Saudações mais uma vez, caros leitores. Venho agora contar-lhes um pouco sobre a mais enigmática das linhagens ghondarianas: os Fenn-Rir, filhos da neve e guardiões de uma história desprezível da Tundra...
Aproveitem a leitura!
Os Predadores do Leste
Graças à influência do Tecelão, Ghondaria transformou-se em um lugar exótico: por encontrar-se na incisão de áreas climáticas distintas, existe floresta tropical de um lado, e tundra glacial do outro. No entanto, algumas lendas atribuem à essência de Fenn a responsabilidade sobre o clima de Bohrran,
De alma serena e límpida como a neve, Fenn sempre ficou mais distante dos demais Primevos: ainda que a maioria apreciasse sua sabedoria e lealdade, sentia-se solitário e sem um espaço para reinvidicar como seu.
Até que o impensado pelos demais fosse feito. Graças ao temor dos demais Primevos, as terras nevadas do Leste permaneciam inabitadas – e Fenn logo a tomou como suas, formando o território de Bohrran (“Terra dos Bravos”, segundo a Primeira Língua).
Para aplacar sua solidão, combinou a neve com seu próprio sangue para criar Själla, a primeira Fenn-Rir (“Filhos de Fenn”) e, posteriormente, sua esposa. De sua comunhão, surgiram os Fenn-Rir propriamente ditos, que povoariam a tundra em pouquíssimo tempo. Conheceriam, durante seu crescimento, os Veneráveis do Leste – a Rainha de Gelo Hinar'ri e a Salamandra Gram-Mír – e uma leal amizade nasceria desse encontro. Foi graças ao contato com estas poderosas Entidades que o acesso ao Mundo dos Sonhos tornou-se possível, a partir do conhecimento necessário para domar Espíritos (mais tarde conhecido como a Doutrina Animista).
Por muitos anos, a tundra permaneceu tranquila até que a visita de outra nação causasse o franco desequilíbrio. À costa de Bohrran, homens de aparência sombria chegavam com seus navios de ferro fundido e máquinas voadoras.
O Predador, acompanhado por sua fiel esposa, foi até o acampamento dos visitantes, em sinal de paz – apenas para causar medo entre os forasteiros e quase morrer por suas armas de fogo.
Dessa forma, os Fenn-Rir optaram por respeitar o espaço dos Gnar'ral (em seu dialeto, “Povo de Ferro”) - sem deixar de observar seus costumes e/ou interesses por um instante sequer.
Nesse meio tempo, Ghondaria entrava em colapso: Fenn estava ciente da situação graças à presença dos Veneráveis, que previam o fim do Destino como era conhecido. Sabia também que sua terra pereceria pelas mãos dos Gnar'ral e suas máquinas mortíferas – e suas mentalidades apegadas à razão despedaçariam a essência das Entidades e do Mundo dos Sonhos. Por esta razão, Fenn e Själla forma confrontar este povo sozinhos, na esperança de mostrá-los o valor do sonhar para o mundo.
Apenas para encontrar, nos olhos e mãos dos enfurecidos Gnar'ral, a morte brutal e inconsequente.
Seus Herdeiros puderam sentir a morte de seu criador, e imediatamente marcharam para o combate. A Lua Vermelha não durou mais que uma noite, mas nenhum Gnar'ral conseguiu sobreviver.
Sem tempo para lamentar por seus erros ou perdas, os Fenn-Rir foram convocados por S'haanti para lutar ao seu lado, e sua força definiu os rumos na Batalha de Allenaria.
Logo após o embate, os sobreviventes deste povo retornaram à Bohrran, completamente sem rumo ou sentido para suas vidas...
Características Naturais
Assim como seus pais, Fenn-Rir são grandes (altura máxima de um metro e meio e oitenta quilos de peso) lobos de pelagem espessa, variando entre cinza-claro e branco. Seus olhos possuem uma doentia coloração vermelha (segundo as lendas, um sinal de seu pecado) e focinho longo, cujas presas permanecem à mostra constantemente (afiadas como a lâmina de uma faca). Suas patas são fortes e bem torneadas para um animal do seu tamanho, com garras curtas em tom escuro, enquanto que sua cauda é alongada e de pêlo ralo (flexível o bastante para controlá-la em tarefas simples).
