sexta-feira, 30 de setembro de 2011

NOITE SEM FIM - Segundo Ato: CAMINHOS

Saudações, visitantes. Esta noite, darei prosseguimento à saga Noite Sem Fim - mais exatamente no momento em que cada caminho é tomado, em busca das respostas ainda incertas no passado e futuro de cada um de seus protagonistas.

Como sempre, aproveitem a leitura!

Parte Um

"As florestas seriam o primeiro desafio para Garm. Essa constatação surgiu das dificuldades para convocar seus líderes, os Veneráveis. Diversas vezes ele desenhou glifos para convocar os Espíritos para quem serve, mas o chão batido das clareirasnão possuem a essência vital da tundra.

A faca que passou a carregar ajudaria nos rituais, se carregasse consigo uma parte do seu Espírito. O lobo cinzento lembrava dos fundamentos de sua doutrina, sabiamente transmitidos por Krumm: “o contato de uma alma só será possível pela comunhão com uma segunda”. Ou seja, os Veneráveis atenderiam ao seu pedido se uma porção da mais pura essência espiritual lhes for ofertada.

Suas memórias resgatam um grande ensinamento, obtido durante seu treinamento. Lembrava-se de tantos talismãs que carregava em seu corpo – jóias, plumagens e braceletes bem atados ao seu pêlo, ou em suas patas.

“O poder de um Xamã não vem apenas dos Espíritos que regem o mundo, mas da união deste com sua própria alma. Para que isto seja possível, irei lhe ensinar o Rito da Comunhão, mas tome muito cuidado: um objeto unido por este ritual se tornará uma parte sua, como acontece com o seu corpo, e a menor falta de cuidado com ele poderá deixá-lo à mercê do mundo”.

Ciente dos riscos, Garm inscreveu com a lâmina fria novos símbolos sagrados, circundando uma valeta circular. Nesta, o sangue denso de um corte em uma de suas patas preenche o sulco, e leva o ritualista à fraqueza de fato. A lâmina é banhada no sangue, enquanto algumas preces irrompem no ambiente:

- Espíritos da terra, céus, luz e sombra. Reconheçam este objeto como parte de mim, minha essência e meu corpo. Que sua estrutura pulse como meu coração, possua o calor da minha vida e que compartilhe comigo as dores do mundo. Que meus olhos enxerguem na sua presença, e meu pensamento o controlem como a minha carne...

Todo sangue oferecido à vala é absorvido pela faca, e os glifos marcados no solo migram para sua lâmina e empunhadura.

- Aos olhos do mundo e de seus governantes, que assim seja!

O brilho da lâmina assumiu tom avermelhado e caloroso, pulsante como um ser vivo. As inscrições em sua superfície percorrem a pelagem do Fenn-Rir, à altura do seu coração, e o cansaço súbito lhe conduziu ao sono, no conforto das matas.


Pouco atrás, uma criatura corria pelas estradas florestais, em passos tão leves que sequer tocam o solo. Nas mãos, um longo arco de marfim denunciava suas intenções, e suas roupas de couro fino em sóbrios tons de verde o identificam entre os Elfos como um soldado.

Seus olhos fixos investigavam cada perímetro nos arredores, como um predador faminto. Estava bem perto do que tanto procurava, e sabia muito bem o quão incomum era a sua presa: um Fenn-Rir, representante do legendário povo das neves.

Queria levá-lo às autoridades, mas o jovem estava dividido: esperou pela morte certa quando vítima da magia daquele lupino, mas o contrário lhe acometeu. Sentia-se vivo como nunca, e livre de qualquer aflição característica em sua vida e linhagem.

O reencontro entre predador e presa torna-se inevitável. Garm vacila, severamente fatigado pelo Ritual de Comunhão e com a faca presa em sua mandíbula. O Elfo, em contrapartida, baixou o seu arco – uma franca demonstração de paz.

- Não venho feri-lo, lobo do Leste. - Suas palavras são complementadas por uma gentil mesura, que o põe de joelhos com a cabeça baixa, rente à estrada. - Eu, Lêuciann de Koriannis, venho demonstrar minha gratidão.

O Fenn-Rir aproxima-se devagar do sujeito, encarando profundamente seus olhos amendoados.

- Não fiz mais que o necessário, Elfo. - Garm crava sua faca no solo, sentando-se ao seu lado. - Além do mais, já cobrei o meu tributo.

Lêuciann imediatamente retira a bainha qua antes guardava sua lâmina, para então atá-la com perícia no torso lupino.

- Assim, ficará mais fácil carregá-la consigo. - Disse, embainhando a adaga e, consequentemente, sentindo seu calor sobrenatural. - Agora, onde pretendes ir, sábio amigo?

- Procuro a árvore mais alta. - Respondeu, a voz límpida de sua mente ainda enfraquecida. - Tenho vidas a salvar por lá.

- Entendo. - O Elfo engoliu em seco. Sentia-se culpado por envolver-se naquela brutal caçada, onde liderou um grupo de mercenários para deter alguns Dragonitas que saqueavam nos arredores (ou, pelo menos, assim haviam lhe ordenado).

- Mas será uma longa viagem, e não creio que consigas me acompanhar neste estado.

O caçador então contraria sua própria natureza, carregando Garm em suas costas – uma façanha para o próprio lobo, que conhecia os Elfos por sua fragilidade natural.

- Há... um vilarejo próximo daqui... - O esforço limitava suas palavras. - Descansaremos lá... para seguirmos em... frente...

O lobo nada disse, deixando que o Elfo lhe conduzisse pelas intermináveis florestas. Aos poucos, o volume de galhos e copas de árvore dava lugar à luz das estrelas, para o alívio do Xamã. A parada súbita, no entanto, despertou-lhe desconfiança ímpar.

- Isto é muito estranho... - Lêuciann deixou seu companheiro na estrada e, de arco em riste, vasculhou o local com seus olhos bem treinados. - Não vejo ninguém a esta hora, como se todos houvessem abandonado o local do dia pra noite!

Garm rosna, com o intuito de chamar atenção do seu guia, e o encara novamente.

- Tenho um mau pressentimento sobre isto... Sinto a presença de alguns Elfos, mas há algo afugentando suas vidas...

- Devem ser os Dragonitas novamente! - Ralhou o soldado, com o arco retesado para um ataque. Apenas a paciência do lobo cinzento poderia conter o seu ímpeto.

- Não, é algo muito além de sua simples compreensão. - Desembainhou a faca para inscrever um círculo místico na terra batida. - Vamos, entre comigo!

Seu uivo agudo tornou cada glifo mais presente, sua marca projetando-se no firmamento. Garm e seu aliado sentiam-se revigorados e calmos, tamanha coragem nutrindo seus espíritos.

- Que a inabalável Rainha de Gelo nos torne fortes como as geleiras eternas que protegem meu povo!

Um halo pálido como a neve emergiu da terra, envolvendo o círculo com o frescor da tundra, elevando sua força e bravura já latentes.


Passo a passo, Garm e Lêuciann desbravam a escuridão que domina o vilarejo. Suas casas, baixas e pouco trabalhadas, indicam a humildade dos aldeões locais.

No centro da aldeia, uma singela catedral permanece desde os tempos Ancestrais, resistindo ao tempo e suas intempéries. Para o Xamã, no entanto, seus altares e bustos em louvor à Mãe dos Elfos Allariaestão dominados pela mácula que consome o mundo.

- Esteja bem alerta, Elfo. - Mais uma vez, seus olhares se cruzaram e a comunicação se tornou possível. - O perigo dominou o local, e o menor sinal de fraqueza o tornará uma presa fácil.

Às portas da catedral, um persistente facho de luz resistia. Sombras projetavam-se nas paredes e solo de pedra polida, como uma dança selvagem e absolutamente ilógica. Lêuciann avançou com discrição, a corda de seu arco preparada para um disparo. O Fenn-Rir pôde ver o pavor da cena nos olhos do seu aliado...

Glifos toscos e compreensíveis para o Elfo foram entalhados em cada parede, realçados com o carmim natural de sangue seco, e muitos cadáveres brutalmente descarnados jaziam pelo chão. Aos pés de um altar de mármore maciço, um vulto agiganta-se à fraca luz de um círio.

- C-capitão... - Lêuciann deixou escapar um suspiro ao deparar-se com as dragonas em seus ombros, contrastando com os farrapos ensanguentados que vestia – um sinal da superioridade para quem presta serviço às Hostes Esmeraldas de Allaniya.

Mas o sujeito em nada se aparentava com o soldado que respeitava e seguia em outros tempos. Seu olhar emitia um doentio brilho amarelado, seu sorriso todo manchado de sangue. Torso e braços pulsavam intensamente, como se possuídos por uma sucessão de espasmos musculares, e sua postura vulgar o tornava pouco superior a uma fera faminta.

- Bem-vindo, soldado... - A malícia em sua voz tornava seu hálito insuportável como o enxofre. Com a lâmina escarlate de sua espada longa, vociferou como um animal enfurecido – uma cacofonia tão estridente que até os cadáveres perderam a sua paz mortiça.

