Após o embarque, a jovem afundou-se naquele livro. Passou algum tempo em análise daqueles registros - boa parte deles com imprecisões em sua caligrafia.
Seu diário estava bem ao seu lado, por ter em suas páginas o parco domínio sobre o vocabulário prímal de Ghondaria, que constituiu os idiomas atuais. Com paciência e dedicação, a Arqueóloga conseguiu decifrar algumas informações surpreendentes.
Os tipos de estrutura descritos no livro são diferentes de tudo que seus olhos já viram durante a graduação. Não existia nanhum procedimento relacionado à Metamagia e, tampouco, qualquer fórmula Alquímica: seu processo de criação é possível apenas com o apoio de instrumentos da mais alta complexidade, e manipulações científicas provavelmente além das capacidades atuais de seu povo.
"Mas, o quê significa isso?" Os dados traduzidos davam margem para novas perguntas, em vez de respostas.
Deixou-se levar tão a fundo em sua pesquisa, que nem percebeu o passar das horas. Apenas o apito do trem a lembrou do fim daquela viagem - juntamente com a forte apreensão em Highwoods, visível na face de cada um de seus moradores...
***
Em maior distância, Ledger cumpre o mesmo trajeto que sua vítima. Não podia viajar de trem, graças à inesperada prisão em Magdalene.
Com o apoio de seus comparsas, conseguiu disfarçar-se como um mascate. Na carroça velha e rude, mercadorias roubadas deveriam ser entregues em Highwoods - como armas para os bandidos lá instalados - e as rotas comerciais controladas por seu Sindicato dariam-lhe a segurança para seguir viagem.
O que mais o intrigava, no entanto, era o propósito de Olívia. Ficou curioso após receber a seguinte informação de seus contatos: um Golem idêntico a um Redlander, e consciente! Com certeza, é algo a ser visto com seus próprios olhos.
Sabia que tal busca contraria as ordens de seu patrão, bem conhecido por como lidar com falhas; mas, por outro lado, sua constatação e controle poderiam assegurar seu perdão, e privilégios no futuro.
Dois dias de jornada foram necessários para que o renegado pudesse alcançar o seu destino, na calada da noite. Fora imediatamente recepcionado por dois capangas, que o esperavam no portal talhado em madeira, à entrada da cidade.
- Bem-cindo, chefe.
Ledger desceu da carroça, batendo suas roupas para tirar o pó das estradas. Retirou o chapéu largo e surrado de sua cabeça, o suor detido pelos frios ventos do Oeste.
- Como estão as coisas por aqui?
Antes de responder, um dos patifes gesticulou para o parceiro, conferindo-lhe o controle do coche.
- A um passo da guerra, senhor. Os ataques de Dragonitas aumentam, e não irá demorar muito para que os Elfos apareçam.
- E o Leeds?
O bandido franziu o cenho, demonstrando certa decepção.
- É a pedra em nosso caminho. Não fosse por sua influência, já teríamos acabado com ele.
O recém-chegado retirou, de uma bolsa oculta em seu poncho, uam peça fina: uma faca, presa em uma singular bainha de couro negro. Sua lâmina, curva e alva como as presas de uma serpente, possuía um sulco central em cada lado, em toda a sua extensão.
- Então, irei cuidar disso.
O comparsa retirou, de um bolso, um pequeno frasco de cor esverdeada, e a entregou ao seu chefe.
- Esta dose irá servir. - Os olhos de Ledger refletiam-se no frasco, brilhando de satisfação...
***
Durante o ciclo, Olívia passeou pela cidade. Podia sentir a tensão em cada rua, nos rostos desconfiados de cada cidadão. Caminhou por lojas e ficou encantada por cada artigo entalhado em madeira, especialidade na região.
Não deixou de perceber, mesmo em meio a tanta movimentação, que um grupo a seguia. Permaneceu sem olhar para trás, e não conseguiu identificá-los com precisão. Apesar disso, suspeitas vieram à tona.
"Essa não... Ledger de novo!"
O comedimento deu lugar ao instinto. As pernas de Olívia assumiram outro ritmo, e a corrida buscou um lugar seguro.
