Nesta noite, darei continuidade à história que comecei a contar por aqui, em mais um momento eletrizante desta lenda. Apreciem a leitura!
Parte Três
"O ritmo tranquilo da locomotiva causava sentimentos diversos: sono, excitação, ou até mesmo enfado. Para Olívia, a inquietação foi a companheira fiel na viagem.
De fato, a bela jovem tinha muito para se preocupar. Lia e relia o seu diário, enquanto brincava com os cachos de seu cabelo. Havia tantas coisas em jogo – Drake, sua tia Marcy e o misterioso Maxwell – que sua demissão da Companhia Sandwolves lhe parece justificável.
'Vou sentir falta de tudo aquilo', foi o pensamento corrente. Lembrava-se da sua primeira viagem, onde trocou a pacata Kannon Town por uma vida instável e repleta de trabalho, graças à influência de seu irmão mais velho. Mantinha contatos regulares com ele, enquanto se graduava na Companhia – uma das maiores escolas ghondarianas, especializada em Arqueologia e resgate da História Ancestral perdida.
Passando pelas páginas do seu diário, um filme passava pelos olhos de Olívia: sua vida como arqueóloga era o seu maior tesouro. Descobertas históricas, mistérios decifrados e desafios vencidos. Mas o sumiço misterioso do seu irmão deu início a um complexo enigma – muito maior que a compreensão obtida até hoje...
A saída sibilante do vapor e o agudo tilintar de campainhas colocou os condutores em alerta, e maus pressentimentos assumem a mente de Olívia. Pelas janelas, nada além da terra vermelha e pouca vegetação do Deserto, e o trem perdia velocidade aos poucos. Aproximando-se da locomotiva, um grupo fazia barulho com suas armas para o ar e gritos de satisfação.
'Mas era tudo que precisava'. A jovem tentava manter-se calma, em meio à torrente de gritos e ações impensadas dos demais passageiros. Procurou com cuidado em sua mochila, até que pudesse encontrar conforto em sua adaga (um presente de seu irmão).
'Contarei com você se o meu plano falhar, velha amiga'.
Sua graça e agilidade tornaram-na incólume na confusão, e os bandidos mal perceberam sua presença. A jovem examinou atentamente a situação: cerca de doze indivíduos, robustos e bem armados, subjugaram tripulação e passageiros com facilidade. Todos usavam chapéus de aba larga e andrajos,mas era possível identificar sua linhagem bestial.
Entre eles, um indivíduo se destacava – não por suas roupas apresentáveis ou a escassez de armas, e sim o seu porte avantajado (intimidador até mesmo para seus comparsas) e olhar brilhante, de fascínio e crueldade.
-Saudações a todos! - o sarcasmo inflamava suas palavras. - Peço desculpas pela intromissão repentina, mas aviso que a viagem tomará um rumo distinto, que não os desagradará... A não ser que desejem morrer, é claro.
Sua gargalhada gutural preencheu o vagão de medo, e sua saída deu início à nova trajetória do trem. Olívia conseguiu escapar pela saída de emergência. Sentiu o alívio no frio ar livre, e tinha algum tempo para elaborar um plano. Mas permaneceu cautelosa, pois sabia que a discrição seria, sim, o maior trunfo...
***
O constante correr das areias naquela noite não eram problema para Maxwell, e tampouco o frio. Estava estranhando-se após tantos acontecimentos.
A morte de Marcy e o ataque dos bandidos despertou no seu íntimo uma nova consciência, uma sensação que desconhecia completamente. Quando viva em Kannon Town, sentia-se impelido a trabalhar, e a falta de emoções o tornava vazio e distante.
No entanto, toda aquela tensão o preencheu com um dever, a segurança de seus semelhantes (sensação limitada apenas pelo afeto que tem por Olívia, mesmo sem tê-la visto).
Caminhava com toda a pressa pelo deserto, para cumprir sua penitência e procurar logo seus irmãos. Sentia-se responsável pela morte de Marcy, a pessoa que o ensinou a viver, mas desejava ser útil para o mundo como Drake e Olívia.
Seus devaneios terminaram abruptamente graças a um ruído, alto e em franco movimento. Seus olhos podiam distinguir a estrada de ferro entre as dunas, uns cem metros à sua frente. Podia sentir a velocidade absurda do trem pressionar os ventos, abrindo caminho na penumbra.
Um olhar mais atento indicou uma presença, nos fundos do trem. O simples vislumbre atiçou a mente de Maxwell, e uma torrente de idéias emergiu.
Entre elas, uma única certeza preenche o vazio.
'É ela!'