Uma a uma, carcaças de homens, mulheres e crianças erguiam-se do chão, arranhando suas falanges contra o pavimento rude. No fundo de suas órbitas oculares, uma fraca luz purpúrea garante a sua privação, e a carne viva do Elfo mostra-se com a única fonte de conforto...

Lêuciann tenta vencer o pavor com suas habilidades, uma salva implacável de flechas rápidas e precisas contra os desmortos. Isso, no entanto, não era capaz de afugentá-los: como não havia carne para ferir, seus disparos atingiam o vazio, ou enroscavam-se nos ossos.

O caçador estava encurralado pelos mortos, ávidos por sua carne e sangue vivos. Mas o som agudo e bucólico de um uivo restaurou-lhe a confiança.

- Gram-Mír!

Ao compasso do clamor, a chama do círio agigantou-se de imediato, a silhueta ígnea de um lagarto impondo seu controle. Com um sopro de chamas, incinerou os cadáveres em um piscar de olhos, e ainda conseguiu ferir o Capitão – que precisou escapar saltando por um dos vitrais da capela.

Garm vacila um pouco após a façanha, retomando o fôlego para manter-se nas quatro patas. Mal conseguiu ver Lêuciann saindo da catedral, motivado pelo mais intenso rancor – algo novamente incomum para sua distinta linhagem..."

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

CIVILIZAÇÂO REDLANDER

Esta noite, caros visitantes, irei contar um pouco mais sobre meu mundo, a partir da ótica de cada um dos povos que lá vivem. A começar, claro, pelos "Penitentes" - a linhagem descendente dos destruidores do passado...


As Terras Vermelhas do Oeste
Desde sua origem, os Homens de Ghondaria possuíam extensa notoriedade. Seu criador, Logus, era admirado por sua visão de futuro e criatividade – herdada por seus descendentes. Graças a esse legado engenhoso e criativo, cidades foram erigidas e a Metamagia foi desenvolvida.
Entretanto, uma força tão intensa como a criatividade foi desencaminhada pela ganância, o intenso desejo de crescer. Aos poucos, o país denominado Greenlands transformou-se em um vasto deserto, graças ao manejo desmedido de Feitos Metamágicos. Para Logus e seus Herdeiros, não restou outra escolha senão a conquista, por intermédio da força, de um novo território.
Seus esforços culminaram na Guerra Arcana que, por quase cem anos, ampliaram a destruição em seu mundo. Condenados pelos sobreviventes do Pacto Natural, seus descendentes precisaram retornar ao deserto a Oeste.
Em um século e meio, os Redlanders (como se autodenominam) adaptaram o ambiente árido às necessidades prímais de seu povo. Graças à morte de Logus, a memória histórico-cultural e o domínio em Metamagia foram perdidas – em contrapartida, a Tecnologia a vapor tornou-se o principal acesso para o progresso. Processos científicos, instrumentos e máquinas tornaram-se imprescindíveis para esta civilização que busca, além do passado perdido, alcançar a plena prosperidade.

Os Seis Oásis
Segue abaixo a descrição das seis metrópoles que compõem as Redlands, bem como suas referências principais – população, riquezas, lideranças políticas e referências culturais para a civilização Redlander.

Carson, o Coração do Deserto
População: 20.470 habitantes (65% Redlanders, 10% Hennerianos, 10% Dragonitas, 10% Owllianos, 5% Outros);
Riqueza Líquida: 15.000.000 B$;
Liderança Política: Dana Winters, patronesse da Companhia Sandwolves;
Referência Cultural: Outrora o “marco zero” para a civilização das Greenlands, Carson serviu para o princípio da civilização Redlander. A maioria de suas câmaras e torres sobreviveu ao caos da Dissonância, servindo de abrigo para os exilados descendentes.
Atualmente, Carson continua despontando como a maior cidade em toda Ghondaria. Suas torres de ferro e pedra podem ser vistas de qualquer lugar do arquipélago. No entanto, mais impressionante que seu modelo arquitetônico é a quantidade de livros, atlas e tomos Ancestrais – totalmente protegidos da destruição, e acessíveis para qualquer um que deseje contribuir para seu povo.
Dentre os pontos de interesse para aventureiros, destacam-se a sede da Companhia Sandwolves (responsável direta pela exploração e conservação de material histórico), a torre da Távola de Ferro e a Oficina dos Mestres Ferreiros – os maiores especialistas em Tecnologia neste mundo.

Magdalene, o Refúgio do Saber
População: 14.715 habitantes (55% Redlanders, 20% Owllianos, 10% Hennerianos, 10% Dragonitas, 5% Outros);
Riqueza Líquida: 13.500.000 B$;
Liderança Política: Annabell Willard II, patronesse da Escola de Artes Alquímicas;
Referência Cultural: Apesar de seu modesto porte e planejamento, Magdalene se destaca por uma razão muito especial: em seu centro, encontra-se a Biblioteca Willard – o maior cofre de informações e conhecimentos Ancestrais que se tem notícia. Construído pela legendária Alquimista Magdalene Willard, este grande templo serve também para instalações da Escola de Artes Alquímicas de Ghondaria, a única instituição responsável pela aquisição e conservação de conhecimentos nesta área.
Graças aos esforços desta instituição, as Redlands cresceram consideravelmente. Inventos antes inconcebíveis, como a construção de locomotivas e técnicas de profilaxia e tratamento médico tornaram-se possíveis com o apoio da Alquimia – um dos únicos recursos capazes de sobrepujar a Metamagia. Logo, é natural que muitos jovens vivam nesta cidade, até que alcancem sua graduação como Alquimistas de renome.
O que poucos sabem é que Magdalene abriga um perigoso segredo: nas câmaras subterrâneas ao seu redor, existia uma oficina Metamágica – e, graças a uma exploração mal-sucedida, muitas das máquinas ali inertes despertaram a uma distância perigosa da cidade...

Redneck, a Cidade de Ferro
População: 12.100 habitantes (50% Redlanders, 20% Dragonitas, 15% Hennerianos, 10% Owllianos, 5% Outros);
Riqueza Líquida: 13.500.000 B$;
Liderança Política: Herald O'Leaf, o “Magnata de Ferro”;
Referência Cultural: De longe, a modesta Redneck é a cidade mais próspera em Ghondaria, e não é para menos. Situada sobre a maior reserva mineral do arquipélago, a produção diária de ferro e ouro tornou-se a principal atividade financeira na região – embora muitos busquem diamantes, tão comuns na Era Ancestral e, atualmente, raríssimos.
È justamente nos arredores de Redneck que se concentra o maior contingente Dragonita em Ghondaria. Entretanto, sua condição está distante do respeito e parcialidade: sua grande maioria trabalha nas minas em regime de escravidão, e os poucos que vivem livres são foragidos ou conseguiram comprar sua própria liberdade.
Seu atual Prefeito, o magnata Herald O'Leaf, empenha-se na legalização do trabalho escravo nas Redlands. Sua mina é a maior fornecedora de minério de ferro que se tem notícia, e a produção em massa tornou-se possível apenas com a força dos escravos – mas, até o momento, apenas o apoio do Submundo possibilitou esta situação.

Barbados, a Montanha do Golem
População: 9.750 habitantes (45% Redlanders, 20% Hennerianos, 10% Dragonitas, 10% Owllianos, 10% Fenn-Rir e 5% Elfos);
Riqueza Líquida: 9.000.000 B$;
Liderança Política: Carl Regdarn, patrono da Cavalaria Vermelha das Redlands;
Referência Cultural: No coração da Cordilheira Secular, repousa Barbados – um gigantesco Golem, construído nos tempos da Guerra Arcana. E, aos seus pés, uma fortaleza forte e inabalável – a cidade de Barbados.
Entre seus habitantes, homens e mulheres destemidos aventuram-se na busca por grandes desafios. Cada família ali residente possui pelo menos um descendente que provasse valor frente a combates decisivos. A cultura marcial é bem arraigada em sua cultura, e até mesmo a menor das contendas geralmente se resolve a partir de um duelo.
Seu atual Prefeito, o Dragonita Carl Regdarn, é admirado por todos na região. Demonstrou grande força e honra ao desafiar a população para tornar-se um Cavaleiro Vermelho, e obteve a graduação máxima ao destruir, sozinho, o Submundo que se instalara nos arredores. Hoje, Regdarn coordena as ações da Cavalaria – a força militar das Redlands – e recruta os cadetes, a partir de verdadeiras provas de fogo.
Além da Cavalaria, Barbados conta também com um grande contingente de ferreiros, responsáveis pela produção das melhores armas e proteções em todo o deserto.

Highwoods, a Cidade Verde
População: 10.986 habitantes (60% Redlanders, 20% Elfos, 5% Hennerianos, 5% Owllianos, 5% Dragonitas e 5% Fenn-Rir);
Riqueza Líquida: 12.500.000 B$;
Liderança Política: Jesse William Leeds, Capitão da milícia local;
Referência Cultural: Situado à borda leste do deserto, encontra-se a modesta cidadela de Highwoods. Graças à proximidade com os últimos resquícios de vida florestal, a maioria de seus habitantes vive da extração de madeira, útil para móveis e construção de moradias no deserto.
Contudo, sua principal atividade tornou-se também o foco de inúmeras tensões entre os moradores em Hoghwoods e os Elfos da região, que defendem a floresta com total devoção. Ademais, as invasões constantes de rufiões Dragonitas tornaram a situação ainda mais perigosa.
A liderança política local, o Capitão Leeds, requisitou apoio militar em várias reuniões da Távola de Ferro – mas nenhum dos outros líderes afirmou-s favorável a um novo conflito com os Herdeiros de Allaria. Todavia, sabe-se que um grande poderio bélico está sob o controle do mal-encarado Prefeito (segundo rumores, graças ao contato com um dos Sindicatos do Crime). Em contrapartida, Leeds aprecia o trabalho de mercenários que desejem encerrar com o que julga um “desentendimento casual”...

