Saudações, caros leitores. Nesta noite fria que me lembra das noites desérticas do Oeste, irei dar continuidade à Noite Sem Fim de meu mundo, e as primeiras consequências estão por vir...
Aproveitem a leitura!
Parte Dois
O calor aconchegante reconduz Maxwell à consciência. Seus olhos estranharam a falta da penumbra noturna, e a presença de um telhado de pedra atiçou seus instintos.
Tentou levantar-se, mas não tinha forças para tal. Sentia-se limitado, como se não houvesse braços ou pernas para cumprir seu desejo.
Um olhar mais atento confirmou esta sensação: seus membros inexistiam, e seu torso estava preso por correntes a um ataúde de pedra polida. Em uma das paredes da sala, encontrou seus braços e pernas, atados a ganchos.
Tentava encontrar uma resposta para tudo aquilo, em como chegou àquele desfecho, quando percebeu que alguém se aproximava. Perferiu disfarçar a inconsciência, para entender o quê realmente lhe aconteceu.
Dois sujeitos chegavam de fora, completamente distintos um do outro. O primeiro vestia um jaleco surrado, manchado de graxa e cheio de pó, e seus cabelos despenteados realçavam sua obsessão pelo trabalho. O segundo destacava-se pelo porte ímpar - terno escura sob medida, cabelos bem penteados e um fino par de óculos o identificavam como um aristocrata, membro da alta sociedade Redlander.
- Então, este é o "espécime" de que me falou? - O tom desdenhoso na voz do visitante causou frustração no engenheiro.
- Para quem o vê assim, parece apenas um de nós. - Retirou, de um dos bolsos de seu jaleco, um bisturi levemente enferrujado.
- Agora, preste atenção, Senhor Prescott...
Passou a lâmina suavemente sobre a pele de Maxwell, abrindo-a sem a menor resistência ou sangramento. A indiferença perante o ferimento causou satisfação naquele sujeito.
O cientista afastou a pele aberta com as mãos, para evitar sua imediata reconstrução. Prescott, por outro lado, mostrava-se fascinado.
- Isto é impressionante! - Deixou que a surpresa sobressaísse em suas palavras. - Você pode mesmo controlá-lo, Malcolm?
O responsável apontou com seu nariz robusto um dispositivo singular, envolvido pela massa cinza-metálico que preenche o corpo inerte: um rubi grande, do tamanho de um punho fechado.
Em seu centro, um botão negro se fazia presente.
- Todo Golem possui um sistema auxiliar de funcionamento, que permite a reavaliação de atividades e objetivos. - Explicou o cientista, um dos dedos visando aquele botão. - Com o simples apertar deste mecanismo, suas memórias serão apagadas e novas ordens poderão ser configuradas com o procedimento correto.
- E quanto tempo será necessário para isto? - O desejo permeava sutilmente cada palavra do magnata.
- Agora que já sei como inutilizar o seu corpo, começarei nesta noite.
***
No outro lado da cidade, alguém deixava-se levar pelo enfado, e a bebida lhe parecia o único meio de aplacar tal sensação.
Após entregar os escravagistas à justiça e libertar os flagelados, Clint carregou consigo o corpo daquele estranho até a cidade mais próxima, Snake's Nest. Encontrou lá um cientista em serviço da Companhia Sandwolves, bem interessado em sua captura. E o dinheiro que recebeu pelas recompensas é o suficiente para cobrir suas futuras contas no saloon mais próximo.
Entretanto, sentia-se mal pelo que fez. A bebida já não tinha o mesmo sabor, graças a um pressentimento ruim. Tinha renegado sua vida, e tudo que construíra, por acreditar no julgamento de seus irmãos.
Não podia estar mais errado.
O apreço pelo álcool surgiu desse dissabor. Em cada tentativa de se mostrar ao mundo, sentia-se massacrado pela desconfiança de seus semelhantes, e seu ego ferido ansiava por anestesia - mas, no fundo, nenhuma bebida neste mundo o privaria de tanta dor...
Algo incomum atiçou sua percepção, algo que não lhe afetava desde o dia em que abandonou Allaniya. O bandoleiro percebeu a sutil mudança na realidade, uma perigosa condição que poderia colocar todos na região em risco.
Mesmo após várias garrafas de uísque, o Elfo se levantou do balcão e, em passos trôpegos e apressados, procurou a saída do saloon.
Mas um passo desequilibrado o fez esbarrar em um brutamontes, e sua caneca se perdeu nas roupas do mesmo, uma grande mancha em seu torso.
- Ei, ei, ei! - Retrucou o grandalhão, agarrando Clint por um de seus ombros. - Acha que é assim? Derruba cerveja em mim e vai embora, como se nada tivesse acontecido?
O bandoleiro encarava o homenzarrão com desdém, já ciente do seu desejo: os olhos injetados pela sede de violência, seu forte hálito de bebida e o silêncio no local serviriam de prenúncio para uma briga.