Hurr, O Refúgio na Tundra
Logo em seu retorno, os Veneráveis os esperavam – na companhia de Fenn e Själla, que ascenderam para tão nobre condição. Para seus Herdeiros, o Predador deixou seu pesar (afinal, o descontrole de suas emoções ocasionou o pior para um povo que julgava inocente).
Sua esposa, em vez de recriminá-los, conferiu aos Fenn-Rir uma penitência, aplicável para todas as gerações futuras: seu povo deveria nascer e morrer em Hurr, a colônia Gnar'ral dizimada na Lua Vermelha – e, se caso não o façam, serão entregues para a escuridão...
População: 1.867 habitantes (95% Fenn-Rir, 5% Outros);
Riquez Líquida: Nenhuma;
Líder Político: Garrrm Patas-Noturnas, Xamã;
Referência Cultural: Em meio aos hangares de ferro fundido e construções de cunho tecnológico, vive grande parte da prole de Fenn. Desde o término da Guerra Arcana, os Fenn-Rir carregam consigo a mácula do ódio, que ocasionou a morte deliberada de todos os Gnar'ral sediados em Bohrran. Em sinal de reprovação para conduta tão passional, Fenn deixou que o ressentimento nascesse em seus corações outrora puros, e Själla os condenou a nascer e morrer em Hurr (para não sucumbir à escuridão total...).
Hurr abriga muitos mistérios para a população ghondariana. Seus grandes hangares e armazéns possuem instrumentos e máquinas desconhecidos para as culturas atuais (em especial, a cultura Redlander – que espera um dia absorver o máximo desse conhecimento esquecido). Entretanto, diversos obstáculos tornam difícil o acesso a esta cidade: não bastasse o clima e localização insólitos (Hurr situa-se no extremo leste de Ghondaria), há também o rancor dos Fenn-Rir para qualquer um que ouse macular um local sagrado como aquele...
Aspectos Culturais
A cultura dos Fenn-Rir circunda o mito dos quatro Veneráveis do Leste – afinal de contas, cada um deles possui o poder sobre um aspecto da vida em Bohrran. Cabe, portanto, aos Xamãs a realização dos pactos e rituais característicos de sua cultura: do nascimento de um novo filhote e bençãos para a caçada aos rituais de honra para os feridos ou falecidos.
Assim como os lobos, a sociedade Fenn-Rir se compõe em alcatéias. Liderada por um Alfa (geralmente, o mais forte ou o mais velho dentre os componentes) e assessorada por um Xamã, cada uma dessas alcatéias busca seu lugar no mundo, a partir dos desígnios do Destino que tudo compõe. E, apesar de cada um ter seu próprio Destino, ele geralmente está ligado à sua alcatéia; logo, casos de indivíduos que abandonem a alcatéia para seguir seu rumo são comuns, mas indignos de respeito até que consigam superar tudo pelo sucesso.
A história, transmitida de geração para geração pelos mais velhos, é fundamental para os Fenn-Rir, que mantêm-se presos ao refúgio de seus maiores inimigos. Durante cada ano, rituais e festividades tribais remontam os combates e descobertas dos Herdeiros de Fenn – a principal delas, sem dúvida, é o Festival da Lua Vermelha: repleta de combates ritualísticos e oferendas, esta grande festa demonstra claramente a penitência dos Lobos do Leste em relação a seu pecado.
Por falar em combates, este sem dúvida é o costume mais apreciado pelos Herdeiros de Fenn. Entre as Etnias ghondarianas, poucas se destacam no combate corporal quanto estas criaturas, e sua justiça se dá justamente pela prática de duelos, disputas de força e, consequentemente, se completa na morte de um dos combatentes – a menos que um Alfa se oponha a tal.
Religião
A vida dos Fenn-Rir começou pelo contato com os Veneráveis do Leste, que os ensinaram a viajar pelos Sonhos e barganhar com as Entidades que flertam com os dois Mundos. A relação entre as duas partes era mais profunda, intensa como o contato fraternal (garantindo a subsistência mútua entre as partes).
Hoje, a situação é bem diferente. O contato com os Gnar'ral semeou a hostilidade no coração dos Filhos de Fenn (vista por muitos Xamãs como uma provação), e a intimidade com esse ódio causou não apenas a Lua Vermelha, como também o afastamento gradual das Entidades para com seu povo. Fenn e Själla ascenderam a essa condição, e sua presença mantém o vínculo entre Fenn-Rir e seus Etos – ainda que limitado pela intervenção dos Xamãs e por contatos breves no Mundo dos Sonhos. A mutualidade, portanto, deu lugar ao respeitoe penitência dos lupinos, em troca da redenção ante os Veneráveis.