Porto Renard, a Flor do Deserto
População: 9.050 habitantes (40% Redlanders, 30% Hennerianos, 10% Owllianos, 10% Dragonitas, 10% Outros);
Riqueza Líquida: 10.750.000 B$;
Liderança Política: Maximillian Lobdell, aristocrata hoteleiro;
Referência Cultural: Outrora uma cidade miserável e ignorada por muitos, Porto Renard ganhou considerável respeito nos últimos dez anos. Graças ao trabalho do empresário Maximillian Lobdell, um movimento popular derrubou o Prefeito da época, em seu apoio. Ao assumir o controle da cidade, muitos investimentos foram realizados, graças aos esforços da coletividade.
Em menos de dez anos, Porto Renard tornou-se uma cidade próspera, e por muitas razões. Primeiro, sua localização – área costeira, de fácil acesso para as Ilhas Corsárias e a Ilha Gruunak. A grande estrutura do Porto Coralino comporta muito da produção na região Oeste, bem como navios de transporte turístico. O mercado hoteleiro anda de vento em popa, e muitas atrações culturais tornam a cidade atrativa – como a Feira do Arco-Íris (grande festa no período de pesca da Albacora Vermelha, comum na região).
O que poucos sabem é o envolvimento de Lobdell com o Submundo: como líder da infame Companhia Greysharks, diversas atividades ilícitas são mantidas em Porto Renard e a cidade tornou-se sitiada por esses bandidos. Logo, assim que a Távola de Ferro descobrir suas reais intenções, Lobdell usará seu poder entre as massas para seus propósitos malignos...

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

NOITE SEM FIM - Primeiro Ato: PERGUNTAS

Saudações novamente, visitantes.

Nesta noite cálida, regresso de meu mundo para concluir a primeira parte da história Noite Sem Fim, com muitas perguntas e nenhuma resposta (como o próprio nome já sugere...)

Aproveite a leitura!

Parte Final

"O clima denso em Kannon Town contagiou Olívia. Para onde quer que olhasse, crivos de balas e outras formas de depredação indicavam o quão violento foi o ataque.

O enterro de sua bondosa Tia mobilizou os populares, que prestavam solidariedade para a jovem e, ao mesmo tempo, mantinham-se alertas com o seu 'acompanhante'.

Maxwell.

Os preparativos para o funeral de Tia Marcy não foram suficientes para desvencilhar sua mente de tantas perguntas. Seu primeiro contato com Max (como passou a chamá-lo) aconteceu sob circunstâncias nada comuns, e suas capacidades obviamente sobre-humanas o tornam algo único e, ao mesmo tempo, indecifrável – muito além do conhecido sobre a tecnologia Ancestral, mais conhecida como Metamagia.

Desde sua graduação, a jovem especializou-se no conhecimento Metamágico, resultante da fusão entre a tecnologia e ciência com o Destino, força natural que compõe o mundo e sua realidade. Foi a partir desta técnica que o império dos homens se formou, e a Guerra Arcana tornou-se o mais triste episódio da história...

A principal criação do seu trabalho é a construção de Golens, as míticas e incansáveis máquinas de batalha. Seu interesse e o acesso concedido pela Companhia Sandwolves permitiram o conhecimento sobre todo tipo de procedimento que envolva sua construção e/ou aprimoramento.

Agora estava ciente do que Drake queria lhe dizer na última vez que o viu, há cerca de um ano atŕas.

Ao final da cerimônia, Olívia retorna imediatamente para a mercearia, sob os olhares cobiçosos de viajantes e magnatas que desejavam sua casa. Enconrtou o misterioso jovem logo na porta, pesadamente acolhido por um rústico sofá.

- Agora, vamos conversar, irmãozinho. - A postura séria deu lugar à curiosidade, tão comum no seu ofício. - Quero que você me conte como chegou aqui, sem deixar de lado nenhum detalhe.

Maxwell conta, então, a única versão da história que conhece: seu primeiro contato com Drake, às margens de uma ruína Ancestral; o reconhecimento de seu irmão mais velho e a circunstância de tal encontro: seu resgate, após o rapto causado por um grupo de saqueadores.

- E o que você fez desde então? - O tom de voz da jovem acumulava o alívio em cada resposta.

- Tenho trabalhado com Tia Marcy, à espera de um de vocês.

A resignação mecânica de Maxwell passou a irritar Olívia. “'ocê passou dos limites, Drake'. Entendia sua posição por conhecer intimamente os Autômatos, e sabia que seu irmão os via apenas como intrumentos – visão compartilhada pela maioria dos Arqueólogos. Ela, por outro lado, acreditava em sua evolução e personalidade, graças à presença do Destino que os mantêm vivos.

- E... você passou todo esse tempo aqui, sem qualquer ambição ou desejo?

- Eu tinha um único desejo, mas já o realizei.

- Posso saber qual foi esse desejo? - A fascinação agigantou os olhos castanhos e brilhantes da jovem, e Maxwell passou a fitá-los com maior afinco.

- Conhecê-la.

A resposta transformou o interesse em total surpresa. As bochechas finas de Olívia enrubesceram de imediato, e o jovem desviou seu estático olhar para uma das janelas. O silêncio afastou-lhes um do outro por alguns minutos, pois cada um deveria enfrentar seu próprio turbilhão de sensações.

Maxwell rompeu a distância, aproximando-se devagar e tocando desajeitadamente nos ombros da jovem.

- Você está igual à Tia Marcy, quando me escondia algo.

Olívia engoliu em seco, e uma lágrima escapou furtivamente pelo canto de seus olhos.

- Eu não posso mais concordar com isso... Você precisa seguir seu próprio caminho, Maxwell!

- O quê você quer dizer...? - O jovem estava bem confuso, graças ao olhar incisivo de sua irmã, que o rasgava como a mais afiada das navalhas.

- Tudo que você viveu até agora foi uma farsa! - O choro amoleceu sua voz, como se demonstrasse compaixão. - Você não é meu irmão e, pelo que vi, nem mesmo é humano!

Maxwell ficou imóvel, sem esboçar a menor reação.

- Eu... já imaginava isso.

Olívia buscou ampará-lo, indiferente a tanta frieza. O abraçou com força, de tão culpada que se sentiu ao ter-lhe revelado essa verdade tão cruel.

- Nenhum homem é capaz de fazer o que te é tão natural, Max.

- Então... O quê sou eu?

- Isso, eu ainda não sei... - O tom acolhedor na voz doce da jovem perdeu a sua força. Ficou ao lado ele, retomando a formalidade. - Mas eu estou disposta a te ajudar com a resposta, se você desejar.

Nenhuma palavra de Maxwell, e sua reação resumiu-se a alguns passos que o conduziam ao andar da mercearia.

- Preciso descansar agora. - O tom inexpressivo em sua voz atiçou a desconfiança em Olívia, que consentiu silenciosamente.

Apenas para ver onde isso terminaria...

O cair da verdadeira noite chegou com a grande força dos ventos, e boa parte da população em Kannon Town estava entregue ao sono profundo. Sem o menor indício de luz, Maxwell orientava-se no breu, em busca de uma saída.

Esforçava-se para não emitir o menor ruído e, ao abrir a porta com cuidado, deparou-se com Olívia – vestida e preparada para uma nova viagem.

- Pretendia me deixar para trás, Max?

O jovem engoliu em seco.

- É a minha busca, e não quero que você me acompanhe.

- É mesmo? - A jovem questionou, secamente. - E você já sabe por onde começar?

O silêncio constrangeu Maxwell novamente, a ponto de sua cabeça pender dos ombros.

- Pois eu sei como encontraremos a resposta. Mas, para isso, terás que confiar em mim.

- Eu... não posso aceitar isso. - O jovem afastou-se uns três passos para trás, deixando-se dominar pela escuridão. - Você viu como posso reagir, e não quero que saias ferida por minha causa.

- Não se preocupe comigo. - A lâmina em sua cintura reluzia o luar límpido no céu. - Não serei impecilho para você. Apenas quero te ajudar, em troca de sua ajuda.

- E no quê algo como eu pode ajudar? - Maxwell dava vazão a suas emoções, e isto fascina a jovem pesquisadora.

- Suas capacidades são muito superiores às de qualquer ser vivo. E penso que teremos muitos desafios logo no primeiro passo...

Maxwell permaneceu calado, seus ouvidos bem atentos às palavras da jovem.

- A última notícia que obtive do Drake veio de Idíllien, a Torre Arcana dos Elfos, pois buscava lá pela resposta do maior dos enigmas: a origem real da Metamagia.

