quinta-feira, 26 de abril de 2012

NOITE SEM FIM - Terceiro Ato: DESAFIOS

Saudações, caros visitantes. Daremos continuidade com a Noite Sem Fim, em um momento repleto de tramóias e movimentos do real inimigo nesta história...

Tenham uma boa leitura!

Parte Quatro

Lazzuria logo some do firmamento, deixando sua gêmea prateada à mercê das sombras mais densas na Penumbra. Olívia permanece em uma das celas, melhor acomodada que no momento de sua chegada.

Sabia muito bem a razão de tamanha cautela: desconfiança. Por várias vezes, ela ficou sabendo sobre a incursão de bandidos pelo apoio de sua Companhia, fosse formal ou informal. Ela própria acabou envolvida em um desses negócios, depois de coagida e chantageada.

Esta foi a razão verdadeira para seu desligamento da Companhia. Queria chegar a Kannon Town para sumir de vista por uns tempos, e Ledger não a importunaria nunca mais...

Evitou pensar no assunto para focar-se novamente em sua leitura, indiferente aos olhares constantes de Leeds e seus subordinados. O diário em mãos, para continuar seu trabalho de tradução, e logo desvendou dados suficientes para deixá-la perplexa.

A começar pelo nome do protótipo: "Doppëlganger". Já conhecia bem este nome, fruto de teorias e hipóteses em vários tratados sobre Metamagia. Este tipo de autômato se destacaria pelo apurado controle corporal (como seu nome indica, na Primeira Língua), possível pela mistura de componentes únicos e almas com poder suficiente para garantir sua inteligência.

Seu maior trunfo, contudo, não seria apenas o controle total sobre o seu corpo, e sim suas capacidades adaptativas: o simples contato com instrumentos de todo tipo permitiria a assimilação completa de suas propriedades, funções e resistências. Em outras palavras, próprio para qualquer tipo de situação e desafio.

Mais assustador que saber disso, foi a descoberta dos componentes utilizados na construção desse modelo: a partir da comunhão das almas de condenados oferecidos em sacrifício, seus comandos primários incluiriam a violẽncia como principal modo de resolução.

"Ele deveria ser uma impiedosa máquina de guerra!", concluiu consigo mesma. Na mesma hora, pensou em Maxwell, e tudo por ele demonstrado em seu pouco tempo de convivência. Sentiu-se amparada em sua presença, como nunca sentiu antes. Por esta razão, desejou não acreditar no que descobriu.

"Alguma coisa deve ter acontecido na sua construção, que suprimiu seus comandos primários... Mas, o quê pode ter sido?"

Seu questionamento foi abruṕtamente interrompido pelo alerta dos guardas, que dispersaram-se na escuridão urbana. O líder permaneceu na guarnição, suas mãos enrijecidas pela cautela e bem próximas do seu armamento.

Olívia deixa os livros de lado e mantém sua faca em punho, motivada por um mau pressentimento.

***

No alto de um telhado, Ledger tinha em seu alcance tudo de que precisava para cumprir o seu trabalho. Alguns metros à frente, o seu alvo: a guarnição da milícia de Highwoods. Gritos e ruídos ao fundo garantiriam o tempo para cumprir o trabalho - uma distração causada por seus capangas para afastar os guardas.

Satisfeito, desembainhou sua adaga. Fitou o contraste em sua lâmina, dois fios gêmeos de prata, unidos por um sulco negro purpúreo e nauseante. Com ela em mãos, olhou para frente: três telhados cobriam a distância entre o assassino e sua presa. Precisava ser cuidadoso, aproveitar-se da sombra noturna para passar despercebido, sem o menor ruído.

Seus saltos precisos superaram o percurso silenciosamente, com a devida cautela. Não podia deixar nenhuma pista ou testemunha para trás, e sua lâmina podia tocar um único alvo.

Jessie Leeds.

No alto da guarnição, Ledger procurou por alguma via de acesso ao seu interior. As janelas do segundo piso estavam abertas, alguns metros abaixo do telhado. Para o seu deleite, não havia ninguém lá dentro, além da sua vítima. Agarrou-se na borda do telhado com uma das mãos e, numa veloz pirueta, colocou os pés na janela com a força do impulso.

***

Olívia e Leeds sobressaltaram-se com o estouro no andar de cima, sua atenção voltada para a escadaria mais próxima. O líder local conteve sua respiração, mantendo a mira de sua espingarda com precisão. A jovem, por outro lado, manteve a faca em suas mãos, já temendo o pior...

- Mantenha-se calma, mocinha. - Alertou, com a voz baixa e pausada. O cavaleiro chegou a conter a respiração por breves segundos, om seu olhar firme vasculhando a sala.

