quinta-feira, 27 de outubro de 2011

NOITE SEM FIM - Segundo Ato: CAMINHOS

Saudações, caros visitantes! Desta vez, irei prosseguir com a Noite Sem Fim - em especial, com o dilema de Garm e o desafios do recém- chegado Lêuciann...

Aproveitem a leitura!


Parte Quatro

Ainda cansado, Garm buscou alcançar Lêuciann e seu inimigo, agora já ciente de sua força. Temia pelo Elfo que desconhecia os poderes da Escuridão.

A aldeia, no entanto, transformara-se em arena para ele e seu ex-Capitão, agora tomado pela mais pura perversidade. De seu torso, hastes de flechas emergiam – a julgar por sua postura bestial, incapazes de feri-lo.

- Você foi um dos guerreiros mais promissores que já vi, Lêuciann. - A criatura sorria, sua língua de serpente passeando por suas presas. - Mas precisará de muito mais para me derrotar...

A gargalhada espectral do transtornado guerreiro e a queda de sua arma indicariam o possível término do combate. Seus braços inchados explodiram em vermes e sangue, reconstituindo-se em quatro membros delgados e ágeis. Garras curvas rasgavam suas extremidades, e a mandíbula deslocou-se graças ao crescimento irregular de suas presas. Em seu dorso, farpas de osso finas sobrepõem a pele, juntamente com uma secreção escura e pegajosa.

- O que você acha, Lêuciann? - A nova criatura delicia-se com o pavor nos olhos de seu oponente, sua risada monstruosa infectando o ambiente. - Acha que pode me derrotar?

O Elfo estava em franca desvantagem, desta vez. Sua aljava de couro possuía apenas cinco flechas, e nenhuma arma para manejar além de seu fiel arco. Suas pernas vacilavam pela insegurança, e seu esforço em manter a concentração não foi o bastante para conter o bote veloz daquela fera.

- Seu tormento será o meu alimento! - Com a mandíbula bem abertae garras em riste, a criatura irrompe no ar em um ousado ataque.

O uivo agudo e triste doma os ventos em uma forte lufada, capaz de lançar o monstro em um dos casebres.

- Você está bem, amigo? - Lêuciann recua, impulsionado pela preocupação.

Garm aproximou-se dele, a faca empunhada entre os dentes. Sua lâmina rubra pulsava como uma criança recém-nascida quando foi oferecida para o Elfo.

- Com esta faca, poderás matá-lo. - Disse, olhos fixos em seu aliado. - Enfrente-o com suas forças, enquanto purificarei este local.

O caçador nada disse, assumindo a postura de ataque com a faca em punho. O calor dela proveniente preencheu o seu espírito com a coragem necessária para superar qualquer desafio.

- Vai pagar por teres me desafiado, Lêuciann! - A ira acelerou o regojizo da criatura, entre os escombros do casebre. Não estava ferido, e sim agitado pelo furor.

Os oponentes encaravm-se novamente, como um duelo de vida ou morte. Não moviam um músculo sequer, até que o silêncio fora rompido por palavras carregadas de sarcasmo:

- Pretende me derrotar com esta faca?


Um pouco distante da luta, Garm já se deparava com um árduo desafio: estava preparando um ritual em honra à sua Mãe, Själla – mas a tensão de seu aliado contaminou sua mente, e a Venerável poderia ficar descontente com tal sentimento.

Não podia temer nada naquele instante, por isso fechou seus olhos e deixou que Själla surgisse em pessoa, tomando forma pelo vento noturno.

- Misericordiosa Mãe, clamo por sua força neste momento tão difícil!

A silhueta lupina assume sua influência, a coloração glacial dominando o orvalho e reduzindo a temperatura nos arredores.

- Digas-me o teu desejo, meu filho, e o farei como minha própria vontade!