Porém, algo interrompeu a calmaria. muito antes do taverneiro atirar com o recém-sacado revólver. Há poucos metros dali, uma explosão ilumina o ambiente por um instante, como em um macabro amanhecer...
***
Malcolm ergueu-se sobre os escombros, feliz por não ter se ferido gravemente. As chamas consumiram seus instrumentos, e procurou escapar antes que o restante do prédio desabasse.
A dor limitava seus movimentos, mesmo sem fraturas ou mutilações, e coxeou na busca de auxílio. Estava aterrorizado, já que confiou em seus conhecimentos para o que fez há pouco.
Tentou refazer o seu caminho, na tentativa de encontrar algo que justificasse uma falha tão perigosa. Após o contato com Prescott, utilizou anestésicos e fórmulas específicas para causar letargia e retardar suas capacidades reconstrutivas.
Maxwell, por outro lado, não esboçou reação alguma. O controle corporal estava severamente limitado por sua conduta: estava impedido de reagir, graças ao desejo de não ferir humanos - pelo menos, até que o coma fizesse efeito.
O cientista coletou amostras corporais, para descobrir sua composição, e o tórax aberto do Autômato revelava o núcleo - envoltório de sua alma.
Impaciente, Malcolm guardou as amostras em uma algibeira e aproximou-se do "espécime". Suas mãos coçavam para tocar no aparato, mas alguns preparativos precisavam ser feitos para certificar o êxito na reprogramação.
O apoio de livros, instrumentos e fórmulas por ele mesmo preparados, o cientista buscou recriar os rituais característicos da Era Ancestral, um tabu para todos que aventuram-se por este caminho.
Agora, o pesquisador sabia o quão imprudente foi a sua intervenção. Entre as chamas, podia ver a criatura de pé, totalmente recomposta. Seu olhar ardia como as chamas que o cercavam, fornalhas de sua ira.
Malcolm tencionou correr, mas o medo e a dor o fizeram cair em um tropeço. Seu corpo tremia, seu temor crescendo a cada passo do Autômato.
Estava frente a frente, o cheiro forte da urina impregnado nas roupas do suplicante cientista.
- P-por favor... N-não me mate... - Soluços chorosos sobrepujam suas palavras, para o humor incomum de Maxwell. A criatura estendeu sua mão para o cientista, na direção de sua fronte.
- Muito obrigado por me acordar, garoto.
Malcolm não teve tempo sequer de reação, pois seu crânio fora esmigalhado pela mão nua do Golem, como um tomate. Seu braço se alongou para cobrir a distância, em uma fração de segundo.
***
Clint e os demais frequentadores do saloon deperaram-se com o incêndio, prontos para tudo. Populares olham por janelas e portas de suas casas - um misto de zelo e cuiriosidade mórbidos.
A visão apurada do bandoleiro identificou a causa do incidente: seu andverásio, já recuperado das mutilações que sofreu na noite passada. Sua mão direita estava manchada de sangue, e o corpo inerte daquele cientista estava próximo dos destroços.
Os olhos da criatura emitiam uma sinistra luz avermelhada, e sua intensidade se agravou ao se deparar novamente com o Elfo.
- Você!
Estendeu as mãos à sua frente, alogando-as para um novo ataque. Clint conseguiu evitar o ataque, sofrido pelo grandalhão que o desafiara antes, seu tórax trespassado à altura do coração.
Maxwell continuou por mais algum tempo, dizimando cada um dos envolvidos. Apenas o bandoleiro continuou vivo, já cansado e ferido. Sua postura diferia do encontro anterior: sério e compenetrado como se sua vida estivesse em jogo...
A cidade sucumbia em cada novo ataque: casas ruíam e vidas se perdiam no duelo. As chamas que antes crepitavam no laboratório tornaram-se a paisagem em Snake's Nest. Apenas Clint estava vivo, lutando contra sua resignação.
- Pelo jeito, ainda não quer lutar... - Vociferou Maxwell, a voz fantasmagórica das máquinas. - Você não sobreviverá desta vez!
O bandoleiro consentiu com aquelas palavras, e se privou das armas. A concentração diminuiu o ritmo de sua respiração, e o mundo tornou-se mais distante. O foco passou a ser sua conexão com a terra em seu estado mais puro.
Mesmo com os olhos fechados, conseguiu antever o novo ataque do ensandecido Golem, e a esquiva deixou de ser a opção mais viéval. Clint abriu os olhos, encarando friamente o seu inimigo.
- Que você nunca mais desperte neste mundo!
As mãos do Elfo concentraram o clarão das estrelas, bem à sua frente. A luz se projetou na sua direção, uma lança de chamas que arrebentou o tórax da criatura.
Uma explosão luminosa engolfou Maxwell - para o alívio de seu oponente. Seu peito chiava com a falta de ar, enquanto se aproximava do laboratório em ruínas.
Um suspiro abandonou seus pulmões ao ver o sono subjugar seu inimigo.
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