***
Observando atentamente cada movimento, Olívia busca analisar precisamente a situação. Um ataque direto está fora de cogitação, graças à superioridade numérica e armamento pesado dos bandidos.
Observando atentamente cada movimento, Olívia busca analisar precisamente a situação. Um ataque direto está fora de cogitação, graças à superioridade numérica e armamento pesado dos bandidos.
A jovem pensou em sabotar a locomotiva, forçando sua paragem e confundindo completamente o bando – mas, como faria para chegar lá em segurança?
Tal questão perdurou por alguns minutos, quando algo irreal atraiu seus olhos. À sua direita, algo indistinguível dissipara algumas dunas. O óbvio lhe veio à mente em um lampejo: uma minhoca gigante, tão comum naquelas terras, pretende atacar o trem.
Somente um segundo olhar tornou real o improvável: entre o círculo de areia, estava um único homem, correndo como o vento.
A colisão entre os dois era inevitável, e Maxwell não queria causar mais mortes. Com o impulso de suas pernas, galgou o ar e desceu no engate de dois vagões.
Olívia fixou-se na porta do vagão, para ver o que aconteceria em seguida. Surpreendeu-se com a frieza e habilidade da criatura, que nocauteou três Dragonitas em poucos segundos. Adentrou o vagão para elaborar um plano, mas o jovem de cabelos longos e desgrenhados pelo vento a deixou para trás...
Maxwell estava novamente absorto em seu dever, como aconteceu na noite passada. A cada vagão, deixava bandidos mortos e reféns para que Olívia, seguindo-o de perto, pudesse libertar.
Na locomotiva, o jovem deparou-se com um distinto adversário, mais humano que os anteriores. Trajava um fino terno, e um pesado revólver pende do seu cinto. A cabeça reptiliana é lisa, com uma grande cicatriz descendo-lhe da nuca ao torso.
- Ora... Como chegou aqui, sozinho?
A única resposta de Maxwell foi um soco, habilmente desviado. Em resposta, o líder dos bandidos empunha seu revólver, fixando-o na têmpora do rapaz.
- Não pense que vai me deter com isso! - A fúria em sua voz rouca quase suprimiu o ruído do tiro.
Maxwell caiu, a cabeça decomposta em frangalhos. Olívia paralisou com a cena, e comprimiu o cabo de sua faca. O olhar maldoso do Dragonita virou-se para o vagão, com o cano fumegante de sua arma em riste.
- Agora, vocês pagarão com a vida por desafiarem Crista Negra!
A surpresa maior veio de baixo: uma lâmina longa perfurou o pé de Crista Negra, prendendo-o à armação de ferro. A surpresa do saqueador aumentou com o regresso de Maxwell, que chutou o revólver para o deserto.
- Mas... Como... ?
O rosto ileso do jovem era rijo como as rochas da região, e nenhuma resposta se esboçou em seus olhos. A frieza foi compartilhada por cada soco que trocaram, e Olívia concentrou-se em libertar os reféns restantes.
O ferimento e a fadiga pressionaram o Dragonita, que logo começou a ceder para o incansável adversário. Cada soco lhe arrancava muito sangue, e a força para lutar escapava por entre seus dedos.
Maxwell estava ciente da fraqueza do seu adversário, e encarregou-se do golpe fatal: sua mão direita adotou a forma de uma espada longa e reluzente, que partiu Crista Negra em dois. Sua consciência voltou quando não havia mais inimigos, e o assombro da tripulação tomou forma em súplicas e choro.
Olívia tomou a iniciativa, com toda a formalidade possível. Conduziu o maquinista para seu lugar e trouxe o jovem para dentro.
- Peço desculpas pela reação deles, pois não estão acostumados a enfrentar riscos...
Um caloroso abraço foi a única reação do rapaz, surpreendente para a jovem – que logo se afastou para retomar a compostura.
-Como é bom te ver, Olívia! - Maxwell estava radiante, sem qualquer indício da frieza de outrora.
Olívia petrificou imediatamente.
-Então, você me conhece... - O distanciamento foi a opção mais viável para evitar esse inexplicável afeto. - Mas isso me deixa em desvantagem, por não saber quem você é.
A consternação atinge Maxwell como uma espada fria e cruel, a lhe varar o coração. Sentiu a vergonha fechar a sua garganta, embargando a sua voz e nublando seus olhos.
-Er... ora... Me desculpe... - Afastou-se, tropeçando em suas próprias pernas. - É que tia Marcy me falava tanto de você que...
A memória de Olívia foi atingida por um lampejo.
- Tia Marcy...? Então, você deve ser...
- Maxwell Redfield, seu irmão."
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