Saudações, caros leitores. Eis que retorno aqui, para continuar com a Noite Sem Fim - pois os movimentos começam para algo muito maior que o destino desta terra...
Aproveitem a leitura!
Parte Três
A corrida torna-se mais difícil para Lêuciann, tão ágil e habituado à relva allaniyana. A graciosidade típica de seus irmãos deu lugar à velocidade, tão necessária para superar o adversário veloz à sua frente.
Suas pernas eram insuficientes para superar a força das quatro patas à dianteira. Entre tantas perguntas, uma certeza ganhava força em sua mente: seria este lobo o culpado pelas atrocidades que seu amigo assumiu.
Pensava em um modo de abater o fugitivo, quando a postura deste lhe surpreendeu. um salto para o chão, garras e presas à mostra para lutar. Esbaforido, o Elfo acompanhou a idéia.
- O que você quer, "duas-pernas"? - Os olhos acirrados do lupino indicavam a sua intenção, muito diferente do seu amigo Xamã. - Vá embora, antes que sua presença me irrite!
A esta altura, Lêuciann tinha em mãos o seu arco, uma flecha o fitando com sua ponta de prata.
- Por Allaria, não se mova! - Bradou, a voz enrijecida por sua própria determinação. - Você cometeu crimes contra o meu povo, e vai pagar por eles!
Os ganidos daquele Fenn-Rir assemelhavam-se a risadas infantis, do mais puro desprezo.
- Não seja tolo! Sozinho, não passas de um incômodo!
O ar torna-se mais pesado em pouco tempo, como se os brios do inverno dominassem a floresta naquele momento. As pernas de Lêuciann estavam rijas com o frio, relutantes a qualquer tipo de ação.
- Hinar'ri!
O uivo grave e furioso foi capaz de congelar tudo à sua volta: orvalho, folhas, arbustos e até mesmo a transpiração de seu adversário.
- Este será o meu último aviso, "duas-pernas". - Vociferou, com o olhar fixo enquanto lambia suas presas.
A única resposta que obteve foi a dor súbita de um ferimento: a voraz flecha de prata o atingiu de raspão em uma das patas - mais que suficiente para dissipar sua concentração.
- Vocẽ não é digno de invocar a força das florestas! - ressaltou o arqueiro, ciente das consequências de seu ataque. - Venha me enfrentar com sua própria força, se tens alguma honra em vida.
- Como desejar, "duas pernas"... - O tom escarninho deu lugar à seriedade, como a calmaria que precede a tempestade. crivou suas garras no solo, maculando-o com sua excitação. - Faremos então do seu jeito...
***
Na escuridão interminável do calabouço, Garm permaneceu imerso em sua mente, nas vãs tentativas de invocar seus guias nesta jornada.
- Ei, você. - a voz rude carregava consigo a opressão, que desconhecia até o momento. - Podes me ouvir?
o Fenn-rir ficou em silêncio, indiferente.
- Preciso de sua ajuda... para reunir o meu povo novamente. S'haanti me disse que nos traria liberdade...
Um lampejo quebou o voto silencioso do Xamã. Lembrou-se das últimas palavras do Dragonita que tentou salvar há alguns ciclos, aos pés da floresta.
"Você, servo dos Veneráveis... Convoque S'haanti, nosso pai, que o guiará pelas matas até a árvore mais alta e antiga..."
Percebeu que a prisão não era um desafio, e sim, parte do seu caminho. Raakh não negou sua Epifania: sua conduta agressiva e vingativa faz parte do seu destino - uma provação a ser superada em seu caminho.
- Farei o meu melhor para devolvê-los ao seu mundo.
Nesta hora, uma terceira voz rasga o silêncio da penumbra, límpida e completamente negativa:
- Desista, Gru-hûk. Acho que ele mal nos entende...
Garm virou-se para trás, à procura do locutor de palavras tão vazias. Encontrou um volume de trapos, pulsante como um casulo, num dos cantos da cela. Fitou profundamente a fenda entre os andrajos.
- A desesperança fere o coração como as presas de um predador, e sua ferida permanece com a resignação.
As palavras serenas provocaram uma distinta comoção naquele vulto, a ponto dos farrapos não mais lhe trazerem conforto. Livrou-se dos andrajos, e se revelou com a fragilidade dos seres humanos.
Aproximou-se do lobo desajeitadamente, mãos e pés agitando-se na madeira fria e umidecida.
- Não sei que tipo de bruxaria vocẽ usou, fera. Mas não permitirei que faça isso novamente, entendeu?
Garm continuou a fitá-lo por mais algum tempo. O cheiro lúgubre das roupas daquele prisioneiro indicava quanto tempo ele ficou preso.
"O suficiente para perder suas esperanças", concluiu.
Voltou-se mais uma vez para o sofrido Dragonita, seus olhos fixos nas órbitas fendidas, um dos legados do Grande Dragão.
- Foi o seu pai que guiou meus passos, mas eu não sei como salvá-los por ora...
Tamanha franqueza em suas palavras causou a decepção àquele suplicante, sua cabeça pesando ante o fio de esperança de seus irmãos encarceirados.
- Mas não é hora de perdermos a esperança. Nossos guias saberão quando...
Suas palavras se perderam com a distração de passos chegando. O humano engoliu em seco no mesmo instante.
- Nossa hora chegou.