- E você sugere que sigamos os seus passos. - A perspicácia do jovem desmentia, em alguns momentos, sua natureza inumana.

- Sim, mas não é assim tão simples... - Olívia interrompeu seu próprio raciocínio, mais concentrada em estabelecer uma linha de ação. - Precisaremos fazer algumas coisas primeiro, para confirmar minhas hipóteses. Por isso, aconselho a irmos pela manhã, não apenas para organizar nossas ideias, como também para nos mantermos seguros.

Maxwell não esconde a sua frustração.

- Você sabe muito bem que tenho força para nos proteger...

- Mas não aprendeu a controlar todo esse poder. - A jovem persiste na constatação de circunstâncias que justifiquem sua participação. - Até pouco tempo atrás, você desconhecia esse poder, e sua manifestação acontece descontroladamente. Um dos meus objetivos nesta viagem é descobrir o que você realmente é, Max, e ajudá-lo a controlar toda a sua força.

Maxwell aproxima-se de Olívia, seus olhos indecifráveis a deixando confusa.

- Eu sei que você se preocupa comigo e, principalmente, com o seu irmão. Mas não posso te envolver com tantos riscos...

Um toque leve no abdômen da jovem foi o suficiente para lhe causar a inconsciência, antes que qualquer réplica fosse proferida. Com o máximo de cuidado, a levou até uma das camas e a deixou dormindo, bem protegida por cobertores. Sentia-se profundamente feliz por tê-la conhecido, a ponto de seu coração pulsar com maior força e satisfação.

'Irei encontrar Drake, e logo voltarei a vê-la', sussurrou ao pé do seu ouvido. Em sua voz e ações, era possível perceber o conflito que dividia sua mente: uma parte sua queria ficar com ela para sempre, protegendo-a de todo e qualquer mal; mas o seu maior desejo estava na estrada, uma jornada onde a vida do seu irmão, bem como a sua, estariam em perigo constante...

Fechou toda a casa com uma chave que levou consigo, e uma cópia ficou sobre a mesa da sala. Sem olhar para trás, afastou-se rapidamente de Kannon Town – deixando que o deserto escuro e fio o envolvesse por completo."

terça-feira, 27 de setembro de 2011

LINHA DO TEMPO GHONDARIANA


Saudações, caros visitantes. Por meio deste encontro, venho descrever-lhes a trajetória sucinta deste mundo, os principais acontecimentos na história dos ghondarianos, até o seu tempo presente. Percebam que pouco tempo se fez necessário para que a ruína chegasse a essas terras, mas que a reconstrução se mantém no mesmo ritmo...

Aproveitem a leitura!

Linha do Tempo Ghondariana

Ciclo Zero: Corresponde ao nascimento das Etnias ghondarianas, segundo o Mito do Grande Tecelão.

Ciclo 25 da Era Ancestral: Fundação de Altaria e princípio da construção das cidades do Oeste.

Ciclo 50 da Era Ancestral: Nasce o país do Oeste, Greenlands.

Ciclo 67 da Era Ancestral: Os Fenn-Rir, após inúmeros atritos com os Dragonitas, encontram seu lar a Leste, em Bohrran.

Ciclo 93 da Era Ancestral: O aristocrata Lamarck Winslow desenvolve a Doutrina Metamágica, a partir do Tratado da Matéria e Destino.

Ciclo 115 da Era Ancestral: S'haanti ensina a seus Herdeiros a conversar com os Veneráveis, os espíritos-mestres de Ghondaria.

Ciclo 137 da Era Ancestral: A ruína das Greenlands conduz Logus para o Concílio dos Soberanos, que resulta na não-cooperação para os Homens.

Ciclo 150 da Era Ancestral: A Guerra Arcana tem início.

Ciclo 155 da Era Ancestral: Os Gnar'ral chegam a Bohrran.

Ciclo 170 da Era Ancestral: As hostes do Oeste marcham rumo à Allaniya. Gruunak se rebala contra Logus e parte das Greenlands.

Ciclo 245 da Era Ancestral: Fenn e Själla morrem, pelas mãos dos Gnar'ral – iniciando, assim, a Lua Vermelha.

Ciclo 249 da Era Ancestral: Tem início a Batalha de Allenaria – o desfecho da Guerra Arcana. Com a morte de Logus em batalha, tem início a Primeira Dissonância, que divide o território ghondariano em fragmentos.

Ciclo 250 da Nova Era: O Julgamento de Ghondaria condena os Homens ao exílio, para o Oeste desértico. Os Hennerianos chegam às Ilhas Corsárias.

Ciclo 251 da Nova Era: O Enterro de Allaria acontece na Sequóia, junto com a ordenação das Primeiras Druidas da Ordem da Sequóia-Mundo. S'haanti banha seus Herdeiros com o próprio sangue e vísceras, no Festim dos Veneráveis.

Ciclo 255 da Nova Era: Os Owllianos de Gruunak travam seu primeiro contato com Ghondaria. O término da construção de Porto Arco-Íris conclui a formação das cidades Hennerianas. A Tecnologia à Vapor torna-se a força motriz das Redlands. Tem início a construção das Linhas Férreas no Deserto.

Ciclo 300 da Nova Era: Os Herdeiros de Fenn reestabelecem contato com os Veneráveis de Bohrran – Hinar'ri e Gram-Mír, que compõem seu panteão ao lado de Fenn e Själla. Tem início a Guerra das Sombras, entre os principais Sindicatos do Crime em Ghondaria. Os trens tornaram-se o principal meio de transporte nas Redlands.

Ciclo 349 da Nova Era: Tempo presente. As relações hostis entre os Elfos e demais povos começa a enfraquecer. O Oeste está unido por diversas Linhas Férreas. As Druidas da Sequóia-Mundo descobrem os primeiros Cultos Negros, bem como a influência dos Inquietos.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

NOITE SEM FIM - Primeiro Ato: PERGUNTAS

Saudações, humildes visitantes. Como de praxe, continuarei a contar um pouco mais da epopéia conhecida em meu mundo como Noite Sem Fim. Aproveitem a leitura!

Parte Quatro
"O véu sinistro da noite mudava lentamente para Garm. Estava na viagem pela Tundra há quase uma semana, mas o tempo não se fazia presente – as noites eram sempre nubladas e frias, dando a sensação de que o tempo havia congelado. Ocasionalmente, o Fenn-Rir fazia pausas para caçar e descansar e, ao mesmo tempo, rever os seus passos. Desde seu banimento, pensou em como fazer essa busca, já que seu conhecimento sobre o mundo era inexistente.

Graças aos ensinamentos de Krumm, o jovem Xamã havia traçado um plano: seu primeiro objetivo seria procurar a chave nas terras de Allaniya, lar dos Elfos. Em seu treinamento, aprendeu sobre o Pacto Natural e as boas relações mantidas no passado, e pretendia invocar essa cordialidade quando alcançasse suas florestas.

A situação mudou quando as primeiras estrelas tingiram o firmamento, e o vento frio perdia o seu vigor. Os cheiros tornavam-se mais intensos, e Garm pôde atestar algo que o incomodava há tempos.

'Não estou sozinho, afinal...'

Sua percepção, no entanto, não podia definir quantos eram ou, tampouco, suas intenções. O lobo cinzento optou, então, por testá-los: uivou para o céu estrelado, exprimindo sua angústia em um tom lamuriento e lastimável.

Rosnados do mais puro rancor ressoaram como resposta, revelando a presença de cinco irmãos – os mesmos que participaram na revelação de sua Epifania...

-Pare de chorar, traidor! - Disse o suposto líder, que se destacava por seu pêlo manchado, em tons de cinza. - Não tens o direito de clamar para os céus depois de provocar a morte!

-Eu apenas cumpri o meu Destino... - o tom áspero e displicente de Garm atiçou a fúria dos demais.

-Se o seu Destino era a morte, faremos o favor de cumprí-lo!

Os lobos formam um círculo entre o Xamã e seu líder, remontando os tradicionais Duelos da sua cultura. Os componentes do círculo desenham na neve, delimitando seu espaço com glifos pouco legíveis.

-Aos olhos de meus irmãos e das estrelas, limparei a honra de meu pai com o sangue daquele que o traiu!

O desafiante curvou-se, as presas arreganhadas em violento tom escarnecedor. Garm, no entanto, sentou-se: preferiu encarar seu furioso irmão, sem o menor desejo de lutar.

-Vamos, lute! - As bravatas sequer faziam efeito contra o lobo cinzento. - Não finja o desinteresse pelo sangue, assassino. Ataque-me, para que eu possa te matar!

-Você está cego, irmão, e não pretendo fazer nada senão abrir seus olhos.

-Não sou e nem nunca serei irmão de um assassino! - o tom gutural em seus rosnados era suficiente para Garm perceber o descontrole. As garras do desafiante tremiam, dilacerando o manto de neve da tundra.

-Seu pai estava ciente do seu fim, e agiu com dignidade sem igual. Deveria enxergar o seu exemplo antes de abandonar o seu destino...

O discurso foi interrompido pelo ímpeto brutal do líder, motivado pela ira em seu estado bruto. O primeiro ataque foi desviado com uma pirueta, precisa o bastante para escapar do Duelo.

