E cá estou eu novamente, o Tecelão, para lhes contar um outro trecho da história que iniciei anteriormente. Espero que apreciem a história!
Parte Um
"Os ventos cortantes da tundra ressoavam nas neves harmonicamente, como uma terna canção de ninar, para os Fenn-Rir. Apesar de sua natureza lupina, estas criaturas possuem o respeito das grandiosas entidades espirituais que regem Ghondaria, mais conhecidas como Veneráveis. Seu conhecimento ímpar sobre o mundo prenunciou sua quase destruição no passado, e seu apreço pelas terras frias do Leste os tornou indignos de confiança para outros povos.
Mas, para este povo solitário e penitente, tal opinião é irrelevante. A primeira noite da Penumbra - estação ghondariana caracterizada por cinco meses de densa escuridão - é muito importante para sua cultura, em função dos rituais em honra à Själla e Fenn, seus pais e protetores máximos. É a partir do louvor destes que o culto a outros Veneráveis também se tornou possível.
O firmamento estava apinhado de estrelas quando um Xamã reuniu jovens lobos em uma grande arena de terra batida, sem qualquer sinal de neve, às portas de Hurr, a única cidade-fantasma na região. Após anos de treinamento e disciplina, seus mestres elegeriam a Epifania para cada um de seus discípulos - e era o seu dever cumpri-la em vida.
Entre os aprendizes que compunham o círculo místico da arena estava Garm, inquieto como a presa prestes a morrer. Se comparado aos demais, este lobo destacava-se principalmente por seu tamanho e pelagem acinzentada (conferindo-lhes ar heróico, como nos caçadores de outrora). Mas a incerteza em seu coração o tornava menor que um filhote.
No princípio da cerimônia, podia lembrar-se com clareza de seu passado, desde o princípio: da infância solitária aos primeiros contatos com o eremita Krumm, o mais respeitado Xamã em toda a tundra. O talento natural aflorou durante o treinamento, e o contato com espíritos tornou-se frequente.
Agora, após tantas provações e juramentos, chegou a hora de receber das estrelas a sua verdade, a sina que deve cumprir antes da sua morte, para ser digno de tornar-se uma estrela como Fenn, Själla e os heróis do passado.
O ancião prenuncia sua vez com um uivo solene, devidamente acompanhado pelos demais discípulos em crescendo. Garm reluta em adentrar o círculo, limitado por runas provenientes do princípio dos tempos. Seu mestre não poderia participar do ritual, por já ter cumprido sua Epifania, e o céu brindou a sua vitória.
O uivo coletivo se repete, inflando Garm com a coragem para enfrentar o seu destino. Atravessou, passo a passo, as chamas que contornam o círculo e ficou ao lado do ancião, aos olhos de todos que ali estavam.
- Que a chama vital de Gram-Mír, a resistência de Hinar'ri, a pureza de Själla e a determinação de Fenn possam estar em suas patas, guiando cada passo seu para o futuro que lhes é dirigido.
O louvor abafa o assobio dos ventos, um uivo da mais profunda paixão pelos Veneráveis. Cada nota conta uma façanha destes senhores, e do respeito a eles atribuído por permitirem a sua existência neste mundo.
O mestre de cerimônias retmoa seu ar austero, e suas palavras penetram suavemente no coração de cada um.
- Senhores da vida, do mundo e das eras! Revelem a este rebento qual é a sua vontade, o dever para o qual ele nasceu e que deve cumprir para morrer com honra, paz e serenidade!
Avisão das chamas fugurantes da arena abandonou lentamente os olhos de Garm, e o vazio aprofundou-se na sua alma...
***
A consciência não o abandonou em nenhum momento, e a sensação de queda elevou sua insegurança. Apesar do desconforto, sabia exatamente o que lhe acontecia: estava mergulhando em seu próprio espírito, uma região inexplorada por muitos e morada dos espíritos de maior poder.
