Saudações, caros visitantes. Esta é uma noite ideal para histórias, por lembrar muito os desertos onde nasci - e nada melhor que uma história para aquecer o coração de viajentes, não é mesmo?
Aproveitem a leitura deste novo fragmento da Noite Sem Fim!
Parte Seis
O incessante vendaval das terras ermas foi o disfarce ideal para Maxwell, juntamente com a carroça que guiou à escuridão. No centro de um descampado, paliçadas foram erguidas irregularmente, às pressas.
- Mantenham a calma. - Disse, aos passageiros esperançosos do coche. - Fiquem no carro até que eu os avise.
Deixou a carruagem para esgueirar a cerca para espiar o seu interior, na busca de algo que o ajude em seu plano. Percebeu a presença de duas tendas: uma muito grande, provavelmente usada como alojamento para os escravos; e outra menor e aparenemente confortável, cercada por barriletes e caixas de suprimentos.
O movimento irregular de sentinelas pelo território também foi percebido - não mais que cinco, armados com espadas e carabinas. Havia um sexto vigilante nas proximidades, alojado em uma modesta torre de vigília, no centro do acampamento.
A escuridão privou seus olhos de quaisquer outros detalhes, irrelevantes para o Autômato que já sabia como agir. Concentrou-se em si próprio para ultrapassar aquela fresta, e a transformação é iminente.
Uma vez dentro do acampamento, Maxwell aproximou-se da tenda menor pelos fundos, modificando seu corpo com facilidade para ultrapassar os seus limites. Entre as camas improvisadas dos guardas lá fora, um homem dormia tranquilamente. Seu robusto abdômen balançava com a respiração pesada, e o fino terno que trajava o identificou como líder do bando.
Seus roncos foram abruptamente interrompidos pela falta de ar, ocasionada pelo estrangulamento. Maxwell apertava com força o seu pescoço, para que nenhum ruído tornasse mais difícil a sua missão. A inconsciência do sujeito foi o alívio para o invasor, que não pretende assassinar seres humanos - por piores que sejam suas atitudes...
Apagando a lamparina, o Autômato esperava convocar os sentinelas para uma emboscada, e o truque deu certo. Dois guardas entraram, motivados pelo sono, e sequer viram o que os nocauteou. Sua paciência inumana permitiu realizar o truque novamente, e todos ali detidos foram presos com amarras e mordaças improvisados.
A confiança deixou Maxwell Despreocupado, a ponto de não mais manter a discrição. Dirigia-se à tenda maior quando um estrondo lhe surpreendeu pelas costas. Viu o seu braço desprender-se do corpo, antes que qualquer reação fosse desencadeada...
- Ora... Parece que minha pontaria está piorando... - Uma voz embriagada vinha do alto, mais exatamente da torre de vigilância. Desceu as escadas com total displicência, uma das mãos carregando uma garrafa de uísque barato. Em bolsos e coldres, carregava consigo várias armas de fogo: rifles, revólveres e carabinas embainhadas em cada flanco, como espadas.
Com o andar trôpego, manteve uma boa distância do seu alvo, ainda paralisado pela surpresa. Não esboçou qualquer tipo de reação pelo ferimento, muito menos pelas lamúrias que vinham da tenda.
- Engraçado... - Entre um soluço e outro, o bandoleiro tentava manter a seriedade. - No meu tempo, as pessoas gritavam feito loucas quando perdiam um braço.
Maxwell permaneceu quieto, recolhendo seu braço para reatá-lo a seu corpo em segundos. Voltou-se para o pistoleiro, olhos fixos em seu semblante ébrio.
- Vai se arrepender por isso, bandido.
- Ah, é mesmo? - O ar zombeteiro daquele mercenário aumentava o descontrole do Autômato. - Pois eu aposto uma garrafa de uísque que você não me acerta um golpe que seja.
Bebeu em um só gole o conteúdo da garrafa, e a largou no chão para empunhar um de seus rifles, apenas com a mão esquerda. Sua postura confundiu Maxwell, pois a arma mais parecia uma espada longa em sua mão - pronta para o ataque.
