Parte Quatro
"O véu sinistro da noite mudava lentamente para Garm. Estava na viagem pela Tundra há quase uma semana, mas o tempo não se fazia presente – as noites eram sempre nubladas e frias, dando a sensação de que o tempo havia congelado. Ocasionalmente, o Fenn-Rir fazia pausas para caçar e descansar e, ao mesmo tempo, rever os seus passos. Desde seu banimento, pensou em como fazer essa busca, já que seu conhecimento sobre o mundo era inexistente.
Graças aos ensinamentos de Krumm, o jovem Xamã havia traçado um plano: seu primeiro objetivo seria procurar a chave nas terras de Allaniya, lar dos Elfos. Em seu treinamento, aprendeu sobre o Pacto Natural e as boas relações mantidas no passado, e pretendia invocar essa cordialidade quando alcançasse suas florestas.
A situação mudou quando as primeiras estrelas tingiram o firmamento, e o vento frio perdia o seu vigor. Os cheiros tornavam-se mais intensos, e Garm pôde atestar algo que o incomodava há tempos.
'Não estou sozinho, afinal...'
Sua percepção, no entanto, não podia definir quantos eram ou, tampouco, suas intenções. O lobo cinzento optou, então, por testá-los: uivou para o céu estrelado, exprimindo sua angústia em um tom lamuriento e lastimável.
Rosnados do mais puro rancor ressoaram como resposta, revelando a presença de cinco irmãos – os mesmos que participaram na revelação de sua Epifania...
-Pare de chorar, traidor! - Disse o suposto líder, que se destacava por seu pêlo manchado, em tons de cinza. - Não tens o direito de clamar para os céus depois de provocar a morte!
-Eu apenas cumpri o meu Destino... - o tom áspero e displicente de Garm atiçou a fúria dos demais.
-Se o seu Destino era a morte, faremos o favor de cumprí-lo!
Os lobos formam um círculo entre o Xamã e seu líder, remontando os tradicionais Duelos da sua cultura. Os componentes do círculo desenham na neve, delimitando seu espaço com glifos pouco legíveis.
-Aos olhos de meus irmãos e das estrelas, limparei a honra de meu pai com o sangue daquele que o traiu!
O desafiante curvou-se, as presas arreganhadas em violento tom escarnecedor. Garm, no entanto, sentou-se: preferiu encarar seu furioso irmão, sem o menor desejo de lutar.
-Vamos, lute! - As bravatas sequer faziam efeito contra o lobo cinzento. - Não finja o desinteresse pelo sangue, assassino. Ataque-me, para que eu possa te matar!
-Você está cego, irmão, e não pretendo fazer nada senão abrir seus olhos.
-Não sou e nem nunca serei irmão de um assassino! - o tom gutural em seus rosnados era suficiente para Garm perceber o descontrole. As garras do desafiante tremiam, dilacerando o manto de neve da tundra.
-Seu pai estava ciente do seu fim, e agiu com dignidade sem igual. Deveria enxergar o seu exemplo antes de abandonar o seu destino...
O discurso foi interrompido pelo ímpeto brutal do líder, motivado pela ira em seu estado bruto. O primeiro ataque foi desviado com uma pirueta, precisa o bastante para escapar do Duelo.
-Volte aqui, covarde! - A voz do duelista inflamava-se com o crescendo de sua ira, e o sangue quente ruborizava seus olhos. Esta foi a razão para que o círculo do Duelo fosse desfeito rapidamente.
-Esperem, meus irmãos! - Retrucou. -Não irão me apoiar nesta honrosa missão?
-Você nos convocou para um único Duelo, e já vimos o seu desfecho. - A ponderação dos pupilos escapou das atenções de Garm, que lhes deu as costas para retomar o seu caminho.
-Ele o venceu, irmão. - e sem precisar de suas garras ou presas.
A brutalidade falou mais alto para o desafiante, que correu para feri-lo em um ataque traiçoeiro eimperdoável.
O lobo cinzento esperava por esta reação, saltando por sobre o atacante com outra fascinante pirueta.
-Hinar'ri! - Um uivo austero e grave acentuou a força dos ventos contra o desafiante, arremessando-o contra o solo nevado.
O ataque assustou o lobo manchado, que fugiu deixando no ar as seguintes palavras:
-Irás pagar pela humilhação causada a mim, Raakh Garras-de-Gelo!
Para os demais, a consternação tomou força. Dizer seu próprio nome é abdicar da posição de Xamã, e afrontar os veneráveis. Frente a outros povos, contudo, é prova de lealdade absoluta.
-Vamos esperar que os Espíritos se apiedem da sua pobre alma... -Foi a última divagação dos pupilos, em seu regresso a Hurr.
Garm precisou parar por alguns instantes, tamanha era a estranheza que aumentava no seu íntimo. Sentiu pena pelo atormentado Raakh, que não tinha a determinação adequada para seguir o árduo destino dos Xamãs, e que agora irá viver sozinho (provavelmente, no seu encalço).
Mas o vislumbre das primeiras árvores e da terra batida injetaram novos ânimos para o Fenn-Rir, que corria para cumprir o seu destino. A comunhão de suas copas privara-lhe do contato com as estrelas, e o solo enrijecia suas patas, tão acostumadas com a neve de sua terra natal.
'Preciso manter-me alerta', pensou. Sentia um mau pressentimento naqueles campos, confirmado posteriormente por gritos de dor e sofrimento.
Garm posicionou-se com discrição, abrindo caminho para quem estava gritando e observando tudo de um denso arbusto. Pôde ver um homem grande e seriamente ferido, esforçando-se para fugir e clamando por ajuda.
Duas flechas rasgam o ar, cravando em sua perna direita e arrancando novos gritos de angústia. O atirador, um Elfo esguio e cheio de pompa, trazia consigo um arco de marfim a passos livres.
-Onde você pensa que vai, fujão? - o tom desdenhoso em suas palavras incomodava o lupino. -estamos esperando a sua volta para Altaria, e seu povo sente saudades.
O arrogante caçador desembainhava uma faca prateada e curva, e sua lâmina aproximava-se da Crista esverdeada, no topo da cabeça do ferido.
-Só mais um pouco, e sua dor logo terá fim...
E outro som preencheu a floresta, um uivo forte o bastante para ecoar mais adiante.
-Gram-Mír!
Os membros do Elfo enrijeceram perante tanta dor, capaz de fazê-lo convulsionar intensamente. A faca e o arco estavam ao seu alcance, mas a prioridade foi cuidar do ferido.
Porém, nada pôde ser feito para salvá-lo, e sua resignação resumiu-se em poucas palavras:
-Salve o meu povo, por favor!
Garm estava confuso, e não sabia o quê fazer.
-Você, que doma Espíritos... -o discurso era entrecortado pelo sangue que lhe subia à garganta. -Convoque S'haanti, nosso pai, que o guiará pelas matas até a mais alta árvore... Não deixe que... as Druídas...
A morte privou Garm de suas últimas palavras.
O elfo ainda contorcia-se com tanta agonia -até que um silvo cessasse o desconforto. O caçador se regojiza para fugir, e depara-se com um grande lobo enfurecido.
-O que você quer? -Retrucou, tateando pelo chão na busca por sua faca.
Garm a fitou, e seus olhos claros voltaram-se para o Elfo.
-Quero isto aqui.
A exposição de suas presas límpidas e afiadas causou calafrios na espinha do Elfo, que deixou tudo para trás para salvar sua vida. Garm abocanhou a empunhadura da faca, para usá-la em uma série de glifos complexos e inscritos ao solo."
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