-Volte aqui, covarde! - A voz do duelista inflamava-se com o crescendo de sua ira, e o sangue quente ruborizava seus olhos. Esta foi a razão para que o círculo do Duelo fosse desfeito rapidamente.

-Esperem, meus irmãos! - Retrucou. -Não irão me apoiar nesta honrosa missão?

-Você nos convocou para um único Duelo, e já vimos o seu desfecho. - A ponderação dos pupilos escapou das atenções de Garm, que lhes deu as costas para retomar o seu caminho.

-Ele o venceu, irmão. - e sem precisar de suas garras ou presas.

A brutalidade falou mais alto para o desafiante, que correu para feri-lo em um ataque traiçoeiro eimperdoável.

O lobo cinzento esperava por esta reação, saltando por sobre o atacante com outra fascinante pirueta.

-Hinar'ri! - Um uivo austero e grave acentuou a força dos ventos contra o desafiante, arremessando-o contra o solo nevado.

O ataque assustou o lobo manchado, que fugiu deixando no ar as seguintes palavras:

-Irás pagar pela humilhação causada a mim, Raakh Garras-de-Gelo!

Para os demais, a consternação tomou força. Dizer seu próprio nome é abdicar da posição de Xamã, e afrontar os veneráveis. Frente a outros povos, contudo, é prova de lealdade absoluta.

-Vamos esperar que os Espíritos se apiedem da sua pobre alma... -Foi a última divagação dos pupilos, em seu regresso a Hurr.

Garm precisou parar por alguns instantes, tamanha era a estranheza que aumentava no seu íntimo. Sentiu pena pelo atormentado Raakh, que não tinha a determinação adequada para seguir o árduo destino dos Xamãs, e que agora irá viver sozinho (provavelmente, no seu encalço).

Mas o vislumbre das primeiras árvores e da terra batida injetaram novos ânimos para o Fenn-Rir, que corria para cumprir o seu destino. A comunhão de suas copas privara-lhe do contato com as estrelas, e o solo enrijecia suas patas, tão acostumadas com a neve de sua terra natal.

'Preciso manter-me alerta', pensou. Sentia um mau pressentimento naqueles campos, confirmado posteriormente por gritos de dor e sofrimento.

Garm posicionou-se com discrição, abrindo caminho para quem estava gritando e observando tudo de um denso arbusto. Pôde ver um homem grande e seriamente ferido, esforçando-se para fugir e clamando por ajuda.

Duas flechas rasgam o ar, cravando em sua perna direita e arrancando novos gritos de angústia. O atirador, um Elfo esguio e cheio de pompa, trazia consigo um arco de marfim a passos livres.

-Onde você pensa que vai, fujão? - o tom desdenhoso em suas palavras incomodava o lupino. -estamos esperando a sua volta para Altaria, e seu povo sente saudades.

O arrogante caçador desembainhava uma faca prateada e curva, e sua lâmina aproximava-se da Crista esverdeada, no topo da cabeça do ferido.

-Só mais um pouco, e sua dor logo terá fim...

E outro som preencheu a floresta, um uivo forte o bastante para ecoar mais adiante.

-Gram-Mír!

Os membros do Elfo enrijeceram perante tanta dor, capaz de fazê-lo convulsionar intensamente. A faca e o arco estavam ao seu alcance, mas a prioridade foi cuidar do ferido.

Porém, nada pôde ser feito para salvá-lo, e sua resignação resumiu-se em poucas palavras:

-Salve o meu povo, por favor!

Garm estava confuso, e não sabia o quê fazer.

-Você, que doma Espíritos... -o discurso era entrecortado pelo sangue que lhe subia à garganta. -Convoque S'haanti, nosso pai, que o guiará pelas matas até a mais alta árvore... Não deixe que... as Druídas...

A morte privou Garm de suas últimas palavras.

O elfo ainda contorcia-se com tanta agonia -até que um silvo cessasse o desconforto. O caçador se regojiza para fugir, e depara-se com um grande lobo enfurecido.

-O que você quer? -Retrucou, tateando pelo chão na busca por sua faca.

Garm a fitou, e seus olhos claros voltaram-se para o Elfo.

-Quero isto aqui.

A exposição de suas presas límpidas e afiadas causou calafrios na espinha do Elfo, que deixou tudo para trás para salvar sua vida. Garm abocanhou a empunhadura da faca, para usá-la em uma série de glifos complexos e inscritos ao solo."

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

DO NADA ATÉ O PRESENTE - Parte Final

Saudações, visitantes.

Esta noite, concluirei a história de minha terra, descrevendo sua realidade nas noites que estão por vir.

Aproveitem a leitura!

O Renascimento de Ghondaria
O combate encerrara-se com a Dissonância, e o mundo estava devastado. Quase toda Ghondaria se transformou em um deserto cáustico, assolado por feras incontroláveis e caóticas condições ambientais. A pouca vida que restou foi contagiada pela maldade e negativismo decorrentes da Guerra – a noite tornou-se mais densa e os dias perderam o brilho caloroso da luz.
Os sobreviventes e descendentes dos Homens foram julgados pelo Pacto Natural, e a raiva os puniu ao exílio – regressaram para os desertos a Oeste, onde deveriam viver como Penitentes pelo fim de suas vidas.
Para os integrantes do Pacto, a situação não foi menos hostil. Os Herdeiros de Allaria velaram sua criadora na Sequóia – tida por alguns como a única árvore viva em Ghondaria – e organizaram-se nas pequenas florestas que sobreviveram à Dissonância, com o intuito de reconstruir o mundo. Dragonitas e Fenn-Rir tentaram se adaptar ao novo mundo: os Herdeiros do Dragão, odiados por Elfos e Penitentes por causarem tanta ruína, tornaram-se párias, e o deserto é seu único lar. Recompostos do frenesi que os acometeu, os Herdeiros de Fenn retornaram a Bohrran e, como lição para seus descendentes, juraram preservar as construções dos Gnar'ral.
A Dissonância trouxe à Ghondaria os Hennerianos, um povo batalhador que buscava no mar aberto uma terra prometida. Perdidos na tempestade, encontraram abrigo nas remotas ilhas a oeste de Ghondaria, para então reconstruir seu mundo nelas.
Da mesma forma, uma nova Etnia se revela para os ghondarianos. Nascidos de um experimento com o Destino, os pequenos Owllianos (Homens-Coruja) resgatam muito da cultura Ancestral, como a Doutrina Metamágica e as pretensões de aprimorar o mundo, por exemplo.

Terra de Sonhos... e Pesadelos
Cerca de cento e cinquenta anos após a cruel Batalha de Allenaria, Ghondaria experimenta as esperanças de renascimento. Em meio ao medo e caos que a escuridão inspira, cada uma das Etnias deste mundo luta por um futuro mais digno.
Nas áridas terras a Oeste, as Redlands prosperam das rínas Ancestrais que a cercam. Sem qualquer recurso físico ou intelectual (um efeito decorrente da morte de Logus, que causou o esquecimento da cultura Ancestral), os Redlanders desenvolveram-se a partir do talento tecnológico, que permitiu o advento da Tecnologia à vapor – seu maior trunfo desde a perda da Doutrina Metamágica. Dessa forma, máquinas garantiram o sustento e romperam a distância causada pela fragmentação do mundo.
Os Hennerianos, melhor estabelecidos nas Ilhas Corsárias, conseguirem constituir suas cidades e cultura, nos moldes da mítica Henneria, sua terra natal. Apesar do emprego de seus talentos com o mar e construções, este povo é marcado pela desconfiança dos demais, por suas tradições exóticas e intolerância em interações sociais.
Embora sejam proscritos, os Dragonitas lutam com toda a força que possuem para manter vivas as tradições que S'haanti os ensinou – em troca da força que receberam de seu líder. Tamanha devoção se deve aos desafios constantes em sua vida, da sobrevivẽncia no deserto ao confronto com escravagistas e caçadores de outras Etnias.
Os honrados Fenn-Rir retornaram a Bohrran, para cumprir o Juramento dos Campeões, feito após a ruína dos Gnar'ral. No constante intento de restaurar o equilíbrio a partir do contato com os Veneráveis, cada um dos Herdeiros de Fenn recebe a incumbência de proteger, ao custo da própria vida, toda construção erigida por seus oponentes (motivo este que justifica sua habitação nas antigas cidades Gnar'ral). Tanto apreço por estes locais causa furor em outros ghondarianos, de tantos rumores acerca de tesouros de valor inestimável.
A Ilha Gruunak, o ponto mais distante de Ghondaria, é o lugar mais acolhedor no mundo. A simpatia dos Owllianos é grande, bem como o desejo de reconstruir o mundo em sua forma natural. Defensores formais da cultura Ancestral, os Herdeiros de Gruunak buscam utilizar a Doutrina Metamágica para um futuro próspero, à margem dos temores de Elfos, Dragonitas e Fenn-Rir...
Porém, mesmo a esperança parece irrisória contra o domínio e força da escuridão. Inquietos vagam por toda Ghondaria, alimentando-se do medo e angústia dos vivos para posteriormente tomar seus corpos. A vida passou a existir de outra forma, mesclando-se às trevas e aderindo à sua perversidade. A cada instante, Ghondaria torna-se mais e mais próxima da morte – restando aos ghondarianos a força para que um fato tão triste quanto este jamais aconteça...