- Pare aí mesmo! - A ordem se perdeu na multidão, apesar de bem ouvida pela jovem.
Os populares abriam caminho frente à perseguição, e a viajante estava encurralada - primeiro, pela superioridade numérica de seus inimigos; e, principalmente, pelo total desconhecimento da cidade.
Justamente por este motivo, a jovem acabou surpreendida por outros dois aliados, que vinham na direção oposta. A rua era estreita demais para outras possibilidades, e o cerco permitiu a identificação daqueles que a perseguiam.
Seus uniformes lembravam vagamente o fardamento da milícia de Magdalene, excetuando as proteções de ferro maciço. Carregavam consigo lanças e revólveres - uma combinação bem inesperada para o renome do local. O robusto líder do grupo vestia um casaco vermelho e reforçado, as placas de metal salientes sob o tecido conferindo-lhe ares de superioridade.
- Você vem conosco, mocinha! - Sua postura rígida e impassível se afirmou pela força em suas mãos, que a arrastaram pelas ruas como a uma ladra qualquer. A escolta pouco podia fazer para ocultar seus movimentos, e afastava com rispidez os curiosos.
Caminharam até um largo edifício, afastado da periferia. Em cada parede, estandartes em vermelho vivo sustentavam um escudo dourado, e um elmo em seu centro. Uma baioneta emergia em seu topo, completava o símbolo, bem conhecido pela jovem.
"A Cavalaria Vermelha das Redlands", pensou. A fama logo lhe veio à cabeça, com o resgate de tantas histórias. A bravura endurece os olhos destes homens, preparados para toda sorte de perigos. Lembrava-se da sua infância, quando seu irmão desejava fazer parte da corporação.
Foi levada para dentro, até chegar em uma cela bem arejada e vazia. Seus pertences foram recolhidos e cuidadosamente analisados pelos guardas, pois o seu líder ficou frente a frente com a prisioneira. O silêncio permaneceu até a conclusão da revista.
- Nada de relevante, senhor.
- Muito bem. - Respondeu, alisando seu espesso bigode com os dedos. - Então... o que a trouxe a Highwoods, mocinha?
- Estou a serviço da Companhia Sandwolves. Meu destino é Allaniya, e fiz uma paragem antes de prosseguir.
- Hum... - O cavaleiro franziu o cenho, sus olhos fixos nas informações dadas pelo cartão de afiliados. "Olívia Redfield, Arqueóloga". Identificou com facilidade o modelo criptográfico no cartão, uma medida eficaz contra falsificações.
A esta altura, os guardas haviam preparado a mochila da jovem, um deles a levando até o seu líder.
- Se você está a serviço da Companhia, por que fugiu de nós? - O olhar incisivo do militar intimidou a viajante, que precisou esforçar-se um pouco mais para manter a compostura.
- Me deixei levar pelo medo. - Respondeu, igualmente incisiva. - Desde Magdalene, estou sendo seguida por um assassino dos Coiotes Escuros.
As sobrancelhas do cavaleiro se erguem frente à tanta franqueza.
- Conte-me mais, mocinha.
Olívia prosseguiu com seu depoimento. Usou de astúcia para engendrar os fatos mais recentes em uma iomplacável perseguição: o assalto em seu primeiro trem, a morte brutal de sua Tia e a emboscada na frente da Academia passaram a ser parte da "queima de arquivo", de tão relevante o conteúdo de sua pesquisa.
O argumento foi suficiente para convencer o chefe da guarda, e sua cela foi aberta. Reunia os pertences para sair quando recebeu uma nova intervenção dos soldados, que bloquearam o seu caminho.
- Você está livre de minhas suspeitas, mas não deixarei que saia. - Seu tom de autoridade se afirmou novamente. - Ficarás aqui, até que o perigo seja eliminado em seu caminho. Ou não me chamo Jessie William Leeds!
Aproveitem a leitura!
Parte Um
O sono era pouco capaz de conter a euforia de Olívia, que reuniu seus poucos pertences para mais uma viagem. Aguardava pelo ciclo de Lazzuria, pois era o único meio de orientação durante a Penumbra, para definir seu roteiro de viagem.