- Preciso da sua força para extirpar o mal nestas terras. - Clamou novamente, o louvor ritimando sua concentração. - Me dê a chave para a luz das estrelas, para que o mal aqui possa perecer!

A silhueta se desfez em pleno ar, da mesma forma que surgiu. No mesmo instante, as trevas se dissiparam na clareira, graças ao intenso brilho das estrelas – a ponto de igualar-se a um dia ensolarado.

A escuridão que tudo envolvera começou a se recolher, na busca de abrigo contra a luz. Mas a intervenção de Själla preencheu cada espaço, sem deixar sombras e destruindo sua influência.

Para total satisfação de Garm, que tomba pela exaustão...


O duelo entre Lêuciann e seu ex-Capitão acirra-se a cada golpe. O Elfo permanece lutando, mesmo ferido, e consegue ignorar a diferença de forças para perfurar o seu flanco.

- Você já me deu trabalho demais, Lêuciann! - A fera urrava de dor e fúria, prejudicando seus ataques. - Morra!

Uma nova investida privou o monstro de perceber a chegada da luz que, ao refletir-se na lâmina da faca, queimou seus olhos ao menor contato.

- Meus... meus olhos!

A fera estava indefesa, correndo em busca de um refúgio nas sombras. As feridas do Elfo fecharam-se, e a coragem tornou possível sua miraculosa recuperação. Reempunhou a faca de seu aliado com as duas mãos, focando-a frente à luz, e sua lâmina carmesim foi alongada em um halo de luz pura.

Reuniu forças para correr até seu confuso inimigo, e um golpe certeiro partiu seu corpo deforado em dois, antes que qualquer grito fosse proferido.

Os restos do ex-Capitão murcharam à luz, perdendo-se no vento como cinzas. Cravou a lâmina no solo enquanto ajoelhava, em sinal de reverência àquele que fora um dia seu mestre para, em seguida, retornar à catedral em busca de Garm e de um bom lugar para seu descanso.


A consciência renasce nos olhos de Garmvagarosamente, para o alívio do paciente Lêuciann. Estava bem confortável na improvisada cama de palha, e não sentiu o peso de sua faca presa ao torso.

- O-o... onde estamos?

- Na catedral. - Respondeu o Elfo, seus olhos fixos no borbulhar de uma rústica panela. Remexia o líquido com uma colher de pau, com cuidado para não apagar a fogueira mais abaixo, e o aroma despertava o apetite.

Um olhar mais atento do Fenn-Rir confirmou a dedicação do caçador. Pelos arredores, não havia nenhum cadáver ou, tampouco, sinal de sujeira: até mesmo os ídolos de madeira estavam bem ajeitados no altar – com a exceção de um pequeno pingente de prata, já preso ao seu pescoço.

- Por quanto tempo dormi? - Perguntou, o olhar sempre fixo para manter o elo entre os espíritos.

- Um dia, eu acho. - Lêuciann serviu uma porção do guisado que preparou em uma cuia de barro. - Você deve estar faminto depois de tanto esforço...

O Xamã enfastiou-se de tanto comer, para satisfação do Elfo.

- O que você fez foi incrível. - Após a refeição, concentrou-se em afiar gravetos com uma faca enferrujada. - Queria saber qual a fonte de tanto poder.

- Aquela é a força do mundo, da vontade máxima de seus governantes. - Respondeu, sem esconder a sinceridade em seus olhos. - Os Veneráveis, pais de toda força vivente e existente.

- Entendo... - O suspiro foi prolongado por mais algum tempo. - Só queria que as Druidas fossem tão compreensivas quanto você...

- Druidas...?

- Sim. - Pigarreou, dando maior seriedade no tom de sua voz. - As representantes máximas de Allaria, nossa Mãe, em Ghondaria. Após a sua morte, sua rígida doutrina se tornou a lei nas florestas, e a sua vontade é muito superior à sua criadora...

- Como faço para vê-las?

O Elfo sorriu.

- Pensei que nunca perguntarias...

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