quarta-feira, 14 de março de 2012

NOITE SEM FIM - Segundo Ato: CAMINHOS

Saudações a todos, caros visitantes!

Depois de um breve afastamento para meu mundo de origem, retornei a este espaço para cumprir com o compromisso que iniciei há algum tempo: compartilhar com vocês tudo sobre Ghondaria, o mundo que me acolheu.

E, para prosseguir com tal intento, retomo a narrativa mais inflamada das bandas de lá: conhecida por todos como a Noite Sem Fim. Sem mais delongas, espero que aproveite a leitura!


Parte Sete
Por alguns dias, Garm e Lêuciann viajaram pelas estradas allaniyanas, sem a menor pressa e o máximo de cautela possível.


Graças à sua experiência em viagens, o Elfo aconselhou o prosseguimento da jornada durante a 'noite' pois, enquanto a primeira Lua - conhecida popularmente como Lazzuria - estiver nos céus, partulhas de seu povo vigiarão cada caminho e aldeia à frente.


Em suas paragens, afastavam-se da estrada para se aquecer com fogueiras e descansarem. Em momentos assim, o guia começou a atacar o Xamã com perguntas - óbvios indícios de sua curiosidade apurada: sua terra natal, costumes e povo eram os principais focos de tal desconforto, e as respostas orgulhosas do Fenn-Rir pareciam ser o único remédio.


Mas havia uma questão que derrubava o orgulho, e sempre acabava sem explicação.


- O que te fez abandonar sua terra?


Garm podia levantar uma série de razões para justificar sua decisão, mas dois impecilhos se faziam pertinentes: primeiro, por ainda não confiar o bastante no sujeito, a ponto de confessar sua Epifania; segundo, uma antiga tradição de seu povo, sempre lembrada nas palavras de seu mestre, Krumm:


“Até que se revele ao mundo, a Epifania deve viver e morrer com quem a carrega em suas costas”.

Os questionamentos de Lêuciann cessavam neste ponto. A princípio, mantinha-se quieto por sinal de respeito, até que as dúvidas o atormentassem internamente: seria ele um proscrito, graças a algum crime em seu passado? Ou carregaria consigo um fardo, insuportavelmente pesado para seus semelhantes?


Por maior que fosse o medo, preocupava-se mais com a sua honra: passou a nutrir gratidão pelo lobo, após o confronto com seu ex-capitão. Ele passou a crer que, não fosse pela inesperada intervenção de Garm, poderia ser uma criatura como aquela, ou algo muito pior...


A peregrinação de ambos prosseguiu por alguns dias, até que uma sombra gigante surgiu entre as árvores.


- Estamos bem próximos agora, caro amigo! - Anunciou o Elfo, ao descer cuidadosamente de um galho mais alto.


O Xamã, no entanto, não compartilhou de tanto otimismo. Algo no ar estava errado, e sua percepção lupina havia percebido.


Estavam cercados.



- Muito bom, Lêuciann! - Uma voz familiar para o guia emergiu da mata fechada, e tanta prepotência não lhe surpreendeu em nada.

- Não esperava vê-lo por aqui, Laiconis.

- Saiba que estou mais surpreso por você ter capturado a minha presa. - Passos calmos e leves denunciaram a presença de outros oito guardas, arcos retesados contra o Fenn-Rir. Em termos de compleição, lembravam o seu companheiro - principalmente, por seus pesados traje verde-oliva e tiaras da cor de folhas secas.


- Agora, deixe que nós conduziremos o foragido até o Julgamento.


Lêuciann fitou o lobo por mais de um segundo, surpreso.


- Creio se tratar de um engano...


- Já não bastou ser a vergonha para os soldados, e agora toma partido de crimonosos, Lêuciann? - A repreensão queimou em seus ouvidos, ferindo seu orgulho.


O militar tinha em mãos um papiro, intacto graças ao estojo circular de madeira que o guardava. O abriu com cuidado, para mostrar ao guia o seu conteúdo.


Era um documento com o selo verde-esmeralda das Druidas, ordenando a caça de um Fenn-Rir visto em Ansalônia e Krystiél - causando a morte maciça de inocentes.