***
Longe dali, um combate acirrado crescia entre as florestas. Com as mãos nuas, Lêuciann desafiou o lobo branco, desejando subjugá-lo para inocentar seu amigo.
O Fenn-rir atacava-o incessantemente, garras e presas entregues à ferocidade em seu estado mais puro. As esquivas e fintas do Elfo lhe irritavam, atiçando-lhe a sede por seu sangue.
A cada soco, a ira de Raakh aumentava. Não havia nenhum sinal de honra em seus atos, e um uivo soturno transformou o ambiente.
- Gram-Mír!
O calor repentino colocou o Elfo de joelhos, de tão intensa a febre que o acometeu. À sua frente, o lobo gania novamente - inspirado pela vitória.
- A honra existe apenas para confirmar a fraqueza no coração dos tolos. - suas palavras, assim como seu olhar frio, denunciavam suas intenções frente ao inimigo. - E os fracos devem fortalecer os fortes, dignos da vida!
antes que o seu anseio por sangue fosse saciado, algo estranho aconteceu. O soldado esforçava-se para superar aquela limitação, e percebeu que não mais estava só. Um curioso frescor tomou seu corpo completamente, dizimando a febre que o incapacitava.
- Sinta nossa presença, guerreiro. - As vozes de anteriormente voltaram à sua consciência, em tom uníssono. - Estaremos contigo, dendo-lhe força para perseguir o seu destino.
O Fenn-rir estava impressionado, seus passos vacilantes procurando um caminho seguro para fugir. Concentrava-se para encerrar o combate, invocando as ventanias da Tundra ao seu redor.
De olhos fechados, Lêuciann se agachou para tocar o solo batido com as mãos, canalizando sua vontade no mesmo. Árvores estremeceram, e a terra pulsava no compasso de seu coração.
- Então, ainda não desistiu de lutar, "duas pernas".
O Elfo ignorou o desafio, fixando sua visão naquele lobo.
Sua reação, no entanto, partiu da própria floresta: os arbustos enredaram sorrateiramente as patas de Raakh, e folhas secas imobilizaram seu corpo.
A concentração do lupino é destruída pela dor dos galhos que penetravam por seu couro. Cicatrizes se abriam, o sangue abrindo veios por entre sua imaculada pelagem.
Após tolerar tanta dor, acabou inconsciente - em tempo para que Lêuciann encerrasse o seu ataque, e retomasse o controle de seus atos.
- O... que... aconteceu...?
A exaustão se faz presente nesta hora, cobrando seu tributo após uma demonstração fantástica de poder como essa...
***
Os guardas mantiveram seu ar ríspido quando abriram a cela. Pouco mais de dez Elfos, armados com lanças e carregando uma única tocha, retiraram Garm, Gru-hûk e o prisioneiro humano da escuridão, para conduzi-los a outra câmara.
a postura dos sentinelas oprimia ainda mais o Dragonita e o humano, e pouco pôde ser feito para manter a esperança neles.
- Algum plano em mente...? - O humano era, dentre os três, o mais apreensivo.
Não obteve resposta, senão uma forte pancada em seu flanco esquerdo. Mal viu o guarda retomando sua postura, pois estava mais preocupado com a indiferença de seus companheiros de cela...
A troca de olhares fixa entre o Dragonita e o Fenn-rir os deixava focados em seu contato empático.
- Que S'haanti, Allaria e os Senhores deste mundo possam abrir os olhos das Druidas neste julgamento...
- Eles o farão, sem sombra de dúvidas. Nos darão força para vencer a Escuridão que floresce aqui...
Gru-hûk assumiu a serenidade em seus olhos fendidos.
- Então, você percebeu.
- Não será o primeiro e, tampouco, o último combate com a Sombra. Há poucos ciclos, eu e um amigo a enfrentamos em uma aldeia próxima.
- A cada dia, florestas choram com a força sombria. Não há mais lugar para mim, e meus irmãos, mesmo entre os Elfos.
A curiosidade do Xamã cresceu com esse desabafo.
- Por isso, vocês acabaram detidos...?
- Pragas, e a fome, atacaram meu povo. Busquei reuni-los para lembrar os Elfos da irmandade que nos uniu no passado, em tempos de guerra.
O réptil deixou-se sufocar pela tristeza.
- Recebemos a ira deles, e nossa luta pela vida tornou-se árdua. Tornamo-nos presas de inúmeras caçadas, e vi muitos morrerem para suas flechas. Tudo isso por desejarmos a dignidade dos tempos antigos.
- Por desejar a paz definitiva, contrariei as ordens do Pai para me oferecer em sacrifício: minha vida e carne, para poupar aqueles que sobreviveram. Acabei enganado pelas Druidas, e todos foram capturados para um cruel sacrifício.
Garm ficou sensibilizado com tamanha angústia, e procurou por uma resposta contra esse mal. Guardas e Duridas jovens preparavam os prisioneiros para o julgamento, com banhos frios e roupas próprias - mantos brancos, de seda pura.
O Xamãbuscou decifrar os sentimentos daquele humano, na intenção de tranquilizá-lo. Mas o próprio mantinha-se esquivo, sem interesse para conversas.
Depois dos devidos cuidados, os três prisioneiros foram conduzidos para fora da árvore, onde um rútico tribunal ao ar livre os espera. Na clareira, Druidas e soldados formavam um círculo em torno dos réus, e de uma respeitável anciã Élfica - a mesma que os recebeu na Sequóia.
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