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

NOITE SEM FIM - Primeiro Ato: PERGUNTAS

Saudações aos visitantes.

Nesta noite, darei continuidade à história que comecei a contar por aqui, em mais um momento eletrizante desta lenda. Apreciem a leitura!

Parte Três
"O ritmo tranquilo da locomotiva causava sentimentos diversos: sono, excitação, ou até mesmo enfado. Para Olívia, a inquietação foi a companheira fiel na viagem.

De fato, a bela jovem tinha muito para se preocupar. Lia e relia o seu diário, enquanto brincava com os cachos de seu cabelo. Havia tantas coisas em jogo – Drake, sua tia Marcy e o misterioso Maxwell – que sua demissão da Companhia Sandwolves lhe parece justificável.

'Vou sentir falta de tudo aquilo', foi o pensamento corrente. Lembrava-se da sua primeira viagem, onde trocou a pacata Kannon Town por uma vida instável e repleta de trabalho, graças à influência de seu irmão mais velho. Mantinha contatos regulares com ele, enquanto se graduava na Companhia – uma das maiores escolas ghondarianas, especializada em Arqueologia e resgate da História Ancestral perdida.

Passando pelas páginas do seu diário, um filme passava pelos olhos de Olívia: sua vida como arqueóloga era o seu maior tesouro. Descobertas históricas, mistérios decifrados e desafios vencidos. Mas o sumiço misterioso do seu irmão deu início a um complexo enigma – muito maior que a compreensão obtida até hoje...

A saída sibilante do vapor e o agudo tilintar de campainhas colocou os condutores em alerta, e maus pressentimentos assumem a mente de Olívia. Pelas janelas, nada além da terra vermelha e pouca vegetação do Deserto, e o trem perdia velocidade aos poucos. Aproximando-se da locomotiva, um grupo fazia barulho com suas armas para o ar e gritos de satisfação.

'Mas era tudo que precisava'. A jovem tentava manter-se calma, em meio à torrente de gritos e ações impensadas dos demais passageiros. Procurou com cuidado em sua mochila, até que pudesse encontrar conforto em sua adaga (um presente de seu irmão).

'Contarei com você se o meu plano falhar, velha amiga'.

Sua graça e agilidade tornaram-na incólume na confusão, e os bandidos mal perceberam sua presença. A jovem examinou atentamente a situação: cerca de doze indivíduos, robustos e bem armados, subjugaram tripulação e passageiros com facilidade. Todos usavam chapéus de aba larga e andrajos,mas era possível identificar sua linhagem bestial.

Entre eles, um indivíduo se destacava – não por suas roupas apresentáveis ou a escassez de armas, e sim o seu porte avantajado (intimidador até mesmo para seus comparsas) e olhar brilhante, de fascínio e crueldade.

-Saudações a todos! - o sarcasmo inflamava suas palavras. - Peço desculpas pela intromissão repentina, mas aviso que a viagem tomará um rumo distinto, que não os desagradará... A não ser que desejem morrer, é claro.
Sua gargalhada gutural preencheu o vagão de medo, e sua saída deu início à nova trajetória do trem. Olívia conseguiu escapar pela saída de emergência. Sentiu o alívio no frio ar livre, e tinha algum tempo para elaborar um plano. Mas permaneceu cautelosa, pois sabia que a discrição seria, sim, o maior trunfo...

***

O constante correr das areias naquela noite não eram problema para Maxwell, e tampouco o frio. Estava estranhando-se após tantos acontecimentos.

A morte de Marcy e o ataque dos bandidos despertou no seu íntimo uma nova consciência, uma sensação que desconhecia completamente. Quando viva em Kannon Town, sentia-se impelido a trabalhar, e a falta de emoções o tornava vazio e distante.

No entanto, toda aquela tensão o preencheu com um dever, a segurança de seus semelhantes (sensação limitada apenas pelo afeto que tem por Olívia, mesmo sem tê-la visto).

Caminhava com toda a pressa pelo deserto, para cumprir sua penitência e procurar logo seus irmãos. Sentia-se responsável pela morte de Marcy, a pessoa que o ensinou a viver, mas desejava ser útil para o mundo como Drake e Olívia.

Seus devaneios terminaram abruptamente graças a um ruído, alto e em franco movimento. Seus olhos podiam distinguir a estrada de ferro entre as dunas, uns cem metros à sua frente. Podia sentir a velocidade absurda do trem pressionar os ventos, abrindo caminho na penumbra.

Um olhar mais atento indicou uma presença, nos fundos do trem. O simples vislumbre atiçou a mente de Maxwell, e uma torrente de idéias emergiu.

Entre elas, uma única certeza preenche o vazio.

'É ela!'

***

Observando atentamente cada movimento, Olívia busca analisar precisamente a situação. Um ataque direto está fora de cogitação, graças à superioridade numérica e armamento pesado dos bandidos.

A jovem pensou em sabotar a locomotiva, forçando sua paragem e confundindo completamente o bando – mas, como faria para chegar lá em segurança?

Tal questão perdurou por alguns minutos, quando algo irreal atraiu seus olhos. À sua direita, algo indistinguível dissipara algumas dunas. O óbvio lhe veio à mente em um lampejo: uma minhoca gigante, tão comum naquelas terras, pretende atacar o trem.

Somente um segundo olhar tornou real o improvável: entre o círculo de areia, estava um único homem, correndo como o vento.

A colisão entre os dois era inevitável, e Maxwell não queria causar mais mortes. Com o impulso de suas pernas, galgou o ar e desceu no engate de dois vagões.

Olívia fixou-se na porta do vagão, para ver o que aconteceria em seguida. Surpreendeu-se com a frieza e habilidade da criatura, que nocauteou três Dragonitas em poucos segundos. Adentrou o vagão para elaborar um plano, mas o jovem de cabelos longos e desgrenhados pelo vento a deixou para trás...

Maxwell estava novamente absorto em seu dever, como aconteceu na noite passada. A cada vagão, deixava bandidos mortos e reféns para que Olívia, seguindo-o de perto, pudesse libertar.

Na locomotiva, o jovem deparou-se com um distinto adversário, mais humano que os anteriores. Trajava um fino terno, e um pesado revólver pende do seu cinto. A cabeça reptiliana é lisa, com uma grande cicatriz descendo-lhe da nuca ao torso.

- Ora... Como chegou aqui, sozinho?

A única resposta de Maxwell foi um soco, habilmente desviado. Em resposta, o líder dos bandidos empunha seu revólver, fixando-o na têmpora do rapaz.

- Não pense que vai me deter com isso! - A fúria em sua voz rouca quase suprimiu o ruído do tiro.

Maxwell caiu, a cabeça decomposta em frangalhos. Olívia paralisou com a cena, e comprimiu o cabo de sua faca. O olhar maldoso do Dragonita virou-se para o vagão, com o cano fumegante de sua arma em riste.

- Agora, vocês pagarão com a vida por desafiarem Crista Negra!
A surpresa maior veio de baixo: uma lâmina longa perfurou o pé de Crista Negra, prendendo-o à armação de ferro. A surpresa do saqueador aumentou com o regresso de Maxwell, que chutou o revólver para o deserto.

- Mas... Como... ?
O rosto ileso do jovem era rijo como as rochas da região, e nenhuma resposta se esboçou em seus olhos. A frieza foi compartilhada por cada soco que trocaram, e Olívia concentrou-se em libertar os reféns restantes.

O ferimento e a fadiga pressionaram o Dragonita, que logo começou a ceder para o incansável adversário. Cada soco lhe arrancava muito sangue, e a força para lutar escapava por entre seus dedos.

Maxwell estava ciente da fraqueza do seu adversário, e encarregou-se do golpe fatal: sua mão direita adotou a forma de uma espada longa e reluzente, que partiu Crista Negra em dois. Sua consciência voltou quando não havia mais inimigos, e o assombro da tripulação tomou forma em súplicas e choro.

Olívia tomou a iniciativa, com toda a formalidade possível. Conduziu o maquinista para seu lugar e trouxe o jovem para dentro.

- Peço desculpas pela reação deles, pois não estão acostumados a enfrentar riscos...
Um caloroso abraço foi a única reação do rapaz, surpreendente para a jovem – que logo se afastou para retomar a compostura.

-Como é bom te ver, Olívia! - Maxwell estava radiante, sem qualquer indício da frieza de outrora.

Olívia petrificou imediatamente.

-Então, você me conhece... - O distanciamento foi a opção mais viável para evitar esse inexplicável afeto. - Mas isso me deixa em desvantagem, por não saber quem você é.

A consternação atinge Maxwell como uma espada fria e cruel, a lhe varar o coração. Sentiu a vergonha fechar a sua garganta, embargando a sua voz e nublando seus olhos.

-Er... ora... Me desculpe... - Afastou-se, tropeçando em suas próprias pernas. - É que tia Marcy me falava tanto de você que...

A memória de Olívia foi atingida por um lampejo.

- Tia Marcy...? Então, você deve ser...

- Maxwell Redfield, seu irmão."