A teimosia de Maxwell não estava em seus planos, e não sabia qual direção tomar para encontrá-lo novamente. Por esta razão, decidiu ir até Magdalene: estava certa de que lá encontraria qualquer informação relevante sobre a composição daquele autômato.
Após o embarque, a jovem afundou-se naquele livro. Passou algum tempo em análise daqueles registros - boa parte deles com imprecisões em sua caligrafia.
Seu diário estava bem ao seu lado, por ter em suas páginas o parco domínio sobre o vocabulário prímal de Ghondaria, que constituiu os idiomas atuais. Com paciência e dedicação, a Arqueóloga conseguiu decifrar algumas informações surpreendentes.
Os tipos de estrutura descritos no livro são diferentes de tudo que seus olhos já viram durante a graduação. Não existia nanhum procedimento relacionado à Metamagia e, tampouco, qualquer fórmula Alquímica: seu processo de criação é possível apenas com o apoio de instrumentos da mais alta complexidade, e manipulações científicas provavelmente além das capacidades atuais de seu povo.
"Mas, o quê significa isso?" Os dados traduzidos davam margem para novas perguntas, em vez de respostas.
Deixou-se levar tão a fundo em sua pesquisa, que nem percebeu o passar das horas. Apenas o apito do trem a lembrou do fim daquela viagem - juntamente com a forte apreensão em Highwoods, visível na face de cada um de seus moradores...
***
Em maior distância, Ledger cumpre o mesmo trajeto que sua vítima. Não podia viajar de trem, graças à inesperada prisão em Magdalene.
Com o apoio de seus comparsas, conseguiu disfarçar-se como um mascate. Na carroça velha e rude, mercadorias roubadas deveriam ser entregues em Highwoods - como armas para os bandidos lá instalados - e as rotas comerciais controladas por seu Sindicato dariam-lhe a segurança para seguir viagem.
O que mais o intrigava, no entanto, era o propósito de Olívia. Ficou curioso após receber a seguinte informação de seus contatos: um Golem idêntico a um Redlander, e consciente! Com certeza, é algo a ser visto com seus próprios olhos.
Sabia que tal busca contraria as ordens de seu patrão, bem conhecido por como lidar com falhas; mas, por outro lado, sua constatação e controle poderiam assegurar seu perdão, e privilégios no futuro.
Dois dias de jornada foram necessários para que o renegado pudesse alcançar o seu destino, na calada da noite. Fora imediatamente recepcionado por dois capangas, que o esperavam no portal talhado em madeira, à entrada da cidade.
- Bem-cindo, chefe.
Ledger desceu da carroça, batendo suas roupas para tirar o pó das estradas. Retirou o chapéu largo e surrado de sua cabeça, o suor detido pelos frios ventos do Oeste.
- Como estão as coisas por aqui?
Antes de responder, um dos patifes gesticulou para o parceiro, conferindo-lhe o controle do coche.
- A um passo da guerra, senhor. Os ataques de Dragonitas aumentam, e não irá demorar muito para que os Elfos apareçam.
- E o Leeds?
O bandido franziu o cenho, demonstrando certa decepção.
- É a pedra em nosso caminho. Não fosse por sua influência, já teríamos acabado com ele.
O recém-chegado retirou, de uma bolsa oculta em seu poncho, uam peça fina: uma faca, presa em uma singular bainha de couro negro. Sua lâmina, curva e alva como as presas de uma serpente, possuía um sulco central em cada lado, em toda a sua extensão.
- Então, irei cuidar disso.
O comparsa retirou, de um bolso, um pequeno frasco de cor esverdeada, e a entregou ao seu chefe.
- Esta dose irá servir. - Os olhos de Ledger refletiam-se no frasco, brilhando de satisfação...
***
Durante o ciclo, Olívia passeou pela cidade. Podia sentir a tensão em cada rua, nos rostos desconfiados de cada cidadão. Caminhou por lojas e ficou encantada por cada artigo entalhado em madeira, especialidade na região.
Não deixou de perceber, mesmo em meio a tanta movimentação, que um grupo a seguia. Permaneceu sem olhar para trás, e não conseguiu identificá-los com precisão. Apesar disso, suspeitas vieram à tona.