Não foi cauteloso o bastante perante o assassino, bem armado com sua adaga venenosa. A força do salto foi suficiente para derrubar o guerreiro, e um arranhão em seu antebraço foi suficiente para injetar-lhe o veneno.

Ledger se afastou, na defensiva e, ao mesmo tempo, contemplativa. Leeds esforçava-se para ficar de pé, mas a dormência logo emergiu com a dor. Sorrindo, o assassino alcançou as escadas para se misturar à noite.

Até que Olívia interveio, um ataque desesperado contra seu velho inimigo.

- Ora, ora. - Disse, aparando o ataque com a mão nua. - O que temos aqui?

Olívia tentava se libertar, mas Ledger era muito mais forte. O assassino verificou de perto sua adaga, o sulco parcialmente preenchido com veneno.

- Você tem sorte por ter sobrado um pouco... - Comentou, puxando a jovem para perto. Ela pôde ver o veneno jorrar da lâmina, já rente ao seu braço. - Vai morrer sem o menor sinal de dor...

A surpresa interrompe suas intenções, ao estrondo de uma espingarda. O braço direito de Ledger é desfeito em uma explosaõ de sangue, até o cotovelo. A dor e o choque confundem o bandido, que só pensa em fugir. Deixou sua faca, Olívia e Leeds para trás.

O líder da milícia tomba novamente, após tanto esforço para reempunhar sua fiel arma. Depois de recolher a faca de Ledger, Olívia o acolheu para levá-lo até um médico.

Se a situação antes era caótica, na cidade tudo ficava ainda pior. A milícia desdobrava-se para apaziguar os populares e prender os baderneiros. Focos de incêndio ardiam em diversos pontos da cidade, e nenhum médico estava disponível.

- Diabos! - retrucou, retesada pela força que fez para carregar Leeds consigo. - O que posso fazer?

Um vulto aparece alguns metros à frente, indistinto e correndo para fora da cidade. Cercada por todo aquele caos e sem alternativas, a jovem resolveu tomar o mesmo rumo.

Mesmo após perder o vulto de vista, Olívia embrenhou-se na floresta. Procurava um lugar calmo e seguro para remover o veneno e improvisar um tratamento mais adequado. Mas não tinha tempo: a cada segundo, o Prefeito de Highwoods perde a cor vívida de sua pele, e a frieza em seus braços aproxima-o da morte.

A pressa causa à jovem um fortuito acidente. O trpoeço em uma raiz protuberante a fez cair, uma pancada forte o bastante para causar-lhe desmaio e deixá-la à mercê da floresta...

***

O calor luminoso das chamas de uma fogueira foi suficiente para o despertar de Olívia, bem acomodada em uma cama de madeira. Ao seu lado, Leeds repousava nas mesmas condições, com o rubor da saúde em seu rosto.

Sentou-se para conferir o lugar onde estavam, e a dor lhe atacou a nuca, envolta por bandagens. Identificou o local como uma choupana, e percebeu que alguém se aproximava.

Ao abrir da porta, a jovem nada fez para conter o pavor. Gritou de medo, assustando o Dragonita, que deixou cair no chão a esta que carregava. Frutas e grãos se espalhavam pelo chão, e ele repidamente se agachou para juntá-las.

- Mil perdões. - Respondeu, sem encarar sua visitante nos olhos, com um dialeto rude e quase gutural. - Não quis assustá-la.

Olívia estranhou a reação assustadiça de seu anfitrião. Passou os olhos rapidamente pelo casebre uma segunda vez, e não encontrou armas ou sua mochila. Logo percebeu sua nudez, a pele macia e trêmula agitando de leve os lençóis que a cobriam.

O Dragonita caminhou até o outro lado da casa, onde a fogueira e uma mesa o esperavam. Com uma faca, cortou os legumes e os colocou em uma panela de ferro, junto com água e pedaços destrinchados de coelho.

- C-como você... está se sentindo? - Perguntou à jovem, ainda desconcertado.

Ela optou pelo silêncio, de tão embaraçada com a situação. Esforçou-se para sair da cama, e foi atingida novamente pela fraqueza. Sua queda foi evitada graças á rapidez do anfitrião, que conteve sua queda.

- Aalme-se. Voê ainda está muito fraca, graças ao efeito do veneno.

"Veneno?", questionou-se. Buscou lembrar-se do acontecido, e só perebeu uma estranha mancha roxa em seu antebraço. O Dragonita esfregou sobre a ferida uma porção de banha seca, semelhante a sabão.

Recolocou-a confortavelmente na cama, como a mãe zelosa o faria com seu único filho.

- Descanse mais um pouco, e você logo ficará bem.

Interrompeu a inquietação da jovem com um gesto suave, contraditório à sua natureza bruta, e logo voltou a seus afazeres.

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