Como sempre, aproveitem a leitura!
Parte Um
"As florestas seriam o primeiro desafio para Garm. Essa constatação surgiu das dificuldades para convocar seus líderes, os Veneráveis. Diversas vezes ele desenhou glifos para convocar os Espíritos para quem serve, mas o chão batido das clareirasnão possuem a essência vital da tundra.
A faca que passou a carregar ajudaria nos rituais, se carregasse consigo uma parte do seu Espírito. O lobo cinzento lembrava dos fundamentos de sua doutrina, sabiamente transmitidos por Krumm: “o contato de uma alma só será possível pela comunhão com uma segunda”. Ou seja, os Veneráveis atenderiam ao seu pedido se uma porção da mais pura essência espiritual lhes for ofertada.
Suas memórias resgatam um grande ensinamento, obtido durante seu treinamento. Lembrava-se de tantos talismãs que carregava em seu corpo – jóias, plumagens e braceletes bem atados ao seu pêlo, ou em suas patas.
“O poder de um Xamã não vem apenas dos Espíritos que regem o mundo, mas da união deste com sua própria alma. Para que isto seja possível, irei lhe ensinar o Rito da Comunhão, mas tome muito cuidado: um objeto unido por este ritual se tornará uma parte sua, como acontece com o seu corpo, e a menor falta de cuidado com ele poderá deixá-lo à mercê do mundo”.
Ciente dos riscos, Garm inscreveu com a lâmina fria novos símbolos sagrados, circundando uma valeta circular. Nesta, o sangue denso de um corte em uma de suas patas preenche o sulco, e leva o ritualista à fraqueza de fato. A lâmina é banhada no sangue, enquanto algumas preces irrompem no ambiente:
- Espíritos da terra, céus, luz e sombra. Reconheçam este objeto como parte de mim, minha essência e meu corpo. Que sua estrutura pulse como meu coração, possua o calor da minha vida e que compartilhe comigo as dores do mundo. Que meus olhos enxerguem na sua presença, e meu pensamento o controlem como a minha carne...
Todo sangue oferecido à vala é absorvido pela faca, e os glifos marcados no solo migram para sua lâmina e empunhadura.
- Aos olhos do mundo e de seus governantes, que assim seja!
O brilho da lâmina assumiu tom avermelhado e caloroso, pulsante como um ser vivo. As inscrições em sua superfície percorrem a pelagem do Fenn-Rir, à altura do seu coração, e o cansaço súbito lhe conduziu ao sono, no conforto das matas.
Pouco atrás, uma criatura corria pelas estradas florestais, em passos tão leves que sequer tocam o solo. Nas mãos, um longo arco de marfim denunciava suas intenções, e suas roupas de couro fino em sóbrios tons de verde o identificam entre os Elfos como um soldado.
Seus olhos fixos investigavam cada perímetro nos arredores, como um predador faminto. Estava bem perto do que tanto procurava, e sabia muito bem o quão incomum era a sua presa: um Fenn-Rir, representante do legendário povo das neves.
Queria levá-lo às autoridades, mas o jovem estava dividido: esperou pela morte certa quando vítima da magia daquele lupino, mas o contrário lhe acometeu. Sentia-se vivo como nunca, e livre de qualquer aflição característica em sua vida e linhagem.
O reencontro entre predador e presa torna-se inevitável. Garm vacila, severamente fatigado pelo Ritual de Comunhão e com a faca presa em sua mandíbula. O Elfo, em contrapartida, baixou o seu arco – uma franca demonstração de paz.
- Não venho feri-lo, lobo do Leste. - Suas palavras são complementadas por uma gentil mesura, que o põe de joelhos com a cabeça baixa, rente à estrada. - Eu, Lêuciann de Koriannis, venho demonstrar minha gratidão.
O Fenn-Rir aproxima-se devagar do sujeito, encarando profundamente seus olhos amendoados.
- Não fiz mais que o necessário, Elfo. - Garm crava sua faca no solo, sentando-se ao seu lado. - Além do mais, já cobrei o meu tributo.
Lêuciann imediatamente retira a bainha qua antes guardava sua lâmina, para então atá-la com perícia no torso lupino.
- Assim, ficará mais fácil carregá-la consigo. - Disse, embainhando a adaga e, consequentemente, sentindo seu calor sobrenatural. - Agora, onde pretendes ir, sábio amigo?
- Procuro a árvore mais alta. - Respondeu, a voz límpida de sua mente ainda enfraquecida. - Tenho vidas a salvar por lá.
- Entendo. - O Elfo engoliu em seco. Sentia-se culpado por envolver-se naquela brutal caçada, onde liderou um grupo de mercenários para deter alguns Dragonitas que saqueavam nos arredores (ou, pelo menos, assim haviam lhe ordenado).
- Mas será uma longa viagem, e não creio que consigas me acompanhar neste estado.
O caçador então contraria sua própria natureza, carregando Garm em suas costas – uma façanha para o próprio lobo, que conhecia os Elfos por sua fragilidade natural.
- Há... um vilarejo próximo daqui... - O esforço limitava suas palavras. - Descansaremos lá... para seguirmos em... frente...
