Enfim, continuemos com mais uma parte desta história, a todos que a acompanham com frequência. Aproveitem a leitura!
Parte Seis
"Aquela garota pagará caro por isto!".
A mente de Ledger estava consternada pelo truque de Olívia, e o mesmo raciocínio passou a ser utilizado para traçar seu plano de fuga.
Observou atentamente a situação: estava escoltado por quatro guardas, armas em punho e apontadas em sua direção. O líder ficara para trás, e isso facilitava um pouco mais a situação.
Olhou discretamente para os lados, além da escuridão de becos e vielas. Parecia satisfeito com a movimentação quase imperceptível que seus olhos treinados captaram, a ponto de assobiar sem o menor compasso.
- Ei. - Um dos sentinelas o empurrou com a coronha de seu rifle. - Pare com isso.
Ledger persistiu com o ruído escarnecedor, até que novas reações distraíssem a escolta.
O momento ideal para sua fuga chegou, e o tom mais elevado do assobio foi o sinal para seus comparsas, que atacaram o comboio furtivamente.
Seus corpos foram recolhidos, e todo o sangue foi contido - medida fundamental para evitar confusões com as autoridades. Ledger estava livre outra vez, e com seu inseparável revólver nas mãos.
- Já sabem o que fazer. - Sussurrou a todos.
Como resposta, cada um dos comparsas desapareceu na escuridão urbana.
A casa de Annabell estava muito além da imaginação de Olívia. Uma mansão requintada de pedra, aos moldes da fina arquitetura Ancestral. Entre os móveis e adereços de luxo, muitas estantes de livros e papiros bem protegidos da decomposição.
- Por favor, fique à vontade, minha jovem. - A postura incisiva de outrora dissipou-se no rosto da anfitriã. Olívia pensou estar no paraíso e analisou de perto os títulos em cada estante. Annabell retornou à sala com duas xícaras de chá quente.
- Pelo visto, apreciaste minha coleção...
- É quase tão grande quanto a Biblioteca da cidade! - A jovem estava no mais profundo êxtase, como uma criança. - Tanta informação sobre nosso mundo...
Annabell riu frente a tamanho entusiasmo, como se a visse alguns anos mais jovem.
- Na verdade, boa parte destes não pertencem à Biblioteca. São o legado de minha família, e o acesso a eles deve ser limitado. Entretanto, sua dedicação me lembrou a mim mesma, e por isso queria lhe mostrar algo.
Deixou o livro de capa rubra que trouxe consigo sobre a mesa da sala e, na estante que há pouco a jovem vasculhou, retirou outros três volumes idênticos, de capa feita com o mais fino couro.
- Os professores me comentaram sobre a sua busca por dados acerca de Golens.
- Sim... - O embaraço tomou Olívia, lembrando-a novamente dos olhares de estranheza dos bibliotecários. - Eu já os pesquisava quando servi à Companhia Sandwolves, e acabei me deparando com um espécime singular.
Annabell franziu o cenho, de tão interessada no assunto.
- Descreva-me o espécime, o quê o distingue de outros tipos de Autômato. - A senhora mantinha seus questionamentos, como se a um passo de uma constatação.
Dois goles do saboroso chá foram necessários para que Olívia retomasse o seu discurso.
- Ele não possui nenhum sinal que o identifique como um Golem. Seu corpo é idêntico ao de um ser humano, e apenas a sua conduta é tão mecânica quanto um Autômato: sem qualquer sensação e/ou sentimento...
Annabell nada diz, concentrada nas palavras de sua visitante.
- Além disso, situações de risco alteram sua conduta, para uma programação defensiva previamente engatilhada. Pelo que pude perceber, seus reflexos são muito apurados e seu corpo é a única arma de que dispõe.
- Entendo. - A bondosa anfitriã tem nas mãos um dos livros que retirou anteriormente. Seus dedos passearam pelas páginas amareladas do tomo pacientemente. - Agora... Responda-me uma dúvida: como ele utiliza seu corpo em combate?
Alguns instantes de silêncio foram necessários para resgatar as memórias recentes da viajante - fatos que preferia esquecer em consideração a Maxwell.
- Ele possui controle total sobre sua composição, transformando-a em armas mortíferas a seu bel-prazer.
Um apressado gole de chá conduz a Prefeita a uma resposta clara. Colocou o livro aberto sobre a mesa, e seus dedos marcaram as páginas que registravam tal conclusão.
- Então, acho que já sabemos o quê você encontrou, minha jovem.
Olívia observou cuidadosamente cada uma das imprecisas anotações, fórmulas e esboços - aliás, bem semelhante À fisionomia do próprio Maxwell - que nunca viu em pesquisas anteriores a esta.
- Este tipo de Autômato foi desenvolvido pouco antes do término da Guerra pelo legendário Gruunak, o maior Metamago que já existiu. Sua composição básica inclui a fusão de mercúrio em um corpo recém-falecido, fresco o bastante para ser reanimado desta forma.
- Gruunak? - A jovem arqueóloga pouco faz para conter sua contrariação. - Eu pensava que a Guerra o tivesse levado ao isolamento...
- Não foi exatamente a Guerra que causou o seu isolamento, cara Olívia. - Annabell retirou o livro da mesa, o marcando com uma fita vermelha de seda. - Mas presumo que você poderá ver isso com seus próprios olhos.
A jovem percebeu que horas eram: o tempo passou tão rápido que logo se constrangeu por ocupar o tempo livre daquela dama.
- Peço desculpas por tomar o seu tempo, Senhora Willard.
- Não se incomode, minha cara Olívia. - Annabell tomou um último gole de chá antes de conduzir sua visitante à porta. - Tive minhas razões para mostrar-lhe o que tanto procurava. E não se esqueça disto aqui.
Suas mãos idosas entregaram o livro para a viajante, relutante em recebê-lo.
- Não, eu não posso aceitar, Senhora...
- Aceite-o como um presente. - Insistiu a Prefeita, com o máximo de cordialidade. - Pois uma pessoa tão obstinada quanto você merece ter o mundo à sua total disposição.
Olívia se despede com entusiasmadas mesuras, prometendo devolver o livro assim que concluísse sua busca. Em seu retorno, à estalagem, a viajante pensava apenas em retomar sua jornada - sem perceber, no entanto, que um velho conhecido lhe seguia de perto, bem ciente de seus propósitos...
Nenhum comentário:
Postar um comentário