- Mas... Isto está errado! - Lêuciann intervém a favor de Garm, encontrando repreensão nos olhos deste.

- Não faça isso, Elfo.

O guia continuou a enfrentar-lhe com os olhos, à guisa de uma resposa razoável.

- Não deves interferir no meu Destino. É parte da minha busca confrontar suas provações, e ninguém deve interferir nisto.

Usou as presas para desatar a bainha de sua faca, deixando-a para trás vagarosamente. Caminhou na direção dos guardas, fitando nos olhos o seu arrogante líder.

- Leve-me ao julgamento.


A comitiva levou pouco menos de um dia para chegar ao fim da floresta – ou, pelo menos, assim pensou o Fenn-Rir. A mata circundava os pés de uma árvore ancestral e gigantesca, muito maior que seu pensamento podia conceber. O firmamento inexistia frente à sua copa, mais densa e resistente que o mundo.

Um arco natural indicava o acesso a seu interior, bem protegido por soldados de uniforme idêntico ao daqueles que o escoltavam. O Xamã percebeu o quão respeitáveis eram pelas mesuras de Laiconis, como um filho perante a seu pai.

Uma dama os aguardava no saguão, de olhar austero e imponente. Seu manto, do mais puro verde, fulgurava à luz de todo o vasto aposento.

- Este deve ser o criminoso. - Sua observação soôu mais como uma reprimenda.

- Sim, vossa senhoria. - O líder da escolta se curvou, junto com os demais, seus olhos fixos ao chão. - O conduziremos à prisão, aguardando seu julgamento.

A matrona encarou Garm com frieza, e nenhuma palavra brotou em sua consciência.

- A morte cruel que esta fera causou será suficiente para torná-la culpada, assim que Lazzuria iniciar o seu ciclo.

A Druida deu as costas para o grupo, e Laiconis a guiou por um dos vários corredores que iniciam-se naquele saguão – ao passo que os guardas levaram o Fenn-Rir ao lado oposto, ao subsolo.

Em cada passo, aumentavam o calor e a umidade, a ponto de causar a exaustão quase plena. Os sentinelas seguiram, indiferentes, e a seguinte lembrança o lembrou de sua nova resposabilidade:

“Irás pagar pela humilhação causada a mim, Raakh Garras-de-Gelo!”

Lembrou-se da última vez que se viram, pouco antes da tundra ceder à presença das florestas. Levou consigo testemunhas para um Duelo – formalidade para restaurar a honra, pelos costumes de seu povo – e acabou derrotado por suas próprias motivações: uma vingança desrespeitosa pelo seu oponente.

“Lamento por sua alma, meu irmão”. O Fenn-Rir engoliu em seco, compreendendo muito bem o desfecho de seu próximo encontro...

A imersão em seus pensamentos privou seus olhos do caminho até a prisão: uma grande câmara fechada, dividida em celas escuras. Não havia ninguém ou, tampouco, alguma fonte de luz nos arredores, e o cheiro da desolação tornou real o seu desconforto.

Abandonado pela irredutível frieza dos guardas em uma das celas, Garm se deixou levar pelos seus devaneios. Começou a rosnar baixinho uma prece aos Veneráveis, na busca por uma orientação contra este desafio – desligando-se, portanto, das palavras escarnecedoras dos demais prisioneiros.


Nos arredores da grande árvore, Lêuciann permaneceu pensativo. Sua mente fragmentara-se entre o vislumbre da ancestral Sequóia, e a prisão de seu amigo, revista várias e várias vezes.

Em suas mãos, a faca que antes utilizou para rasgar as gargantas de Dragonitas acuados agora emitia calor, pulsando como a vida dentro de si. Havia sentido algo assim dias atrás, quando aquele Fenn-Rir a ofereceu para enfrentar aquele monstro.

Mas aquela hora era diferente, muito mais forte. A temperatura febril da lâmina indicava-lhe os perigos que cercavam o Xamã, e o Elfo sabia muito bem como tudo aconteceria.