Segue a descrição dos Veneráveis adorados pelos Fenn-Rir, e seus ensinamentos para este povo.
Fenn, o Honrado Predador
Pai dos honrados Fenn-Rir, é reconhecido pelos mesmos como um lobo negro de grandes proporções, com uma coluna de farpas ósseas adornando-lhe o torso;
Mote: Como herança a seus filhos, Fenn deixou o seguinte dogma: “Viva pelo instinto, luta com fervor pelos seus semelhantes e respeita os Veneráveis como a seu pai”;
Pecado: Fenn ensinou seus filhos a não sucumbir à deslealdade ou ao egoísmo; o bem-estar de seus companheiros, sejam Fenn-Rir ou não, deve estar em primeiro lugar;
Ordenações: Enquanto representantes dos ensinamentos de Fenn, os Xamãs devem manter os seguintes dogmas:
- Ser sempre leal e honrado para com seus pares;
- Conceder respeito a todos que mostrarem-se dignos – sejam ou não Fenn-Rir;
- Ser cordial e justo em contendas ou na presença de Veneráveis;
- Manter vivas as tradições de seu povo, e ensiná-las aos mais jovens.
Gram-Mír, a Chama da Vida
Um dos responsáveis pela existência dos selvagens Fenn-Rir e Dragonitas, seus fiéis reverenciam uma salamandra flamejante como representação de seu Etos. Seus fiéis ostentem como símbolo um colar feito de hulha (rocha residual da queima do carvão);
Mote: Antes de deixar o mundo físico, Gram-Mir entoou o seguinte provérbio: “A chama não deve se extinguir antes de sua hora”;
Pecado: Como os defensores da vida que são, Xamãs de Gram-Mir não podem permitir a presença da enfermidade entre seus pares;
Ordenações: A seus fiéis, Gram-Mir concedeu as seguintes missões:
- Manter a Pira da Vida, sediada em Lunnéria, sempre acesa;
- Responsabilizar-se pela cura de todos os enfermos e feridos;
- Providenciar rituais funerários ou rituais de nascimento para seus protegidos;
Hinar'ri, a Rainha de Gelo
Sutil e forte como o vento da tempestade, os fiéis Fenn-Rir veneram a imagem da Musa Cristalina – uma bela mulher de pele e cabelos brancos. Seus olhos azuis- turquesa transmitem um ar gélido, e apenas uma longa espada de gelo indica sua agressividade. Uma presa congelada serve de símbolo de suas intenções para os fiéis;
Mote: A destemida Hinar'ri deixou o seguinte legado a seus seguidores: “A força do vento polar e a pureza do gelo eterno são a essência de seu coração”;
Pecado: A Rainha de Gelo não aceita, entre seus fiéis, aqueles que aceitam a fraqueza e se deixam subjugar por ela (como o rancor excessivo, por exemplo);
Ordenações: Dentre os deveres cabíveis a Xamãs de Hinar'ri, destacam-se os seguintes:
- Proteger aqueles que necessitam de segurança;
- Mostrar a lição proveniente de situações difíceis ou duras;
- Responsabilizar-se pelo treinamento dos guerreiros e caçadores da aldeia;
Själla, a Mãe Zelosa
Na memória de seus Herdeiros, Själla emerge como uma loba, frágil e cinzenta como a neve no início do inverno. Está sempre acompanhada por Fenn (a quem jurou amor eterno), e é possível perceber sua baixa estatura em relação a seu marido. Seu olhar sereno é brilhante como a lua crescente – compreendida pelos Xamãs Fenn-Rir como a “Lua Sábia” – que lhe serve de símbolo atualmente;
Mote: Para Själla e seus fiéis, “Sua pureza deve ser inabalável, a ponto de romper as presas que lhe ameacem”;
Pecado: A Mãe Zelosa pune com rigidez todo aquele que perder sua pureza interior, para o ódio ou para uma mentira;
Ordenações: Para um Xamã, cabem os seguintes deveres:
- Respeitar o mundo que lhe concebeu como faz com sua mãe;
- Impedir que a tundra venha a ter o mesmo destino das florestas no passado;
- Jamais quebrar uma promessa, mesmo que isso custe sua própria vida;
- Sempre regressar a Hurr, para morrer puro como a neve destas terras.