"Essa não... Ledger de novo!"
O comedimento deu lugar ao instinto. As pernas de Olívia assumiram outro ritmo, e a corrida buscou um lugar seguro.
- Pare aí mesmo! - A ordem se perdeu na multidão, apesar de bem ouvida pela jovem.
Os populares abriam caminho frente à perseguição, e a viajante estava encurralada - primeiro, pela superioridade numérica de seus inimigos; e, principalmente, pelo total desconhecimento da cidade.
Justamente por este motivo, a jovem acabou surpreendida por outros dois aliados, que vinham na direção oposta. A rua era estreita demais para outras possibilidades, e o cerco permitiu a identificação daqueles que a perseguiam.
Seus uniformes lembravam vagamente o fardamento da milícia de Magdalene, excetuando as proteções de ferro maciço. Carregavam consigo lanças e revólveres - uma combinação bem inesperada para o renome do local. O robusto líder do grupo vestia um casaco vermelho e reforçado, as placas de metal salientes sob o tecido conferindo-lhe ares de superioridade.
- Você vem conosco, mocinha! - Sua postura rígida e impassível se afirmou pela força em suas mãos, que a arrastaram pelas ruas como a uma ladra qualquer. A escolta pouco podia fazer para ocultar seus movimentos, e afastava com rispidez os curiosos.
Caminharam até um largo edifício, afastado da periferia. Em cada parede, estandartes em vermelho vivo sustentavam um escudo dourado, e um elmo em seu centro. Uma baioneta emergia em seu topo, completava o símbolo, bem conhecido pela jovem.
"A Cavalaria Vermelha das Redlands", pensou. A fama logo lhe veio à cabeça, com o resgate de tantas histórias. A bravura endurece os olhos destes homens, preparados para toda sorte de perigos. Lembrava-se da sua infância, quando seu irmão desejava fazer parte da corporação.
Foi levada para dentro, até chegar em uma cela bem arejada e vazia. Seus pertences foram recolhidos e cuidadosamente analisados pelos guardas, pois o seu líder ficou frente a frente com a prisioneira. O silêncio permaneceu até a conclusão da revista.
- Nada de relevante, senhor.
- Muito bem. - Respondeu, alisando seu espesso bigode com os dedos. - Então... o que a trouxe a Highwoods, mocinha?
- Estou a serviço da Companhia Sandwolves. Meu destino é Allaniya, e fiz uma paragem antes de prosseguir.
- Hum... - O cavaleiro franziu o cenho, sus olhos fixos nas informações dadas pelo cartão de afiliados. "Olívia Redfield, Arqueóloga". Identificou com facilidade o modelo criptográfico no cartão, uma medida eficaz contra falsificações.
A esta altura, os guardas haviam preparado a mochila da jovem, um deles a levando até o seu líder.
- Se você está a serviço da Companhia, por que fugiu de nós? - O olhar incisivo do militar intimidou a viajante, que precisou esforçar-se um pouco mais para manter a compostura.
- Me deixei levar pelo medo. - Respondeu, igualmente incisiva. - Desde Magdalene, estou sendo seguida por um assassino dos Coiotes Escuros.
As sobrancelhas do cavaleiro se erguem frente à tanta franqueza.
- Conte-me mais, mocinha.
Olívia prosseguiu com seu depoimento. Usou de astúcia para engendrar os fatos mais recentes em uma iomplacável perseguição: o assalto em seu primeiro trem, a morte brutal de sua Tia e a emboscada na frente da Academia passaram a ser parte da "queima de arquivo", de tão relevante o conteúdo de sua pesquisa.
O argumento foi suficiente para convencer o chefe da guarda, e sua cela foi aberta. Reunia os pertences para sair quando recebeu uma nova intervenção dos soldados, que bloquearam o seu caminho.
- Você está livre de minhas suspeitas, mas não deixarei que saia. - Seu tom de autoridade se afirmou novamente. - Ficarás aqui, até que o perigo seja eliminado em seu caminho. Ou não me chamo Jessie William Leeds!
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