Apenas os mais cruéis dentre os criminosos eram levados à corte das Druidas, e raros são os casos em que não se afirmou a execução. Sua postura para com os Elfos caracterizava claramente a xenofobia: ou viveriam conforme suas regras, ou receberiam a punição por violá-las.

Tal reflexão o lembrou justamente das observações desonrosas de Laiconis, um conhecido de sua infância. Desde o seu nascimento, todos esperavam de Lêuciann o ingresso às Hostes Esmeralda, respeitada força militar allaniyana. Seu talento natural na esgrima e arqueirismo afirmariam este desejo, tão brilhante quanto o de seu pai – um líder na corporação, falecido nos tempos de Guerra.

Entretanto, a realidade em nada se parecia com o seu sonho. Durante o tortuoso treinamento, presenciou em vários episódios a conduta rude e autocrática das Druidas, indiferente aos desejos do povo. Tanta desilusão o fez abandonar as Hostes, já indignas de sua esperança, e a retribuição logo veio de sua família e amigos.

Encontrou amparo apenas nos ensinamentos de Lêudír, um espadachim solitário de Idíllien. Depois de anos em treinamento, passou a buscar o reconhecimento perdido como um caçador solitário, abatendo Dragonitas por quem lhe desse abrigo e comida – até que o Xamã abrisse os seus olhos.

O contato com aquele forasteiro reacendeu as esperanças sobre o mundo. A dor de outrora deu espaço para o despertar de sua razão, e a penitência tornou-se um sentido.

Foi nesta mesma hora que seus olhos perderam o mundo lentamente, a sonolência ditando cada movimento e sensação em seu corpo. As pálpebras cerraram-se num lampejo, e quatro imagens tremeluzentes formaram-se em um único sonho.

- Você, alma confusa que busca uma direção. - A primeira imagem assemelhava-se ao lobo, apesar da impassividade comum a seus olhos. - Temos para você um aviso.

- A imagem do seu real destino, seu papel para este mundo. - Ao lado do lupino, a fulgurante faceta de uma salamandra se torna presente. - Uma função que se revela neste instante, após tanto tempo de incertezas e dissabores.

Lêuciann sentia o ressecar de sua garganta, proveniente da falta de palavras.

- Deves prestar o apoio para que nosso pupilo cumpra sua jornada, como a um irmão. - A voz da terceira imagem, desfocada e similar à primeira, carregava consigo a simplicidade e beleza das flores. - Pois nenhum de nós é capaz de sobreviver sozinhos.

A lâmina da faca queimava em sua mão, como ferro em brasa.

- Esta relíquia é a prova de seu pacto para consigo. - A quarta imagem assemelhava-se a uma bela mulher, o porte de uma rainha dos tempos antigos. - Enquanto estiveres com ela, aprenderás tudo sobre o mundo, sobre nós e os desígnios deste mundo.

O Elfo se viu confuso. Conhecera os Veneráveis graças às histórias do Fenn-Rir, e a crença em Allaria, Mãe do seu povo, jamais foi questionada – mesmo em sua solidão.

As imagens dissiparam-se em pleno ar, sua essência em comunhão para compôr uma nova imagem: uma linda Elfa, com o sorriso a carregar os primeiros raios do amanhecer.

- És por mim escolhido, Lêuciann, para representar teus irmãos nesta jornada. - A sensação causada por seu som era indescritível. - Seus braços e pernas promoverão a justiça, honra e comunhão entre os povos, pois só assim Ghondaria poderá renascer...

Seus olhos se abriram novamente, dissipando a visão em um segundo. As palavras, no entanto, ardiam na sua consciência: sabia muito bem o futuro, mas não imaginava como iniciar o seu papel.

Foi nesta hora que sua audição treinada detectou saltos velozes pela ravina, cortando a copa das árvores. Não se assemelhava a nenhum Elfo em agilidade, mas a pelagem alva o tornava bem familiar...

Olhou para a lâmina, fria e inexpressiva naquele momento.

- Maldito seja! - Disse, antes de persegui-lo no mesmo ritmo.

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