Suas mãos pulsaram em ritmo acelerado, anormal até mesmo para o seu comportamento habitual. O anseio por uma luta o enervou completamente, o sangue fervia em suas veias.
- Estou esperando! - O bandoleiro demonstrou impaciência, vacilando em sua postura. Os punhos cerrados do Golem dão lugar a lâminas finas e longas, e um salto para frente indica o início do confronto.
Para quem estava no interior da tenda, opressão e desespero deram lugar à curiosidade pura e simples. Alguns aproximaram-se da entrada, desafiando reprimendas dos mais velhos para ver o que acontecia lá fora.
Seus olhos registravam um espetáculo ímpar. Um jovem humano com espadas no lugar das mãos investia com ferocidade contra Clint, o bandido mais perigoso daquele grupo. Este, bêbado como de costume, conseguia evitar os ataques com perfeição - seja desviando na hora certa, seja defendendo-se com o rifle que inha em mãos.
Podiam constatar o cescente rancor do atacante, mais pela teimosia de seu adversário. Em nenhum instante pensou em atacar, como se tudo aquilo o divertisse. Havia quem dissesse que o velho bandoleiro sorria de tão satisfeito, talvez por ter uma carta na manga...
- Vamos, maldito! - Maxwell deixava-se inflamar pela crescente frustração. - Lute comigo!
- Para quê, se assim está mais divertido? - O sujeito se conduzia por sua embriaguez, fluida em cada passo de sua dança macabra. - A não ser que já esteja entregando o ouro...
As zombarias de Clint causavam a imprecisão nos ataques de Maxwell. Não entendia bem o porquê de atacá-lo com tamanha brutalidade, pois seu rosto parcialmente oculto pela barba longa era praticamente humano.
A distração permitiu que uma brecha se abrisse em sua guarda, e o velho causou-lhe o desarme. Em uma fração de segundo, o Autômato se viu surpreendido pela lâmina engastada de seu oponente, perigosamente próxima de sua garganta.
- Se não fosse tão bonzinho, você esteria mal. - O bandoleiro sorriu, apesar dos soluços.
Maxwell extrapolou a lógica em seus movimentos. Avançou com indiferença à baioneta que perfurava seu corpo e, com suas lâminas, visou a cabeça do seu inimigo.
No entanto, apenas retirou-lhe o chapéu envelhecido, e seus cabelos louro-acinzentados desprenderam-se da trança. O distinto par de orelhas, finas e pontiagudas, resgataram novas memórias para o Autômato.
- Um Elfo!
Sua postura mudou completamente ao perceber a netureza daquele mercenário. O espectro da sua visão passou a ser escarlate, e seu corpo estava um pouco mais leve. Não sentia mais o controle em suas mãos e pés, como se algo além de sua compreensão assumisse as rédeas de seu corpo.
O bandoleiro também percebeu a mudança nos ares e retirou das costas o segundo rifle. Empunhava um em cada mão, combinando esgrima e artilharia em uma postura singular - e confusa para observadores.
Maxwell estava completamente fora de si, um mero espectador de sua conduta. Cada poro de sua pele exalava um curioso vapor, como se próximo da ebulição. Suas mãos haviam voltado ao normal, mas pulsavam com força e velocidade.
- Venha, garoto... ou seja lá o que você for. - Pigarreou o bandido, à espera do verdadeiro combate. Mas isso não era necessário: o Golem o atacou com exímia agilidade, seus punhos transformando-se em pesados malhos de carne.
O Elfo parecia indiferente à nova ameaça, e manteve-se concentrado na defensiva por alguns instantes - como a presa encurralada, procurando por uma rota de fuga. E a idéia lhe vem de súbito.
Aparou o ataque com um dos rifles, atirando com o outro em uma das pernas de Maxwell, que perde o equilíbrio na mesma hora. Outros três tiros irrompem no ar, cada um destes arrebentando os membros ainda ativos do Autômato.
- Sabe... foi realmente divertido. - O enfado estava presente nas palavras do ébrio. - Mas, agora tenho que acabar com esta farra...
Os gritos de horror e olhares estilhaçados da tenda foram os últimos registros de Maxwell, antes que a dor lancinante do último disparo lhe conduzisse à inconsciência...
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