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

DO NADA ATÉ O PRESENTE - Parte Três

Agora, este humilde andarilhos lhes contará um pouco mais da história do mundo que me originou... Espero que a apreciem.


A Guerra Arcana
A tensão proliferava entre os povos como rastilho de pólvora. De um lado, os melhores Metamagos do Oeste fabricam Golens e máquinas de guerra para o iminente combate (consequentemente, causando males ainda maiores ao mundo), ao passo que no Leste o Pacto Natural é forjado entre Dragonitas, Elfos e Fenn-Rir – em prol da integridade natural de Ghondaria.
Em pouco tempo, os titãs de aço e fogo liderados por Logus começaram a marchar rumo às florestas allaniyanas, e a infame Guerra Arcana teve início...
Os campos de batalha tornaram-se grandes desertos vermelho-sangue, e muitas vidas foram desperdiçadas. A cada embate, aumentavam-se os temores entre os allaniyanos, pois o poder destrutivo da Metamagia tornou-se forte demais para suas defesas. Como se isso não bastasse, a injustificada ausência dos Fenn-Rir na batalha os deixou em franca desvantagem, e a vingança logo nasceria.
Os Dragonitas compunham o “front” do Pacto, e a morte quase dizimou seu povo. Só o comando do Dragão Selvagem Sha'anti, os reptantes recorreram a inúmeros rituais para convocar os espíritos da natureza e afugentar a frente de batalha.
Em Bohrran, a situação se agravou. O que antes era inimizade motivada pelo temor tornou-se luta pela sobrevivência – os Gnar'ral começaram a caçar compulsivamente os filhostes Fenn-Rir, para que servissem de alimento em tão insólitas terras. Os melhores guerreiros dentre os Herdeiros de Fenn mobilizaram-se para proteger os covis de seu povo – sem, no entanto, tomar a frente em um ataque, segundo o desejo de seu “pai”.
Depois de um século de combate sangrento, o ápice da Guerra Arcana causaria o caos à esplendorosa terra de Ghondaria...

Vestígios da Guerra
Depois de um longo período de sangue e terror, a Guerra Arcana chega ao seu fim. Na mítica Batalha de Allenaria, no coração da grande ilha, Penitentes reuniam-se à margem do território allaniyano, ao passo que o Pacto Natural tentava reunir mais forças para o combate derradeiro.
Em Bohrran, a situação entre Fenn-Rir e Gnar'ral chegou ao limite. Na tentativa de salvar seus filhotes e impedir um confronto, Fenn e Själla foram até a principal cidade de seus conterrâneos, garantir um acordo de paz entre os povos. Mas, no território deles, não encontraram mais que a morte imediata.
O rancor entre os Fenn-Rir era tamanho que, em uma única noite, todos se reuniram para um ataque violento e maciço contra os Gnar'ral, no episódio conhecido como Lua Vermelha. Nenhum dos visitantes sobreviveu a este combate, e suas armas pouco fizeram para conter a fúria dos guerreiros de Fenn.
Uma última convocação foi feita para os lupinos de Bohrran, em nome de Allaria, lutarem contra as terríveis máquinas de guerra vindas do Oeste. A fúria minou suas mentes, e o apreço pelo combate tornou-se a única maneira de reduzir a dor de sua perda.
A batalha estava próxima do fim em Allenaria. Os Homens estavam próximos da vitória – suas máquinas incansáveis derrotaram grande parte da força èlfica, e os Dragonitas estavam a um passo da derradeira extinção. Allaria e S'haanti reuniam suas forças para um ataque final, quando os Fenn-Rir juntaram-se ao embate, e sua força foi primordial para evitar a vitória dos ambiciosos.
Foi neste instante que a maldição abateu-se sobre Ghondaria. Em um momento de fraqueza e ódio, S'haanti encontrou um desprevenido Logus, e o feriu fatalmente no flanco com suas garras.

A Ira do Tecelão
A morte de Logus foi a gota d'água para Ghondaria, que não aguentava mais tanta destruição. Em uma condição impensada por muitos, todo o Destino que revestia o presente se agigantou em uma enorme explosão, e todo o arquipélago por ela foi afetado – o céu, a terra e os seres vivos tornaram-se cinzentos, impregnados pela negatividade decorrente da Guerra, e a ilha que abrigava a todos estilhaçou-se no Mar Aberto. A água pura do Lago da Criação foi suprimida pelas águas escuras do mar, e um pequeno arquipélago se formou do lugar que antes seria o refúgio de vários povos...
Os espíritos de todos que morreram no conflito regressaram ao mundo dos vivos, graças à fusão das dimensões que até então eram paralelas – o Limbo (onde os mortos viviam) e Ghondaria. Agora, os mortos impregnariam a terra e a vida com sua essência negativa, e o Destino deixou de ser tangível para todos para tornar-se completamente caótico para os sobreviventes.
Tanta catástrofe ocasionou a morte de milhares, e a vida natural foi severamente reduzida. Sentimentos como pânico, fúria e temor tornaram-se comuns, assolando animais e indivíduos como pragas. Surgiam então os Inquietos – entidades oriundas da maldade e portadoras de grande poder.
Allaria e S'haanti, exauridos pelo poder da Dissonância – denominação aplicada à catástrofe – realizaram seus últimos esforços para salvar Ghondaria da erradicação. A Dama da Ternura convocou suas mais fiéis e poderosas seguidoras para conjurar um campo de força, capaz de salvar parte da floresta que tanto amam. O Dragão, por outro lado, ofereceu-se em sacrifício para seus Filhos e Veneráveis, no intuito de que sua força impedisse o nascimento do mal.
Para os Fenn-Rir, o mal desencadeado pelos Gnar'ral consumiu a beleza em Ghondaria e, na busca por respostas para uma cura, receberam dos Veneráveis a punição por seu crime. De Fenn, receberam a mácula da ira, presente na cor escarlate dos seus olhos; e de Själla, receberam a sina de nascer e morrer nas terras marcadas pelos assassinados.
Apesar dos esforços, Ghondaria estava tomando um novo futuro, enevoado pelo rancor dos antepassados e desesperanças dos sobreviventes...

terça-feira, 20 de setembro de 2011

NOITE SEM FIM - Primeiro Ato: PERGUNTAS

Como seu humilde anfitrião, estou de volta em mais um trecho da Noite Sem Fim, uma das histórias mais conhecidas de meu povo.

Espero que apreciem a leitura!


Parte Dois

Para muitos em Kannon Town, era uma noite como poucas. O vento forte impossibilitava o tráfego habitual, e o temor de tempestades mantinha quase todos no conforto de seus lares.

Maxwell, no entanto, não via diferença alguma entre o ontem e o hoje. Como de costume, recolhia os engradados para o depósito da mercearia, já que sua bondosa Tia Marcy (proprietária do local) tinha ido ao Correio.

Enquanto guardava os mantimentos, pensava em tudo que viveu até o presente momento: nada que aconteceu antes do fortuito encontro com Drake , seu irmão mais velho, lhe vinha à mente; e, há quase um ano, permaneceu na cidade trabalhando com sua tia, esperando ansiosamente pelo retorno de sua família.

Tantas dúvidas foram rapidamente postas de lado com a chegada de sua Tia, eufórica e saltitante como uma criança.

- Tenho boas novas, Max! - Um abraço apertado comprimiu seu tórax, sufocando-lhe por alguns segundos. Via de perto o sorriso radiante de Marcy, que parecia muito mais jovem que de costume. - Olívia nos mandou um telegrama!

- Oh, é mesmo? - O rapaz não expressava o contentamento de sua Tia, apesar de sentir alegria no seu íntimo. - E o quê diz a carta?

Marcy restaurava seu fôlego vagarosamente, limitado pela meia-idade, enquanto ajustava seus cabelos grisalhos em um novo coque. Espanou o surrado avental para expulsar o pó de suas roupas, antes de sentar-se no balcão e ler a carta, em alto e bom tom:

'Saudações, Tia Marcy!

Por aqui, está tudo muito bem, o trabalho com a Companhia é muito produtivo. Mas envio esta carta por duas razões muito importantes.
A primeira delas é o desaparecimento de Drake, com quem não tenho contato há pouco menos de um ano. Nessa época, ele estava aí com você, e um telegrama me foi enviado. De acordo com alguns informantes da Guilda, Drake partiu para Allaniya, e pretendo seguir no seu encalço.
A segunda razão é que será muito bom vê-la novamente, após tanto tempo. Então, dentro de um dia ou menos, estarei lhe fazendo uma visita breve antes de chegar em Allaniya – até para conhecer o tal Maxwell de quem você tanto fala!

Então, até a vista!
Olívia'

Ao término da leitura, emoções adversas dominaram a mercearia. Marcy não consegue conter as lágrimas, ao perceber que algo ruim aconteceu com aquele que criou como a um filho. Maxwell, por outro lado, permaneceu com sua habitual expressão vazia, mas a confusão lhe abatia lentamente: sentia-se feliz por saber que Olívia estava voltando a Kannon Town e, ao mesmo tempo, inconformara-se com a condição de Drake.

Ambos acabaram se percebendo, e o disfarce tornou-se inevitável. A dona da loja enxugou o rosto com a borda de seu avental, enquanto que o rapaz ergue uma caixa de garrafas em direção à porta.