Sua queda termina, com suavidade, sobre uma nuvem cinzenta como sua pelagem. Estava cercado pelo mais puro breu, mas sabia que não estava só: pelo manto da escuridão, olhos ternos e ansiosos o observavam.
- Eu sei que vocês estão aqui, Senhores da Terra e dos Céus! - Rosnou, deixando que a insegurança e temor domassem seu espírito.
- Você pretende nos desafiar, pupilo? - A voz colossal emerge de todos os lugares e, ao mesmo tempo, de lugar algum. - Você já conhece o seu destino!
- Não, eu não conheço! - Garm manteve o mesmo tom usado anteriormente.
- Então, renegarás o teu futuro graças à dúvida em si próprio? - Disse uma única voz, austera e grave quanto o próprio tempo.
- Deixarás que sua própria força o abandone, desrespeitando a memória de Krumm? - Uma segunda voz afirmou sua presença, serena e reconfortante.
- Deixarás que o fracasso condene sua alma, pelo temor do que está por vir? - uma voz suave, como a de uma fêmea, e destemida como a de um caçador.
- Você permitirá que a infame Escuridão domine todo o mundo? - O zelo excessivo adocica a últimadas vozes, como uma mãe perante o seu filhote.
- E como poderei fazer isso, sem o apoio de meus irmãos?
- Você jamais estará só, discípulo! - As vozes reúnem-se novamente, em tom grave como o de um trovão. - Nós estaremos em suas patas, guiando cada um dos seus passos; estaremos no horizonte, iluminando seu caminho; estaremos em cada palavra de seu coração, quando precisares cumprir um desejo; estaremos, acima de tudo, ao seu lado na sua busca por justiça, e honra.
- O silêncio minou a insegurança de Garm, cada palavra penetrando-lhe o coração como uma lâmina fria.
- O maior inimigo nesta jornada está dentro de si, discípulo. - O coro assume tom de advertência, bem similar às palavras de seu finado mestre. - A Escuridão emerge do medo, e o seu condenamento te condenará. Pelas terras desoladas deverás caminhar, e o mundo precisarás enfrentar até que a Chave seja encontrada.
- Chave?
- Para o segredo dos derrotados. Nossa calidez será o segu guia, e todos deverás enfrentar para desvendar o segredo, a começar por seus irmãos...
- Mas o meu dever não é a proteção do meu povo? - Mais um questionamento ataca o já confuso Garm. - Como poderei contrariá-los, renegar minha própria existência?
- Seu dever para com o destino envolve toda forma de vida, e não apenas o egoísmo de seus irmãos. - As vozes começam a perder a força vagarosamente. - Mas, lembre-se: esta Chave possui duas faces, e apenas a sua decisão...
***
A consciência de Garm retorna ao ritual, e a canção dos pupilos cortou sua concentração como uma espada. O mestre da cerimônia prosseguiu, sem perceber que a Epifania já tinha sido selada.
Um impulso levou o lupino ao abandono dos costumes que tanto estimou em vida. "Você deve enfrentar a todos para enfrentar o segredo". Por mais que tal ordem definisse sua sina, sentia-se receoso por seus irmãos - e tal sentimento lhe conduziu a uma decisão extrema: o descontrole de seus instintos.
O mesmo instinto que conduziu seus antepassados à Lua Vermelha, o massacre impensado de seus conterrâneos, os misteriosos Gnar'ral, consequente da mais pura intolerância...
Ao deixar que a fera interior assumisse o seu corpo, Garm tornou-se um mero espectador de sua própria ruína. Sob a lente rubra do rancor, viu o descontentamento dos ritualistas tomar forma quando saiu do círculo em direção ao território proibido.
As ruas de Hurr.
- Que a ira dos Veneráveis esteja comigo, para dilacerar sua alma e banquetear-se com sua carne, traidor! - Bradou o ancião, em sua caçada solitária contra o fugitivo.
