quarta-feira, 19 de outubro de 2011

NOITE SEM FIM - Segundo Ato: CAMINHOS

Mais uma vez, retorno a este espaço para retomar a narrativa do conto Noite Sem Fim, a maior das histórias de meu mundo.
Aproveitem a leitura!


Parte Três

“Preciso continuar”.

A mente de Maxwell persistia nesse ideal em cada passo.

“Não posso parar agora”.

Há dias no deserto, pensou apenas em continuar caminhando.

“Prometi a ela que conseguiria”.

O mundo parecia conspirar contra ele. Estava perdido na imensidão escura e fria, tão comum na Penumbra: sabia onde ir, mas não sabia qual direção tomar.

“Preciso chegar em Ansalônia, por Olívia e por Drake”.

Seus pés adormeceram, enfraquecidos pela fria e cruel areia do deserto. A ventania distorcia sua visão, movendo dunas de um lado para outro, e a falta de alimentos causava-lhe grande dor.

“Vou chegar lá, não importa como”.

O pensamento se perdia aos poucos, a inconsciência espreitando por seu domínio. Indiferente à sua origem inatural, o Autômato se deixou levar pelo cansaço.

Podia ouvir com clareza a voz daquela jovem viajar pelo vento, um clamor de ajuda que lutava para cumprir a qualquer custo.

Contudo, antes que os pensamentos engendrassem ações, o sono engolfou profundamente sua consciência – como um caloroso abraço entre mãe e filho. Uma sensação tão gostosa e singular que o deixaria à mercê do cruel ambiente...


Apenas o chacoalhar comum das estradas o trouxe ao mundo novamente, causada pela inquietante sensação de movimento.

Abriu os olhos e percebeu que não estava só. Sob o pano encardido que acobertava o céu, mulheres e crianças o cercavam, ora o fitando, ora presas em sua própria resignação.

O tabblado cobria o fundo daquele coche, a única abertura obstruída por um homenzarrão bem agasalhado e adormecido. Em seus braços, uma carabina velha e longa servia de apoio para seu descanso.

O jovem se aproximou do cocheiro, magro e voltado apenas para sua própria ocupação, mas acabou defrontando-se com a espingarda do sentinela, já bem acordado. Maxwell não recuou, mesmo com o cano frio e mortal da carabina roçando em seu rosto.

- Volte para o seu lugar, garoto.

Em vez disso, buscou reagir, ainda fraco pela viagem que tanto começou. Suas intenções foram rechaçadas com o puxão em seu braço, e o rosto enrugado de uma muher o fitou nos olhos, antes de perguntar:

- O quê pensa que está fazendo ? - A entonação ouca em sua voz lembrou e muito as broncas de Tia Marcy. - Se você não dá valor à sua própria vida, pense em quem deseja continuar vivo!

- O quê acontece aqui...? - Perguntou, sem entender nada.

- Estamos indo para um campo de mineração. - Respondeu, em sua luta contra a incessante risteza. - Seremos condenados à escravidão nas minas de ferro próximas à Redneck.

- Quem é o responsável por isto? - Seu questionamento se perdeu na carroça, atiçando olhares da mais pura ira e desprezo do capataz.

- Seu barulho me incomoda, garoto. - O cano da carabina o tocou novamente, como um animal faminto. - Agora você vai ficar quieto... para sempre!

Segundos eram incapazes de mensurar a velocidade na reação de Maxwell, que decapitou o bandido com uma das mãos, antes que a arma cuspisse balas em sua direção. O sangue tingiu os panos do carro, e surpreendeu o cocheiro, que sequer pôde se preparar a tempo para evitar o mesmo fim.

O ímpeto do jovem não libertou ninguém, muito pelo contrário. A morte dos bandidos derrubaria os impecilhos para buscar a liberdade, mas a desolação apenas cresceu entre os passageiros: crianças choravam graças ao misto de tristeza e choque, enquanto que boa parte das mulheres mordia os lábios para conter suas lágrimas.

- Vocês estão livres, agora. - Disse, sem compreender tamanho pessimismo. - Não precisam mais temer a escravidão...

- Deixe de ser tolo! - Brado a mulher de antes, sem conter a violência de um tapa rancoroso no rosto do Autômato. - Você acabou de nos condenar!

Maxwell ficou mais confuso, mas não teve tempo de questionar razões para tanto ódio.

- Todos aqui esperavam reencontrar pais, esposas e filhos na mina, e você arruinou tudo... Ninguém pediu sua ajuda, garoto insolente!

O bater das mãos daquela senhora em seu tórax causavam-lhe dor, como nunca sentiu antes. Seu corpo estava intacto, resistente à força daqueles golpes: mas a tristeza lhe açoitava com o máximo em frieza.

- Então, por favor... peço que me esperem aqui.

Saltou da carroça, para vasculhar o horizonte com atenção, à busca de uma direção precisa.

- Espere um pouco aí! - Novas rugas de pesar brotavam na face da mulher, que desceu devagar do veículo. - O que pensa em fazer?

- Irei levá-los até as minas. - Disse, conduzindo a senhora para o interior do coche. Do cocheiro, tirou as roupas e o enterrou rapidamente na duna mais próxima. Vestiu-se com aquele pesado gibão de couro, e tomou as rédeas para partir.

- Vai arriscar sua vida de novo para bancar o herói?

- Não tenho nada em risco, senhora. Desta vez, dou a minha palavra de que lhes darei a liberdade.

A voz austera e profunda de Maxwell causou uma sensação distinta nos passageiros da carroça: o resgate de confiança em um futuro digno, e a esperança de rever suas famílias novamente. O estalar das rédeas apenas confirmou essa sensação – um pacto solene de luta pela liberdade.

- Cuide dos demais enquanto lhes conduzo até as minas.

Estava frente a frente com a vestidão escura do deserto, mas a sensação era diferente. Seu corpo estava revigorado, a força preenchendo cada centímetro em seu corpo. Na sua mente, sensações ou questionamentos não se faziam presentes. Apenas o foco neste objetivo, que adotou como se sua vida dependesse disso.

“se tenho força para lutar, que eu lute por quem realmente precisa!”

Esta conclusão tomou maior força quando avistou , há cerca de cem metros à sua frente, uma grande extensão de paliçadas no centro de um vale rochoso...

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