- Vou fazer a entrega no saloon...

- Não demore muito, porque farei o jantar agora mesmo. - Ordenou Marcy, a voz abafada pela manga do seu braço para conter os soluços.

Cada um seguiu seu rumo no total silêncio.

***

Em passos vagarosos, Maxwell dividia suas atenções com o equilíbrio (imposto pela força dos ventos) e com a surpresa. Seu primeiro contato com a jovem aconteceria em breve, mas não sabia como agir quando a hora chegasse.

Por muitas vezes, encontrou o amparo ao escutar de sua Tia diversas histórias sobre Olívia. Num primeiro momento, sentia-se admirado pelas escolhas de sua irmãzinha (em adotar a mesma carreira de seus pais e irmão), mas tal sentimento logo tomou maior força – a um nível muito além de sua limitada compreensão...

Sem se dar conta, já estava em frente do único saloon de Kannon Town. O velho Bernie, proprietário do local, coxeara até a porta, impaciente.

- Até que enfim, garoto! Pensei que ficaria sem bebidas esta noite. - Maxwell tentava manter-se longe, de tão insuportável o cheiro de álcool e fumo.

- São setenta Buck$, senhor.

- Se a bebida estiver batizada de novo...

Maxwell já não estava mais presente para ouvir aquele sermão, e o retorno à mercearia estava garantido.

Não fosse por uma estranha sensação no ar...

Sua visão, mais aguçada que a de outros na cidade, denunciou movimentos estranhos na casa de sua Tia, e o ganido estridente de Tourrags ao fundo causavam-lhe um forte mau pressentimento.

'É uma emboscada!'

Mas era muito tarde para agir. O estrondo de armas para o alto denunciava o surgimento de assaltantes – organizados em número suficiente para superar os milicianos em turno naquela noite.

Ao redor de Maxwell, o mundo perdeu a rotação. Para onde quer que olhasse, tiros rompiam o espaço, ávidos para ceifar vidas, e pessoas fugiam desesperadamente. Não sabia como agir ou, tampouco, onde poderia se abrigar.

Antes que desse conta, um dos cavaleiros partiu à galope para a loja, e o jovem se pôs no seu caminho instintivamente. Apenas para cair no chão batido, com o tórax perfurado à altura do coração...


***

Marcy estava distraída, ocupada em preparar uma excelente refeição. A carne suculenta de Tourrag estalava na frigideira, e o aroma forte dos temperos distraíam seu paladar.

Não conseguia deixar de pensar no telegrama que recebeu há pouco, tamanho o impacto de suas palavras. Passou todo esse tempo à espera de informações sobre seu sobrinho, e a ideia de que Elfos teriam-no raptado inspirava-lhe grande medo.

Desde o momento que recebeu a tutela de Olívia e Drake, Marcy discordava com afinco das ideias de seu irmão, Johnathan, em explorar os segredos do passado. Fez de tudo para que a Arqueologia não os levasse também para uma vida de riscos constantes, mas os dois eram teimosos demais para isto: a ocupação de seus pais e sua disposição ante o perigo tornava-nos grandes heróis, e sua tendência começou a florescer no contato com livros e instrumentos da área.

'Enfim, não pude fazer nada', suspirou. Seu esforço foi em vão, e o conformismo encontrou o seu lugar, junto com uma farta panela de arroz. 'Pelo menos, não fiquei sozinha novamente'.

Nesse instante, pensou em Maxwell: neste período, o rapaz foi mais que prestativo, ainda que à sua maneira. Seu comportamento frio e distante inspirou dúvidas e insegurança em seus conhecidos, e o enfado constante da vida o tornava distinto, quase inumano...

Seu raciocínio cessou abruptamente com a cacofonia lá fora, como se uma tempestade dominasse Kannon Town. Um olhar pela janela, contudo, revelou a cruel realidade: um assalto implacável.

Marcy largou o que fazia para empunhar sua espingarda (única companheira em momentos de perigo), e foi brutalmente surpreendida por um dos saqueadores, alto e forte demais para o sobretudo que vestira. Uma de suas mãos grandes e reptantes portava um revólver, e suas pupilas fendidas não demonstravam a menor emoção.

- Se ficar bem quietinha, continuará viva. - A voz ríspida e os trejeitos desconfortáveis do bandido confirmavam a natureza selvagem dos Dragonitas, seres humanóides que descenderam do Dragão Selvagem S'haanti.

O sujeito ergueu Marcy pelo pescoço com uma das mãos, e a menteve por alguns segundos: tempo suficiente para vistoriar o aposento com seus olhos.

- Irei perguntar uma única vez. - O estalido da arma se engatilhando deu maior veracidade a suas palavras. - Onde está o dinheiro?

A proprietária da mercearia nada respondeu, concentrando-se em alcançar uma vassoura pendurada na parede, bem ao seu lado.

Infelizmente, o saqueador percebeu sua intenção, e três disparos foram a sua resposta. Um sorriso maligno exibiu as presas pontiagudas quando a parede foi tingida com uma mancha carmesim. O cadáver tombou violentamente, com um baque surdo.

Uma rápida verificação foi o suficiente para reunir dinheiro, jóias e alguns outros pertences de valor equivalente, para sua total satisfação. Pela porta dos fundos, ele saiu para montar novamente em seu Tourrag (animal bípede bem usado para montarias em toda Ghondaria).

Apenas para ser ferido por um soco, forte o bastante para lançá-lo novamente à casa.


***


A queda ruidosa de um irmão chamou as atenções do bando, que reuniu-se na mesma hora.

- O quê aconteceu?

- Vou ver isso de perto. - Assumiu um dos bandidos, descendo de sua montaria.

- Ótimo. - Disse o maior dos cavaleiros, o corpo completamente coberto por andrajos. - Você, o acompanhe enquanto eu e os rapazes cuidaremos de outro assunto.

- Sim, senhor.

O grupo maior saía de Kannon Town a todo galope, seus Tourrags carregados com mochilas e bolsas de carga. Deixaram para trás três membros de seu bando, conscientes e bem armados, tramando entre si para averiguar o quê acontece naquele momento.

- O quê te acertou?

Antes que o ferido pudesse responder, uma cômoda do mais puro cedro atravessou o ar e dispersou os comparsas, cada um para um lado.

O capanga situado à esquerda foi o primeiro a cair. Antes que pudesse reagir, um silvo rasgou o silêncio e, logo em seguida, sua cabeça...

O ruído causou tensão em cada um dos sobreviventes.

- Apareça logo, desgraçado! - Gritou o saqueador ao centro, com uma jovem comprimida entre sua mão esquerda e o cano de um revólver roçando-lhe a têmpora. - Do contrário, estourarei os miolos desta humana, está ouvin...

Um segundo silvo condenou a cena ao mais profundo silêncio, e o rolar de mais uma cabeça confirmou esta condição. Para quem sobreviveu ao assalto, a busca de refúgios pareceu-lhes a opção mais viável.

O único bandido restante estava enfrentando o temor no seu íntimo, totalmente concentrado em derrotar o inimigo assim que o visse.

No entanto, não estava preparado para encontrá-lo à sua frente.

- Mas... eu, eu...

- Me matou? - A voz de Maxwell era áspera, quase artificial. Sua mão direita assumira outra forma vagarosamente, semelhante ao cano de um revólver. Sua camisa velha de algodão possuía um buraco à altura do peito, contornado por uma mancha viva de sangue. Ao passo que a carne estava intacta.

- Você devia prestar mais atenção no seu trabalho...

O bandido se deixou levar pela impulsividade, atirando continuamente contra Maxwell. O pavor afetou e muito sua precisão e, dos seis tiros, apenas dois acertaram o jovem, mas não houve sangramento para conter. Fechando seus olhos, ele consegue fechar suas feridas instantaneamente – para o espanto de todos que assistiam ao embate.

Embasbacado, o Dragonita deixou sua arma cair no chão, com as mãos trêmulas pelo terror.

- Pft. - Maxwell zombou enquanto sua mão adotava uma nova forma, pontiaguda e muito afiada. - Hora de eliminar a ameaça...

Em um piscar de olhos, o até então inofensivo jovem dilacerou o invasor, sem o menor remorso ou piedade. O alívio da população em Kannon Town deu lugar ao medo: muitos ali presentes conheciam Maxwell, e jamais esperariam tanta brutalidade do mesmo.

Alguns mobilizaram-se para enfrentá-lo, de armas em punho e cientes do abismo que os separa. Apenas para vê-lo entrar na mercearia e, após alguns instantes, fechar sua porta e sair com uma pequena mochila de couro presa em um dos ombros.

- Pare aí mesmo, ladrão! - O velho Bernie não conseguia conter sua língua, estimulado por sua carabina e a bebedeira de mais cedo. - Depois de tudo que a Marcy fez por você, irá roubá-la e dar as costas para nós?

Maxwell deu de ombros, virando-se para encarar os descontentes.

- Se minha Tia estivesse viva, repreenderia sua ingratidão. Mas isso não importa. - Deu as costas novamente. - Irei procurar Olívia e Drake, mas primeiro farei os fugitivos pagarem pelo que fizeram!