A corrida persistiu por mais algum tempo, e Garm apreciava o ambiente singular criado por casas e prédios. Sempre desejou conhecer aquele local, mesmo ciente do tabu que isso representava. O contato com a cidade foi proibido após a morte de Fenn e Själla, causada pelo assombro daquele povo esquecido.
Sua distração encerrou-se com a corrida, aos pés da mais alta das torres de ferro. Mal teve tempo de contemplar a construção, pois o encolarizado Xamã alcançou-lhe num ataque veloz.
- Resolveu enfrentar seu castigo com honra, indigno?
- Agora que aceitei o meu destino - O rosnado cosntante tornou suas palavras perdidas, quase incompreensíveis. - Não há mais volta!
Garm tornou-se refém de sua própria fúria, e o ataque foi inevitável. O ancião se surpreendeu com a força descomunal de suas presas, a lhes cravar no pescoço. Os lobos engalfinharam-se com afinco, torcando mordidas e arranhões, nada forte o bastante para superar o pesar do jovem. Por esta razão, deixou que seu inimigo arrancasse um de seus olhos em um ataque certeiro.
- Que esse ferimento jamais cicatrize! - Bradou, regojizando-se com a vitória aparente.
Momento ideal para o desfecho do embate. Garm perfura o tronco do velho lobo com suas garras, arrancando-lhe muito sangue. A disciplina retorna em seus hábitos, e o socorro é prestado ao velho.
- Por... que?
- Por uma causa muito maior que a nossa fraternidade... - Ganidos chorosos pulavam do focinho do pesaroso pupilo.
- Entendo... Então, você aceitou o sacrifício...
Garm consentiu silenciosamente.
- Ninguém o faria melhor que você... Krumm deve estar orgulhoso.
Foram estas suas últimas palavras.
Conduzido apenas pelo pesar, o Fenn-Rir o agarrou pelo pescoço com cuidado, e o colocou em suas costas para levá-lo dali.
Nos portais de Hurr, uma grande alcatéia esperava pelo desfecho do embate. Olhares de repúdio pesavam sobre suas costas, que carregou no mais absoluto silêncio. Nada podia ser mais pesado que isto, a ponto de deixar o cadáver na neve límpida no solo e partir por conta própria.
Alguns dos pupilos que há pouco integravam o ritual fizeram um cerco, motivados pela vingança. Mas uma presença singular abriu caminho entre as massas: o pêlo branco brilhava entre as inúmeras cicatrizes que ostentava, e um capacete chanfrado da cor do ferro pairou em sua cabeça.
- Isto não será necessário. - Com o menear de sua cabeça, afastou os pupilos e deixou o caminho livre para Garm. - Ele já aceitou sua punição, e a seguirá sem qualquer questionamento.
A alcatéia deu-lhe as costas, e o lobo cinzento seguiu seu caminho, triste. Nem por um instante olhou para trás, pois sabia que o banimento era o seu destino, e nenhum outro Fenn-Rir o reconheceria como irmão a partir deste instante.
***
Garm já estava bem longe de Hurr quando uma tempestade se formou, ocultando a luz das estrelas. Em seu coração, não existia mais pesar - apenas a determinação que o guiou desde o princípio de sua ordenação.
Os cristais de neve límpida acumulavam-se sobre seu pêlo, inspirando a nostalgia da infância. Krumm era muito rígido naqueles tempos, doutrinando através da dor, privação e, principalmente, pela resistência.
- Para compreender a força de cada espírito, é precisotẽ-la dentro de si. - A voz autoritária de seu coração era brilhante como o pulso das estrelas. - Para dominar a neve, você precisa compartilhar da sua frieza.
Com um uivo solitário, ele demonstrou sua comunhão: os ventos daquela tempestade mudaram o seu rumo, dissipando-se completamente.
"Não o decepcionarei, Mestre".
As estrelas ainda brilhavam, a ponto de dissipar as nuvens geladas da Penumbra."
Nenhum comentário:
Postar um comentário