O lobo nada disse, deixando que o Elfo lhe conduzisse pelas intermináveis florestas. Aos poucos, o volume de galhos e copas de árvore dava lugar à luz das estrelas, para o alívio do Xamã. A parada súbita, no entanto, despertou-lhe desconfiança ímpar.
- Isto é muito estranho... - Lêuciann deixou seu companheiro na estrada e, de arco em riste, vasculhou o local com seus olhos bem treinados. - Não vejo ninguém a esta hora, como se todos houvessem abandonado o local do dia pra noite!
Garm rosna, com o intuito de chamar atenção do seu guia, e o encara novamente.
- Tenho um mau pressentimento sobre isto... Sinto a presença de alguns Elfos, mas há algo afugentando suas vidas...
- Devem ser os Dragonitas novamente! - Ralhou o soldado, com o arco retesado para um ataque. Apenas a paciência do lobo cinzento poderia conter o seu ímpeto.
- Não, é algo muito além de sua simples compreensão. - Desembainhou a faca para inscrever um círculo místico na terra batida. - Vamos, entre comigo!
Seu uivo agudo tornou cada glifo mais presente, sua marca projetando-se no firmamento. Garm e seu aliado sentiam-se revigorados e calmos, tamanha coragem nutrindo seus espíritos.
- Que a inabalável Rainha de Gelo nos torne fortes como as geleiras eternas que protegem meu povo!
Um halo pálido como a neve emergiu da terra, envolvendo o círculo com o frescor da tundra, elevando sua força e bravura já latentes.
Passo a passo, Garm e Lêuciann desbravam a escuridão que domina o vilarejo. Suas casas, baixas e pouco trabalhadas, indicam a humildade dos aldeões locais.
No centro da aldeia, uma singela catedral permanece desde os tempos Ancestrais, resistindo ao tempo e suas intempéries. Para o Xamã, no entanto, seus altares e bustos em louvor à Mãe dos Elfos Allariaestão dominados pela mácula que consome o mundo.
- Esteja bem alerta, Elfo. - Mais uma vez, seus olhares se cruzaram e a comunicação se tornou possível. - O perigo dominou o local, e o menor sinal de fraqueza o tornará uma presa fácil.
Às portas da catedral, um persistente facho de luz resistia. Sombras projetavam-se nas paredes e solo de pedra polida, como uma dança selvagem e absolutamente ilógica. Lêuciann avançou com discrição, a corda de seu arco preparada para um disparo. O Fenn-Rir pôde ver o pavor da cena nos olhos do seu aliado...
Glifos toscos e compreensíveis para o Elfo foram entalhados em cada parede, realçados com o carmim natural de sangue seco, e muitos cadáveres brutalmente descarnados jaziam pelo chão. Aos pés de um altar de mármore maciço, um vulto agiganta-se à fraca luz de um círio.
- C-capitão... - Lêuciann deixou escapar um suspiro ao deparar-se com as dragonas em seus ombros, contrastando com os farrapos ensanguentados que vestia – um sinal da superioridade para quem presta serviço às Hostes Esmeraldas de Allaniya.
Mas o sujeito em nada se aparentava com o soldado que respeitava e seguia em outros tempos. Seu olhar emitia um doentio brilho amarelado, seu sorriso todo manchado de sangue. Torso e braços pulsavam intensamente, como se possuídos por uma sucessão de espasmos musculares, e sua postura vulgar o tornava pouco superior a uma fera faminta.
- Bem-vindo, soldado... - A malícia em sua voz tornava seu hálito insuportável como o enxofre. Com a lâmina escarlate de sua espada longa, vociferou como um animal enfurecido – uma cacofonia tão estridente que até os cadáveres perderam a sua paz mortiça.
Uma a uma, carcaças de homens, mulheres e crianças erguiam-se do chão, arranhando suas falanges contra o pavimento rude. No fundo de suas órbitas oculares, uma fraca luz purpúrea garante a sua privação, e a carne viva do Elfo mostra-se com a única fonte de conforto...
Lêuciann tenta vencer o pavor com suas habilidades, uma salva implacável de flechas rápidas e precisas contra os desmortos. Isso, no entanto, não era capaz de afugentá-los: como não havia carne para ferir, seus disparos atingiam o vazio, ou enroscavam-se nos ossos.
O caçador estava encurralado pelos mortos, ávidos por sua carne e sangue vivos. Mas o som agudo e bucólico de um uivo restaurou-lhe a confiança.
- Gram-Mír!
Ao compasso do clamor, a chama do círio agigantou-se de imediato, a silhueta ígnea de um lagarto impondo seu controle. Com um sopro de chamas, incinerou os cadáveres em um piscar de olhos, e ainda conseguiu ferir o Capitão – que precisou escapar saltando por um dos vitrais da capela.
Garm vacila um pouco após a façanha, retomando o fôlego para manter-se nas quatro patas. Mal conseguiu ver Lêuciann saindo da catedral, motivado pelo mais intenso rancor – algo novamente incomum para sua distinta linhagem..."