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Parte Dois
"Se há alguma palavra capaz de aproximar-se dos pensamentos de Olívia, esta com certeza seria 'raiva'. O abdômen ainda doía (graças à força de Maxwell), mas a sensação de abandono queimava seu coração como ferro em brasa.
Ela definitivamente havia se cansado de ficar para trás, e nada poderia irritá-la mais que isso. Drake já o fizera várias vezes, sem relevar seus argumentos ou dar-lhe razão. Os colegas da Companhia tornaram isso um hábito, com a pífia justificativa de segurança por sua inexperiência em campo.
'E agora, esse garoto feito em laboratório pensa que pode me tratar assim?'
Foi justamente tal pensamento que a levou à formulação e condução de um itinerário para viagem, fundamentado em dois objetivos principais: encontrar Maxwell e, com o poder deste, enfrentar toda sorte de obstáculos para reencontrar seu irmão mais velho.
Sua ação foi meticulosamente planejada com foco em sua própria segurança e no método investigativo que desenvolveu em seus anos de graduação. Sua primeira parada seria Magdalene, cidade consagrada por seu infindável acervo histórico e cultural, mantido a sete chaves pelos professores e alunos da Academia de Artes Alquímicas de Ghondaria.
Precisou, no entanto, tomar algumas providências para garantir o sucesso de sua viagem: precisou de alguns dias para liquidar o estoque da mercearia antes pertencente à sua Tia – contando com a solidariedade dos populares para consegui-lo. Com os fundos arrecadados, não precisaria se preocupar com quaisquer custas por toda a sua jornada.
Deixou a casa bem trancada (o único bem material que possui) e, contando com a segurança de Kannon Town, a deixou para trás com uma promessa em mente: a de regressar na companhia de Maxwell e Drake.
O ritmo irregular da diligência permitiu que dormisse, sem dores ou desconforto. De tão agitada com pensamentos e expectativas, Olívia só se tranquilizou de verdade graças a um sonho.
Nele também estava Maxwell, e um lugar que nunca tinha visto antes: um templo Ancestral, perfeitamente escavado na rocha, e protegido por cipós e musgos. O ar estava frio e o céu todo encoberto pela mata fechada.
- Venha, meu amor. - Sentiu o ar desaparecer de seus pulmões ao escutar tais palavras do jovem, que lhe ofereceu a mão para que o acompanhasse.
No centro do turbilhão de emoções que experimentava, Olívia deixou-se levar pelos passos decididos de Maxwell até o interior da câmara. A razão foi deixada de lado por uma arrebatadora paixão, que fez seu corpo estremecer subitamente.
Uma sensação intensa o bastante que se refreou com a queda de seu assento, provocada pela brusco parar do coche. Seu grito foi ouvido fora da cabine, e a preocupação do condutor a deixou constrangida.
- Já estamos em Magdalene, senhorita. - Disse, com o máximo de respeito e cuidado. Ajudou a passageira em sua descida e com a pesada mochila de couro, para então partir satisfeito com seu pagamento.
Apinhada de pessoas como de costume, a via de acesso à Magdalene trazia-lhe muitas lembranças: de como divertia-se na companhia de Tia Marcy e Drake quando criança, visitando as lojas e arredores da cidade para abastecer a mercearia.
Após tantos anos, a cidade continuava a mesma. Multidões entram e saem por seu suntuoso portal, e os arredores da Academia – única no mundo para formação de Alquimistas – estava bem agitada, no exato centro da cidade.
Este era justamente o alvo de Olívia: pela primeira vez, iria visitar o maior acervo histórico de Ghondaria, na busca por qualquer dado que auxilie na compreensão sobre Maxwell.
Por três dias, a jovem permaneceu na cidade, pesquisando freneticamente tomos e mais tomos sobre Autômatos de qualquer tipo, em busca de quaisquer similaridades com o que viu no jovem que conheceu.
Após tanto esforço em sua pesquisa (que, inclusive, comoveu bibliotecários e professores) e nenhum resultado aparente, Olívia estava disposta a procurar em outro lugar. Sentada em um de seus vários corredores, conjecturava sobre qual poderia ser o seu próximo destino quando, no vai-e-vem de acadêmicos, alguém busca o início de uma conversa.
- Pelo visto, não encontrou o que tanto queria...
A jovem permaneceu em silêncio, concentração fixa em um pequeno livro e com capa de couro escuro – seu diário de viagem.
- Bem, é uma pena... - O estranho rapaz espreguiçou-se, ajeitando a fina armação de seus óculos em seguida. - Acho que posso te ajudar.
Olívia o fitou pelo canto de seus olhos. O rapaz em pouco se destacava entre os estudantes que viu nesses últimos dias: franzino e de baixa estatura. Vestia o manto esverdeado de veteranos, e nos seus olhos havia um brilho incomum, controverso ao seu discurso.
- Se a Biblioteca Willard não tinha registro do que procuro, como você pode me ajudar?
- A Biblioteca possui muitos tomos, é verdade. Mas nem todos estão aqui. - Respondeu, suas mãos trêmulas ajeitando seus cabelos curtos e pontudos. - Boa parte deles ainda está no Acervo Restrito, no qual possuo acesso como veterano.
- E você poderá me dar este acesso, eu suponho... - O sarcasmo era lugar comum nas palavras da jovem.
- Não formalmente... mas poderei te ajudar, se você assim quiser.
- E qual será o custo deste... acesso? - A arqueóloga insiste na conversa, obviamente interessada.
A inesperada presença de um homem de manto vermelho nos arredores – a julgar por seu ar imponente, um professor – fez o rapaz falar rapidamente, em voz baixa:
- Encontre-me às portas da Academia à meia-noite, e te darei os detalhes. Estarei esperando.
Ela balançou a cabeça, segurando as risadas no seu íntimo.
O andar apressado e desequilibrado daquele jovem apenas confirmou o que já era óbvio: sua inaptidão deixou transparecer o nervosismo, a ponto de perder completamente a discrição.
O que a preocupava, no entanto, era quem provavelmente estava por trás de tudo isso. Aquele garoto tinha medo, pois provavelmente foi ameaçado. E poucos fariam isso com garotos quanto uma única pessoa.
Para Olívia, seu maior inimigo."
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